sábado, 26 de junho de 2021

Uma Rainha (republicação)




Para o bem e para o mal somos sempre marcados por quem nos dá a vida. São os primeiros braços que nos abraçam e embalam, o colo que nos aconchega, a voz  e o olhar que nos ensinam o mundo e guiam o caminho. Habituamo-nos assim a um amor e apoio incondicionais e a um presença forte e serena, que julgamos poder durar para sempre, sem sequer pensar nisso.
Depois desentendemo-nos e discordamos, porque também há uma idade própria de ser assim.
Mas hoje sei a quem devo a maior parte do que sou, sei da honra e da dignidade a sobrepor-se aos inevitáveis erros a que ninguém escapa, porque somos humanos, falhamos e sofremos; sei da coragem de optar pela generosidade e a alegria, quando teria sido bem mais fácil cruzar os braços e desistir, ou escolher o caminho da amargura e do cansaço. Foi no bom humor, no riso e na limpidez dos seus olhos verdes que aprendi o lado bom de todas as coisas; e herdei essa vontade imensa de aceitar e aproveitar muito bem o que nos chega, como o que fazemos chegar.
Aos noventa anos, mesmo quando se é apenas uma sombra do que se foi um dia, perde-se a pose, o corpo verga-se, provavelmente sobram poucas memórias de um percurso muito longo e muito cheio, mas fica tudo o que se construiu e o reflexo do efeito que se provocou nos outros. 
Perdem-se os gestos e as palavras, mas ficam as emoções e os afectos, que transparecem ainda em olhares cúmplices e silenciosos, em risos fortuitos, em esboços de mimos, em prazeres simples e antigos: nas mãos que se tocam e se apertam, na delícia de saborear uma madalena, e em tudo aquilo que ainda nos mantém junto dos que amamos. E até talvez felizes...
Chegar aos noventa é só mais uma vitória. Por isso,  se pudesse, hoje, coroava-a rainha. E concedia-lhe o dom da infinitude.

(Este texto foi escrito há exactamente seis anos. E hoje, quando por quinze dias já não chegou aos 96, decido republicá-lo, porque continua a ser inteiramente verdade e porque, mesmo se já não podemos abraçar-nos e rir-nos juntas, no meu coração o nosso amor será sempre infinito).

segunda-feira, 17 de maio de 2021

De volta ao cinema


Se a Netflix vai sendo útil em tempos de confinamento, poder ir ao cinema é, de longe, outra coisa. Para mim, nada como magia do écran gigante, da sala escura e dessas duas horas em que nos deixamos transportar por histórias e vidas que, não sendo nossas, tantas vezes nos removem por dentro e nos fazem pensar.
Que bom, pois, poder voltar a um dos minhas paixões, com a benesse de agora nem sequer se poder comer ou beber nas salas, o que é claramente uma vantagem.
Optei pelo filme dos Óscares. Nomadland é, como seria de esperar, um filme triste. Mas poético, ainda assim. É um filme simples e complexo, bonito e áspero, com todas as contradições que marcam a existência, que trata de liberdade e de solidão, de precariedade e de incerteza, de morte e de vida, misturando ficção e realidade: Fern, a personagem principal, é fictícia, mas convive com nómadas reais que se interpretam a si mesmos, como Linda May, ou o mentor Bob Wells. Trata-se, no fundo de uma viagem por uma América um pouco diferente da que costumamos ver, ou que temos como representação mental, ao lado dos que escolhem a liberdade de ser e de fazer diferente, ou não têm outra possibilidade que não seja a de viver assim. Frances McDormand é excelente no seu papel de protagonista e também de fio condutor da narrativa, elo de ligação perfeito entre as várias histórias/vidas com que se cruza "down the road". 
O filme vale bem uma ida ao cinema, mas não sei se é assim tão excepcional para ser designado como "o melhor". Se calhar, a concorrência é que não era grande coisa. Mas, quanto a isso, não sou, por enquanto, capaz de ajuizar.

sexta-feira, 7 de maio de 2021

9 anos


O meu blogue é  quase adolescente, já que faz hoje 9 anos. Quem diria!... 
Quando o comecei, estava longe de imaginar que pudesse chegar tão longe e durar tanto tempo. E mesmo se, com o tempo, o entusiasmo inicial esmoreceu um pouco, tanto dias e horas depois posso dizer que me sinto orgulhosa das 1334 publicações de todos estes anos.
A todos os que por aqui vão passando, mesmo silenciosamente, muito obrigada por estarem desse lado.
E, parafraseando Jorge Palma, apetece-me dizer, também: "enquanto houver estrada para andar/a gente vai continuar."
 

domingo, 2 de maio de 2021

Amor maior



Sei bem como este dia sempre foi importante para ti. Talvez porque ser mãe foi o teu maior sonho e desafio, o teu melhor projecto e a tua razão de existir. Por isso te deste inteira, entregando-te de alma e coração, mesmo que aqui e ali possam apontar-se erros e sombras no percurso, já que é humanamente impossível escapar-lhes, por melhores que sejam as nossas  ideias e intenções. Sei, ainda assim, que te orgulhas da tua "obra" e acho, modéstia à parte, que tens razões para isso.
Lembro-me de como costumavam ser grandiosas as nossas comemorações, das infalíveis flores da florista "Malmequer", dos postais com palavras doces e queridas, dos almoços à beira-rio em restaurantes que já nem existem, e de tardes inesquecíveis de passeios, de risos, de conversas, de mimos, de cantigas desafinadas e outras parvoíces, próprias da cumplicidade única que só existe entre mãe e filha. 
Hoje, muita coisa mudou e já não pode ser como era, mas o nosso amor segue igual, sólido e invencível, para lá de todas as contrariedades e contingências, resistente ao tempo, ao espaço e até à pandemia, que só no ano passado não permitiu que nos víssemos. E, apesar de tudo o que agora é diferente, continua a ser uma sorte e uma felicidade ter-te ainda do lado da vida. 
Por isso, hoje, todas as flores de todos os jardins são para ti. E será sempre pouco, face ao que tu me deste a vida toda e continuas a dar, todos os dias.

segunda-feira, 26 de abril de 2021

Férias férias férias



As primeiras férias de cada ano têm sempre um sabor especial, ainda mais agora que estamos todos fartinhos de confinamentos e clausuras. Por isso, por mais pequenas que sejam, nada como um pouco de arejamento e mudança de ares para ganhar novo ânimo.
Gosto de férias sempre, mas não dispenso as da Primavera, que são de longe as minhas preferidas, não sei se por serem as primeiras, se por gostar tanto da estação, ou tudo junto. Este ano, os estados de emergência e os números pouco animadores sobre a evolução da pandemia empurraram-nas do início de Março para o final do mês de Abril, o que faz com que sejam ainda mais desejadas.
E há lá coisa melhor que interromper os gestos e os hábitos de todos os dias, deixar de lado horários e obrigações, poder usar o tempo a bel-prazer e ir por aí, com a sensação de liberdade, como se de repente  fossemos donos de nós e do mundo e nada fosse impossível. 
Sinto muitas vezes a necessidade de partir assim, em saídas curtas que me permitem sentir outros cheiros e ver outras vidas, deleitar-me diante do mar, caminhar pelas cidades que amo, ou pelas que não conheço ainda, reparar em todos os detalhes, ver, experimentar, aprender. E depois, então, voltar, mas revigorada, reconfortada, em paz. Tão bom!...

quarta-feira, 14 de abril de 2021

Tempo(s) de contenção




Vivemos, hoje, um tempo em que olhamos desconfiados uns para os outros. Tememos a proximidade, mesmo quando a desejamos mais que tudo, e hesitamos entre ceder à vontade do toque ou refrear vontades, guardando-as para tempos mais propícios e isentos de medos e limitações; reduzimos anseios ao mais imediato, sem saber o que esperar do que vem já a seguir; moderamos os gestos e os movimentos, na prudência e na sensatez de quem tem que aprender a viver de outra maneira, por força das circunstâncias.  E assim vamos deixando passar os dias, esperando poder enfim voltar ao que era dantes, como quem acorda e descobre que afinal foi só um pesadelo, desejosos de retomar a vida no ponto em que a deixámos quando eramos felizes sem o saber, quando os afectos se viviam sem apreensão, na sua espontânea irracionalidade, em todas as vezes que  sentimos que é no toque da pele que melhor nos entendemos, que compreendemos que é nos instantes em que os corpos se encontram e os sentidos se confundem que tudo faz verdadeiramente sentido, e é emoção pura, sem precisar de palavras...

Vivemos agora na incerteza, na ansiedade e no desânimo, mas não podemos deixar que eles nos vençam.  Há, ainda, no coração indomado e inquieto, a intuição e o desejo secreto de que o que quer que venha a ser o que virá será bom, marcado, como sempre,  pelo  afecto e a cumplicidade, que se destapa a espaços na emergência do corpo que se deixa levar pelo amor, no despropósito do que às vezes se faz presença real e proximidade total, sem querer saber de depois, para logo voltar à realidade, e se ocultar, e reprimir, agora sim, agora não, num turbilhão das sensações imoderadas e sensatas de querer prender e soltar, de ser tudo e não ser nada, simultaneamente.

Ensinam-nos tudo sobre o corpo e a cabeça, mas não sabemos nada sobre a emoção, o sentimento e o desejo. Não apenas o desejo concupiscente, que é ao que ele é por norma reduzido, mas o desejo lato sensu, que é muito mais vasto que isso, que domina a nossa vida de maneira diversa e muito, muito, abrangente.  E, ainda assim, apesar das todas as dificuldades  que nos limitam e condicionam, há que saber quem nos importa e o que nos faz falta, readaptarmo-nos, e aproveitar o que a vida tem de bom, assumir vontades, não se escusar  nunca ao prazer, nem ao que nos faz mesmo felizes.

quarta-feira, 31 de março de 2021

Abatimento e inquietação


Era como um não sei quê que vinha não sei de onde e às vezes se lhe instalava no peito e lhe ensombrava a vida. Não sabia se era cansaço, desânimo ou apenas tédio, aquela espécie de tristeza que em certos dias parecia assumir proporções disparatadas, sem que houvesse para isso uma justificação plausível, concreta, satisfatória, legítima, ou acertada.

Era uma angústia que lhe apertava o coração, era a vontade de se virar para dentro em silêncio e solidão e, ao mesmo tempo, impedir que aquele desconsolo se estendesse em tempo e espaço; era  a indecisão entre desatar as lágrimas e não precisar sequer de chegar a elas, uma consumição sem razão aparente, que tornava certos dias mais baços e difíceis de levar.

E, apesar dos pesos na consciência, do remorso e das voltas que desse à cabeça pensando que, não havendo na verdade motivo para se sentir assim, podia isso ser considerado desfaçatez ou ingratidão, havia que permitir-se, também, de vez em quando, viver um desgosto sem porquê, porque a vida não é só risos, felicidade e alegria, vai antes alternando entre luz e sombra, claro e escuro, dia e noite.