segunda-feira, 12 de novembro de 2012

Quando a anormalidade se torna normal


Hoje é muito mais comum ouvir-se falar mal do que ouvir-se falar bem. Tanto que as incorreções já não espantam ninguém. Pior: as incorreções vão-se transformando em "normalidade", perante a indiferença generalizada dos que consideram que dizer "assim" ou "assado" não tem a menor importância.
E, por isso,  predominam os  "prontos" "fostes" "hádem" "haviam" "diria-lhe" "eu chamo ele" "eu disse-lhe a ela"  "um dia solarengo" entre muitas outras distorções e monstruosidades, que se vão tornando banais.
Veja-se o seguinte diálogo:
- Ontem esteve um dia tão solarengo! Onde é que fostes ?
- Era para ir passear com a minha mãe, mas como haviam muitas pessoas na rua, eu disse-lhe a ela: Prontos! Ficamos em casa. Hádem vir outros dias assim. E ela chamou-me de preguiçosa. Eu diria-lhe que é mais uma questão de comodismo...
Quantas pessoas não acharão este diálogo perfeitamente correcto? Quantos não considerarão que cumpre a seu objectivo de fazer passar uma determinada mensagem e que só isso importa?
No meio de todas estas barbaridades que,  a cada momento, ferem os ouvidos e fazem arrepiar os pelos dos poucos que ainda têm respeito e consideração pela nossa língua, assume particular relevância e complica-me de forma especial com o sistema nervoso o "chamar de...", que já se vulgarizou completamente. "Ela chamou os seus vizinhos de ignorantes" passou a ser regra, em vez da forma correcta: "Ela chamou-lhes ignorantes" ou "Ela chamou ignorantes aos seus vizinhos." Toda a gente, (incluindo pessoas supostamente intruídas e que teriam obrigação de saber como se diz), parece ter esquecido que se chama alguma coisa a alguém e não se chama alguém de alguma coisa. Porque não somos todos brasileiros, graças a Deus!...
Enfim, o domínio da língua e o uso que se faz dela também diz muito da cultura de um povo.

sexta-feira, 9 de novembro de 2012

Livro(s) marcante(s)



Devia ter dezassete anos e não sabia que caminho escolher. A minha preferência ia naturalmente para as letras, mas dividia-me entre a Filosofia e a Literatura, porque ambas me fascinavam, sem ignorar a opinião dos que defendiam que, face à minha visível capacidade de síntese e de argumentação, seria Direito a opção mais acertada. 
Eu ouvia e duvidava. Na verdade também achava que conseguia exprimir-me com razoável clareza na escrita, mas sabia que não era uma comunicadora nata. E, sem certezas, o Direito parecia-me demasiado rígido e pouco adequado ao meu lado mais introspectivo e sonhador. Faltava-lhe a vertente estética, criativa, que me parecia dever fazer parte do meu quotidiano.
Ainda hoje penso que foram os livros que me levaram a decidir-me finalmente pela literatura e, de uma forma muito particular, este livro: Aparição, de Vergílio Ferreira. Não sei explicar porquê. Sei que, naquela altura, me tocou mais que os outros. Mas, no fundo, estou certa que o que motivou a decisão final foi um conjunto de factores. Foi, por exemplo, também, um excelente professor de Português que me deu aulas nos  dois últimos anos do liceu, que me ensinou a ver a literatura muito para além das palavras no seu sentido mais imediato, que me fez amar tantos autores de língua portuguesa, que me deu a conhecer  Eugénio de Andrade e alguns  poemas que ainda recordo, que quase sei de cor  e que me encantam até hoje: Já gastámos as palavras pelas ruas, meu amor...
Escolhi o meu curso sabendo  o que me estava destinado no final, mas posso dizer que ser professora foi mais uma consequência do que uma motivação. O que eu sabia que gostava e queria fazer era ler e escrever. E isso dava-me tanto prazer, que achava que podia transmiti-lo aos outros. É o que tenho tentado fazer: ensinar como pode ser bom ler. E escrever. Como podem ser apaixonantes as palavras e as línguas. Como a literatura nos permite conhecer o mundo, conhecermo-nos e sonhar. Espero, nalguns casos pelo menos, tê-lo conseguido.
Quando acabei o curso, achei que se calhar ainda podia ir fazer o de Comunicação Social. Mas não cheguei a concretizar essa ideia. E, hoje, tenho a certeza que fiz uma escolha acertada, da qual não me arrependo de todo.
Na minha vida, os livros tiveram sempre um lugar central. Sempre me lembro de ler muito e de gostar de o fazer. Houve muitas coisas que vivi nos livros antes de as viver na realidade. Mas há sempre aqueles que nos marcam.
Destaco, entre muitos outros que  ajudaram a formar a minha personalidade e mundividência, além deste, mais dois: Cem Anos de Solidão, de Gabriel García Marquez, que li pela primeira vez com 18 anos e, muito recentemente, As Travessuras da Menina Má, de Mário Vargas Llosa.
Passsados todos estes anos, Vergílio Ferreira continua a ser um dos meus autores preferidos, mas nunca mais li este livro e presumo que, se o fizesse, provocaria em mim um efeito totalmente diferente. O que sei é que há livros que ninguém pode deixar de ler. E que há, também, os nossos livros... E que, sem eles, a nossa vida não seria a mesma.

terça-feira, 6 de novembro de 2012

O teu abraço


Há momentos em que tudo é só desejo, em que tudo se resume ao corpo, na excitação da vontade física, na urgência do abraço apertado, do peito contra o peito, às ordens do coração, no prazer da entrega total, que não deixa pensar em mais nada. E na paz que vem depois, num tempo e num espaço onde só há lugar para o amor.

segunda-feira, 5 de novembro de 2012

Alma Portuguesa



Este Sábado, num Coliseu repleto de gente de diversas proveniências e faixas etárias desiguais que subitamente se remeteu ao mais profundo silêncio para ouvir cantar o fado, pude perceber, talvez pela primeira vez na vida, a sua força unificadora como elemento caracterizador de um povo. E deixar-me levar pela magia da música, também...
É difícil  ser português e não se emocionar  com o fado. Mesmo se esse não é o nosso género musical favorito. Mesmo se não é essa a nossa primeira opção nos momentos em que não sobra espaço para as palavras e queremos que só a música e os sentidos tomem conta da nossa vida.
Falo por mim: contam-se pelos dedos de uma mão os discos de fado que tenho. Há fados e fadistas, mesmo reconhecidos nacional e internacionalmente, que não me dizem nada. E este  foi só o segundo grande concerto de fado a que assisti. Porque gosto da Carminho e de a ouvir cantar. Porque, para mim,  se distingue das demais. Porque há naquela voz grave e fresca uma mistura de tradição e de não sei quê de inovador. Porque há,  sobretudo, na sua forma apaixonada de cantar, uma entrega que me toca, que arrepia, como se vinda do mais fundo de si a sua voz nos leve também ao mais fundo de nós e sintetize na perfeição o paradoxo entre contenção e arrebatamento que nos caracteriza na nossa essência, simultaneamente heróicos e receosos, nostálgicos de uma glória passada que sabemos que não regressa e crentes no destino para justificar a inércia do presente.
Ali, na escuridão e no silêncio daquela sala imensa, palco para mim de tantas memórias de outras noites de fortes emoções e puro encantamento, senti, como nunca, que na melancolia e na dolência que transmite o som da guitarra portuguesa está muito do que somos. E assim, na profundidade de emoções e sentimentos que ela evoca, é possível esquecer um país que tantas vezes nos desilude e envergonha, é possível sentir orgulho na alma portuguesa. 

quinta-feira, 1 de novembro de 2012

Um bom filme

 
Não gosto muito de filmes de acção e o 007 não faz propriamente o meu género. No entanto, desta vez, rendo-me.
Skyfall é um filme que vale a pena ver. São duas horas e meia  de uma história inverosímil, mas que prende e distrai. É um filme bem feito. Para mim  é, sobretudo,  um filme bonito. Tem um genérico lindíssimo, tem imagens magníficas, tem as fantásticas interpretações de Daniel Craig, Javier Bardem, Julie Dench e Ralph Fiennes. E tem esta música, cantada pela maravilhosa voz de Adele. Recomenda-se!...
 
Where you go, I go
What you see, I see
I know I'd never be me
Without the security
Of your loving arms
Keeping me from harm
(...)
Let the sky fall
When it crumbles
We will stand tall
Face it all together
(...)

terça-feira, 30 de outubro de 2012

Pai


Há treze anos, este foi um dia triste. Era uma sexta-feira. Eu não tinha aulas às sextas-feiras. Mas andava a aprender espanhol. Quando regressei do Instituto Cervantes, deviam ser umas oito e meia, um telefonema da minha irmã com aquela notícia que nunca se quer receber e a certeza dolorosa de que, afinal, as pessoas de quem gostamos não são imortais. Sabemo-lo, mas no fundo do coração temos uma secreta esperança de que possam ficar connosco para sempre. É talvez por isso que nunca estamos preparados para uma notícia assim...
Tenho recordações um pouco difusas do que se passou a seguir. Sei que nessa noite dormi mal. Lembro-me, sobretudo, da enorme sensação de solidão e desamparo que nada, nem niguém, parecia poder atenuar.  
Depois, durante algum tempo, não sei já quanto, senti-lhe a falta com maior ou menor intensidade. Arrependi-me um bocadinho de não ter sabido aproveitar melhor o tempo que a vida nos dera para estarmos juntos. De tanta coisa que entre nós tinha ficado por dizer. E espantei-me de sentir uma mágoa assim tão funda, como se, de repente, tivesse perdido as referências  e a própria vida tivesse ficado de certo modo diminuída, como se algo se tivesse apagado definitivamente.
A nossa relação não havia sido sempre simples, nem pacífica. Distante, conservador, lunático, pouco dado a manifestações de carinho, gostava pouco de beijos e abraços e, que me lembre, era raro sentar-me no seu colo. Às vezes, até parecia que estava ali sem estar. Em algumas ocasiões, feita tonta, cheguei a duvidar de que gostasse de mim...
Mas o tempo é um aliado bom e volta a colocar tudo no seus lugares. À distância de todos estes anos, reconheço agora que nos amava profundamente, embora tivesse sido educado no pudor dos afectos. E, de vez em quando, vêm-me à memória pequenos episódios do passado  e recordo mil e uma histórias que vivemos juntos, mas às quais não demos, no momento em que aconteceram, qualquer importância ou valor.
Ainda assim, foi pela sua mão que conheci muito do mundo e da vida. Foi ele que me ensinou a jogar xadrez e a escrever à máquina, que me ensinou a conhecer bem e a amar Lisboa, em grandes passeios a pé pela cidade, que muitas tardes se sentou pacientemente no banco do jardim infantil do Parque Eduardo VII até nos cansarmos de brincar, que me levou à catequese,  à missa na Capela do Rato e à ginástica no Sporting, que me ensinou a rezar e a ter fé e  tantas outras coisas só nossas.
Na lembrança que fica nos outros, na marca que deixam em nós é que as pessoas se "vão da lei da morte libertando". Hoje, agora, só consigo lembrar-me das coisas boas. E, com todos os seus defeitos e singularidades, além da minha vida, uma parte do que hoje sou, devo-a e agradeço-a ao meu pai.  

domingo, 28 de outubro de 2012

Missa Brevis



De João Gil pode esperar-se tudo. Com uma certeza: o que faz, quando faz, é sempre muito bom. É sempre bem feito. Mais que isso. A cada novo projecto, João Gil tem a capacidade de inovar e de surpreender, com o seu enorme talento e o seu génio musical.
Tenho acompanhado o percurso artístico do João Gil nos últimos trinta anos. Trinta e tal. É muito tempo! O João Gil é, sem dúvida, um dos músicos da minha vida e é, além disso, também, uma pessoa de quem gosto muito, simples, afectuosa, próxima, encantadora como muito poucos dos que têm o seu estatuto e notoriedade.
Há tempos, no final do mês de Maio, no lançamento do livro da Helena Sacadura Cabral, encontrei o João Gil, que me falou com entusiamo dos seus novos projectos e também da ideia de fazer uma missa em latim. Arrebitei as orelhas e arregalei os olhos. Pareceu-me estranho e interessante, simultaneamente. Fiquei curiosa....
Na última quinta-feira, cerca de cinco meses depois,  tive o privilégio de assistir ao vivo, no magnífico cenário  da Igreja de S. Roque, à primeira apresentação da Missa Brevis,  álbum de músicas compostas com base em textos litúrgicos, cantadas em latim por aquela que é para mim a mais bonita de todas as vozes - a de Luís Represas -  e também por Manuel Rebelo, num novo grupo chamado Cantate, que conta ainda com Manuel Paulo ao piano e Diana Vinagre no violoncelo.
 E, uma vez mais, fui testemunha de um momento único, intenso, absolutamente arrebatador e que me deixou de lágrimas nos olhos. Só que desta vez foi diferente. Foi ainda mais especial. Por tudo: pelo tempo que vivemos, pela novidade, pela profundidade, pelo sentimento, pela entrega, pela partilha de uma "inquietação" que começa por ser pessoal, mas que é, também, de todos nós.
Já ouvi o Luís Represas cantar em quase todos os contextos e todos os tipos de música, com diferentes acompanhantes e acompanhamentos. Ao som da voz de Luís Represas já experimentei toda a espécie de emoções e sentimentos, já não sei quantas vezes me emocionei, me comovi e arrepiei,  amei, sonhei, chorei, ri, sofri, cantei. Mas desta vez foi uma emoção que nunca experimentara, como se naquele lugar tão marcadamente espiritual, com aquela música, me tivesse apercebido que a arte e a fé têm muito mais em comum do que pode parecer, sobretudo porque, como tão bem explicou João Gil, ambas surgem de uma inquietação e da procura de respostas:  "Se não fosse a inquietação e a interrogação das coisas, não haveria música, arte, não haveria esperança.” 
A Missa Brevis  está à venda a partir de 2 de Novembro e é para ouvir muito, com muita atenção. E para deixar-se levar por aquela excelente música e por aquelas vozes excepcionais. Por mim, resta-me agradecer outra vez ao João Gil e ao Luís Represas por encherem de música a minha vida e com isso contribuirem para eu me sentir imensamente feliz!