quarta-feira, 30 de novembro de 2016

Inactividade Forçada



Às vezes, quando corremos de um lado para o outro convencidos de que podemos tudo, é a vida que nos obriga a parar. Assim, mais ou menos à força, sem aviso prévio...
E então, o tempo por que tanto ansiáramos torna-se subitamente vazio, difícil de passar, como se as horas e os dias tivessem entrado em desaceleração total e a vida passasse para o modo de câmara lenta.
Não tem nada a ver com férias, em que se goza a euforia da inactividade e da lentidão, preenchendo o tempo de acordo com a vontade de cada momento.
Quando o tempo livre não é um luxo mas uma obrigação, aquilo por que se anseia é, por ironia do destino, o regresso dos horários e do ritmo mais veloz de uma existência "normal". Rotineira, até...
Resta o consolo de saber que há sempre situações bem mais difíceis e dramáticas, trautear baixinho "Desesperar jamais...", respirar fundo e continuar a acreditar que a vida é maravilhosa, mesmo se, por momentos, nos pode parecer que não.

terça-feira, 29 de novembro de 2016

Histórias de Lisboa (V)




Senhora do Monte


Foi, durante muito tempo, o meu lugar de eleição. Lá do alto, com a cidade a meus pés, olhei-a deslumbrada horas a fio e pude assistir muitas vezes ao cair da noite ou ao nascer do dia, vendo Lisboa a clarear ou a escurecer, transformando-se devagar em sons, cor e movimento, ou em repouso e quietude.
Ali, troquei beijos apaixonados, namorei ao luar, chorei a desilusão de amores breves que acreditara serem eternos, ou procurei refúgio para, em silêncio e solidão, de olhos perdidos no horizonte e pensamentos à solta, tomar decisões sérias, pensar na vida, sonhar.
Na verdade, há neste ponto alto do bairro da Graça, talvez até o mais alto da cidade, uma magia qualquer que faz dele um lugar meio feérico, quase irreal, suspenso no tempo e no espaço. 
Consta que foi este o local onde D. Afonso Henriques instalou o seu acampamento para conquistar a cidade. Na ermida de Nossa Senhora do Monte, fundada em 1147, dedicada a São Gens, um bispo mártir, encontra-se a cadeira de pedra que lhe terá pertencido e, segundo a lenda, se uma grávida se sentar nela terá um parto sem complicações. Mas, lendas e tradições à parte, é sobretudo a vista que nos seduz, por mais que a conheçamos. E, para mim, o Miradouro da Senhora do Monte será sempre muito mais que a melhor panorâmica de Lisboa. 
Hoje, quando regresso,  - agora que o visito bem menos amiúde -, não encontro já o sossego e o encanto de quando eu tinha vinte anos, pois tornou-se ponto turístico obrigatório, com alarido e euforia em excesso, e selfies garantidas. É quase como se aquele "meu" lugar fosse agora do mundo inteiro. E, no entanto, tem ainda qualquer coisa que me toca, me enternece e enfeitiça, que me faz espantar de tanta beleza, e gostar de ser daqui.

quinta-feira, 24 de novembro de 2016

60 anos: quem diria?


Luís Represas é muito mais que um amigo. É uma companhia de sempre, que, com a sua inconfundível e magnífica voz, fez do mundo um lugar ainda mais belo, me ensinou a entender o poder da música e me embalou quase todos os momentos de pura emoção, fosse ela feita de alegria ou de tristeza, de silêncios cúmplices ou de solidão e lágrimas magoadas, de amor ou de dor, de sonho ou de comoção...Por tudo isso e pelo que não sei dizer, gosto dele. Muito!...

quarta-feira, 23 de novembro de 2016

A tradição ainda é o que era



José da Câmara, que começa por ser um regalo para os olhos, comemorou no passado Sábado trinta anos de carreira, no belíssimo Teatro da Trindade.
Foi um concerto como uma noite de amigos, com todos os ingredientes com os quais sabíamos que podíamos contar: a voz grave, ligeiramente arrastada, que é a marca da família Câmara, o fado na sua vertente mais tradicional e mais aristocrata, as várias gerações presentes em palco, o que, pelas maravilhas que conseguem as novas tecnologias, incluiu até um dueto com o seu pai - Vicente da Câmara, recentemente desaparecido - , a evocação de quem já não está entre nós (Moniz Pereira, entre outros), o caminho percorrido ao longo de trinta anos, os fados incontornáveis, que cantámos juntos e de que "Cavalo Russo", "Lisboa à Noite"," Não venhas tarde", "É tão bom ser pequenino", "A Rosinha dos Limões" ou, naturalmente, a "Moda das Tranças Pretas" são apenas alguns exemplos.
Por mim, foi um espécie de regresso ao passado: revi amigos e emocionei-me com as lembranças dos "fados e guitarradas" de muitas noites bem passadas. Não se trata de saudosismo parvo, mas antes da doce nostalgia do que é sempre bom recordar.

terça-feira, 22 de novembro de 2016

Omar Sy superstar


É impossível, hoje, ver Omar Sy sem relembrar o seu inesquecível papel em Les Intouchables, de 2011, pelo qual, contracenando com François Cluzet, conseguiu a proeza de ser o primeiro actor negro a receber um César - o de "Melhor Actor",  em 2012.
Num registo totalmente diferente, podemos vê-lo de novo numa história empolgante, junto de James Thiérrée, nada menos que o neto de Charlie Chaplin.
Chocolat, de Roschdy Zem, é um filme inspirado na glória e decadência do primeiro artista negro do mundo do circo, em França, (Rafael Padilla, um ex-escravo cubano), e em particular do seu famoso duo com Georges Footit, o primeiro duo de palhaços da história circense.
Situado nos finais do século XIX, princípios do XX, o filme faz uma interessante reconstituição da época, mas também é verdade que perde ritmo, a certa altura, com pormenores que o tornam escusadamente longo.
Mas são notáveis as interpretações, quer de James Thiérrée (que eu nunca vira antes), quer de Omar Sy, que consegue fazer-nos rir e chorar e que, com o seu metro e noventa e o seu desarmante sorriso de menino, prova outra vez ser um dos mais carismáticos actores franceses da actualidade.

sábado, 19 de novembro de 2016

A inenarrável Linha Verde


Que os transportes de Lisboa estão cada vez piores parece-me mais ou menos consensual, pelo menos para quem, como eu, os frequenta diariamente.
O Metro, apesar dum rede excessivamente  reduzida (é incompreensível não haver Metro para as Amoreiras, para Campo de Ourique, ou para a Graça, por exemplo) tinha pelo menos a vantagem da sua rapidez.
Veio depois a pouca-vergonha das greves quase semanais que, ao contrário do que acontece noutras cidades evoluídas - Madrid, por exemplo - implicava o fecho integral do serviço durante dias inteiros.
Mas nunca o serviço do Metro foi tão mau como agora: todos os dias há pelo menos uma linha com "perturbações na circulação", o que significa atrasos imprevisíveis e incumprimento total de horários. Mas, para além da sujidade crescente das estações e carruagens, da degradação do espaço de forma geral, da ausência de funcionários em determinadas estações, dias ou horas, o que se passa na Linha Verde é o verdadeiro paradigma do péssimo serviço prestado a quem vive e/ou trabalha em Lisboa, para além do número crescente dos que nos visitam.
Como se explica, pois, que uma das linhas de maior movimento (Cais Sodré, com ligação ao comboio de Cascais - Telheiras), que cruza com a Linha que serve o Aeroporto e a Estação do Oriente, funcione sempre com as carruagens reduzidas a metade (três em vez de seis, como nas restantes linhas)?
Claro que isto significa a permanente sobrelotação das carruagens, cheias de gente literalmente "entalada" entre malas, visto que em cada estação entram pelo menos dez pessoas com bagagens. Um excelente cartão de visita, pois claro.
É por isso que podemos ter muitas manias de que somos europeus e civilizados, mas é, na verdade, no mais trivial que se verifica o nosso imenso e provavelmente incontornável atraso, que nos aproxima bem mais do Norte de África do que da Europa a que nos costumamos gabar de pertencer...
Assim não vamos lá...

quarta-feira, 16 de novembro de 2016

Ocho apellidos catalanes


Há cerca de dois anos vi uma comédia espanhola que me divertiu imenso e da qual falei aqui. Pois surgiu agora a sequela e não a quis perder, embora um pouco desconfiada, por considerar que nestes casos a continuação é quase sempre inferior à primeira versão.
O filme, que se chamava no original ocho apellidos vascos, segue com ocho apellidos catalanes e é a continuação da mesma história, com os mesmos protagonistas e mais dois ou três.
Inexplicavelmente, a tradução do título insiste no ridículo "Namoro à espanhola",  pondo mais a tónica na vertente de "história cor de rosa" - o romance entre Rafa e Amaya  - do que no que o filme é acima de tudo: um retrato/caricatura dos estereótipos sobre as diferentes regiões espanholas; e é isso que o torna simultaneamente popular e muito divertido.
Claro que nesta segunda parte se perde um pouco o  efeito surpresa da primeira, que foi, ao que julgo saber, o maior êxito de bilheteira de todos os tempos em Espanha. Mas, além de interpretações dignas de nota, com destaque para Rafa (Dani Rovira) e Koldo (Karra Elejalde), este é um filme que nos faz soltar umas boas gargalhadas e que dispõe bem. 
Pode não ser um excelente filme - e não é! - mas para mim, pelo menos, que sou amante da cultura espanhola e a conheço bem, foi uma boa opção para duas horas de riso e do mais puro entretenimento. E rir é sempre tão bom...

domingo, 13 de novembro de 2016

sábado, 12 de novembro de 2016

Leonard Cohen: leaning out for love


Leonard Cohen, com Moustaki, com Simon e Garfunkel, foi quem embalou a minha mais remota adolescência e continuou a acompanhar-me para além dela. Naquele tempo, sozinhos ou em grupo, acreditávamos que poderíamos mudar o mundo e cantávamos com fervor Suzanne ou So long Marianne, com o coração aos saltos e a cabeça a rebentar de sonhos, de projectos de felicidade, de utopias.
Depois, foi o tempo de dançar "to the end of love" vivendo os risos e as lágrimas de amores felizes e infelizes. Fui vê-lo e ouvi-lo ao vivo, em Cascais, há uns trinta anos, talvez, num pavilhão que já nem existe.
E, para onde quer que fosse, para lá de todas as circunstâncias, havia sempre aquela voz rouca e pausada, aquela melancolia que era também sentimento, e ironia, e emoção, a acompanhar-me os dias.
Quando vemos desaparecer os que amamos parece-nos que o mundo se desmorona à nossa volta. Fica-nos o desamparo da sua ausência e a estranha sensação de que a vida nos vai empurrando para a frente e que, também para nós, o fim se vai aproximando.
A um amigo que se vai embora, o que se diz? Na impossibilidade de encontrar as palavras certas, peço emprestadas as de Miguel Esteves Cardoso, que é capaz de dizer melhor que eu o que também sinto:
(...) Deixaste-nos. Avisaste muitas vezes que nos ias deixar. Deixar tornou-se a tua especialidade. Ninguém se despedia tão bem como tu. Ninguém dava à sola tão depressa como tu, tão bem vestido, com sapatos feitos para percorrer as grandes distâncias do amor e da vida. (...) Uma pessoa tem de morrer. E até a morrer foste um senhor. Pouco antes de morrer - sabemos agora . percorreste o mundo para cantar as tuas canções a quem quisesse ver-te e cantá-las. E melhor do que em qualquer outra altura da tua vida. Tu foste daqueles que melhoram à medida que se aproximam da morte. Aproximaste-te devagarinho, sem ser a medo, como se a morte fosse a última mulher. Cantaste-lhe a canção do bandido - nunca ninguém será capaz de cantá-la melhor que tu - a ver se ela ia na tua cantiga. Deitaste-te com ela na esperança que ela te esquecesse. And yet, e no entanto (aqui sinto-te a sorrir) ela deu cabo de ti à mesma.
Toda a vida dançaste com Deus e com a morte - às vezes eram mulheres, outras vezes professores - e algumas dessas vezes acabaram como canções, divinas de amor e de vida, escritas por  quem conheceu a alegria e a tristeza de amar e viver e viver e amar.
Morreste, Leonard Cohen, e no entanto, continuas vivíssimo para quem já morreu. Hoje de manhã, quando ouvi You want it darker, como faço todas as manhãs desde que saiu o álbum, pensei que ia chorar, por ser a primeira vez que o ouvi sabendo que estavas morto. Mas não chorei. As canções fizeram o que sempre fizeram: encheram-me de força, abriram-me ao medo e à beleza de estar vivo. 

 

sexta-feira, 11 de novembro de 2016

Do prazer


É também necessário que te diga um pouco dos meus gostos e carácter, na medida em que eu próprio os possa conhecer. Sou grande fumador, bom caçador, apaixonado pela música (...) Peço-te no entanto que não me impeças de fumar, é o único vício ao qual me apeguei seriamente. Quando se esteve no mar, quando se viu a morte defronte dos olhos, quando acreditamos que não voltaremos a ver os nossos, o charuto faz a vez de amigo e companheiro, fazendo voar os pensamentos tristes, como o fumo se agita ao vento.

(D. Luís I para D. Maria Pia, a 23 de Agosto de 1862, numa das cartas de noivado)


Mesmo sem nunca ter tido o vício do tabaco, e para lá do seu aspecto mais nocivo e malsão, até pelo que implica de dependência, entendo que há pequenos prazeres que podem fazer toda a diferença:  o primeiro café do dia, o vento no cabelo, uma conversa entre amigos, uma sesta no sofá, o regresso a um lugar de que se gosta, um olhar cúmplice, um beijo apaixonado... e tantas outras coisas que tornam a vida maravilhosa e permitem reinventá-la como se recomeçasse a cada instante, no conforto do que se conhece e na surpresa sempre renovada do que está por vir. 

quinta-feira, 10 de novembro de 2016

Um beijo é um beijo é um beijo


E quase nada sabe melhor...

(...)  a dependência é uma besta 
que dá cabo do desejo
e a liberdade é uma maluca 
que sabe quanto vale um beijo

domingo, 6 de novembro de 2016

Nostalgia


¿De qué se nutre la nostalgia?
Uno evoca dulzuras
cielos atormentados
tormentas celestiales
escándalos sin ruido
paciencias estiradas
árboles en el viento
oprobios prescindibles
bellezas del mercado
cánticos y alborotos
lloviznas como pena
escopetas de sueño
perdones bien ganados
pero con esos mínimos
no se arma la nostalgia
son meros simulacros
la válida la única
nostalgia es de tu piel.

                                Mario Benedetti

(Fotografia do blogue À Esquina da Tecla)

quinta-feira, 3 de novembro de 2016

Cumplicidade(s)


É bom ter na nossa vida quem a conheça inteira e nos segure a mão nem que seja com os olhos, e nos faça sentir, mesmo sem o dizer, que podemos contar com um abraço, um ombro, um sorriso, em momentos de alegria, de felicidade, ou de tristeza, ou de aflição.

terça-feira, 1 de novembro de 2016

Escondidos


Estas são as imagens do momento: o emotivo reencontro de Chenoa e David Bisbal, ontem, no Palau Sant Jordi de Barcelona, pouco depois da meia-noite, quinze anos depois.
Será provavelmente por termos acompanhado de perto o início, em 2001, ainda na Academía de Operacióm Triunfo 1, e o fim, três anos e tal depois, desta história de amor que é no fundo igual a tantas outras, e às nossas, também, que ela nos toca tanto.
A canção Escondidos ficará para sempre colada a este amor (e desamor), quase uma espécie de hino. Por isso, ontem, era o momento mais esperado e foi o mais alto e comovente de uma noite de sentimentos ao rubro e de emoções à flor da pele.
Agora, seguem-se as especulações do costume - que si le hizo David "la cobra" a Chenoa - que alimentarão sem dúvida as emissões e revistas do costume durante semanas, para além das redes sociais, como aconteceu no minuto imediato.
Para mim, o que destaco deste esperado reencontro é o que houve nele de mais bonito: cumplicidade, nostalgia, nervosismo, carinho e mais que tudo amor, seja ele passado, presente, futuro, ou tudo junto, que isso pouco nos deve importar.
E afinal, cada um de nós terá certamente um momento qualquer da sua vida, ou vários,  em que também sentiu o tempo parar e o mundo estreitar-se en un rincón, soltando o desejo na força de um súbito abraço apertado, agarrados ao corpo e ao coração um do outro enquanto o mundo lá fora continua a girar sem que nos demos conta, e relativamente ao qual poderia de igual modo trautear esta canção, que hoje não parou de soar na minha cabeça:

Escondidos, solos por amor
La oscura habitación
Tu cuerpo mio, el tiempo de un reloj
Escondidos, solos tú y yo
Atrapados sin poder salir 
Del interior, de tu interior
Mientras que hacemos el amor