quinta-feira, 30 de janeiro de 2014

Aspiração

 
Um dia quebrarei todas as pontes
Que ligam o meu ser, vivo e total,
À agitação do mundo do irreal,
E calma subirei até às fontes.

Irei até às fontes onde mora
A plenitude, o límpido esplendor
Que me foi prometido em cada hora,
E na face incompleta do amor.

Irei beber a luz e o amanhecer,
Irei beber a voz dessa promessa
Que às vezes como um voo me atravessa,
E nela cumprirei todo o meu ser.

                                                  
                                                                     Sophia de Mello Breyner

Às vezes faltam-me as palavras. E procuro-as. E inquieto-me. Outras vezes, muitas vezes, em momentos assim, sinto-me bem quando encontro nas palavras dos outros, e em outros olhares, fulgurações do que não sei dizer, mas não consigo calar.
E isso sossega-me tanto...

(Fotografia de Paulo Abreu e Lima)

quarta-feira, 29 de janeiro de 2014

50 pequenos prazeres


 http://www.youtube.com/watch?v=_C5mNs8vFSc

Há dias cheios de acontecimentos e emoções e há os outros, em que parece que tudo corre ao contrário, ou é apenas tempo perdido. 
E, no entanto, a vida faz-se também de pequenos detalhes que podem fazer toda a diferença. Escolhidas de forma aleatória e alinhadas mais ou menos ao acaso, estas são apenas algumas das coisas de que gosto:
 
Andar a pé
Um fim de tarde junto ao rio
Passear sem destino pelas ruas de Lisboa
Olhar o mar
Estender o corpo molhado ao sol
Estar na cama a ouvir chover
O cheiro da terra molhada
O sol que vem depois  da chuva
A chegada da Primavera
A praia só para mim
Uma noite de luar
O amanhecer de um dia de Verão
O frenesim de uma rua espanhola ao entardecer
O cheiro dos livros
Cadernos franceses 
Escrever à mão, com caneta de tinta permanente
Voltar a Paris
O dia dos meus anos
O colorido perfumado das frésias 
O primeiro café do dia
O cabelo ao vento
A pele bronzeada
Descalçar os saltos altos
Ouvir música baixinho
O sabor de um vinho em boa companhia
Um abraço apertado
O sossego  que vem depois do amor
O primeiro olhar
Um beijo furtivo que depois se demora
Festinhas no cabelo
Ir a Cascais pela marginal
Andar de moto
Lanchinhos à lareira
Gestos românticos
Um convite para jantar
O momento em que as luzes se apagam
Uma manhã de preguiça
Uma estreia seja do que for
Uma sesta no sofá
Dormir até não ter mais vontade
Um presente original 
Um elogio inesperado
Um pedido irrecusável
Um momento de confidências
Um desejo cumprido
Um dia sem horas marcadas
Um segredo dito ao ouvido
Uma conversa entre amigos
Ouvir chamar o meu nome
Regressar a casa...

segunda-feira, 27 de janeiro de 2014

Uma noite com Poveda

 
Sou suspeita. Tenho pelo flamenco uma paixão  desmedida, que surgiu quase inesperada e depois cresceu, fazendo-se mais profunda e mais intensa ao longo do tempo, ainda que, como é próprio do que vem do coração e só pode sentir-se, não a consiga explicar. Só sei da emoção daquela música que se me entranha na pele e na alma, que me arrepia e me comove, que me abala no mais fundo de mim e que se me tornou indispensável, fundamental.
Por isso já vi muitos artistas e assisti, até hoje, a muitos espectáculos de diversos tipos, e a excelentes interpretações, de canto, de dança, de guitarra, de palmas, ou de tudo junto. Tantos, que nem sei se os recordo a todos. Assim, de repente, vêm-me à memória Paco de Lucía, Canales, Estrella Morente, La Yerbabuena, Rafael Amargo, Cigala...
Ontem, foi a vez de Miguel Poveda. Conhecia-o há algum tempo, lembro-me de como me impressionou desde logo a sua voz poderosa, ou o inesquecível tema A Ciegas, no filme de Almodóvar, Abrazos Rotos. E tenho até um disco dele, de que gosto muito: Coplas del querer.
Mas ao vivo é outra coisa. Agora posso entender de maneira mais exacta e rigorosa por que é considerado o melhor cantor flamenco da actualidade.
E, no entanto, Miguel Poveda não é apenas um cantor de flamenco; é, sem dúvida, um dos melhores intérpretes da música mundo que, sem renegar a sua música de raiz, o seu ponto de partida, canta também a copla (canção popular espanhola), ou as palavras dos poetas (Lorca, Miguel Hernandez, Rafael Alberti, entre outros), expressando-se em diferentes géneros, cruzando sonoridades, incorporando um leque vasto de referências e influências, aventurando-se até pelo fado, e demonstrando assim  que flamenco e fado não são no fundo mais que o avesso e o direito de uma mesma inquietação interior, de uma dor pungente, que explode repentina, torrencial, incontida. E que o flamenco não é apenas cigano, ou andaluz. Porque, apesar de possuir dotes artísticos excepcionais, Poveda é de origem catalã e nasceu numa família sem tradição musical.
O espectáculo de ontem chamava-se "Íntimo" e foi de intimidade que se tratou. Acompanhado apenas pela guitarra de Chicuelo e o piano de Joan Albert Amargós, ambos virtuosíssimos também, foi a figura franzina de Miguel Poveda, as mãos enormes e a garra imensa daquela voz única, tão poderosa que quase dispensava microfone, que dominaram a noite, numa entrega apaixonada que  se exprime  com o corpo todo e que, misturando originalidade e inovação, tradição e modernidade, nos traz o encanto e a magia da música, nos silêncios e nas voltas do canto. 
Depois de uma noite como esta não se é o mesmo. Impossível não se sentir tocado pela garra e o arrebatamento que desfilam diante de nós durante duas horas e meia, pela  emoção à flor da pele que também que nos estoura  no peito, pela simplicidade e cercania do que não deixa de ser um acto de amor.
É que, no fim, como ele próprio disse ontem: deixou-me um pouco de si e leva com ele um pouco de mim.

domingo, 26 de janeiro de 2014

Boçalidade e carneirada


Em Setembro, muito antes da fatalidade do Meco e de o assunto estar na ordem do dia, já tinha falado das praxes. Agora, que o tema tem sido tratado quase até à exaustão, queria evitá-lo. Porque até já cansa. Mas pareceu-me que devia pelo menos partilhar um dos muitos textos que li, o de Ferreira Fernandes, ontem, no DN: 

O País a nu, como no Meco
Amanhã, os jovens corvos voltarão às ruas. Não se escondem, o fato é comum para todos e sobre ele uma capa pesada, faça sol ou frio. Aquele fato e capa não escondem a aceitação da mais bizarra das afirmações: somos manada. Num jovem não seria de esperar rebeldia e inquietude? Ora, ora, talvez agora o padrão seja outro, ser rancho, ser grupo. E de grupo sem mérito nem voo. Ali, naquele país inculto e pobre, anunciar pelo fato e pela batina uma conquista, mesmo patética, já é conquista: olhem, sou estudante universitário! Fica com a taça, jovem corvo. Nunca saberás que o mérito seria teres participado em debates e ganho, ou perdido, mas participado; seria teres gozado o prazer de aprender, de duvidar, de perseguires, mesmo erradamente, a luz. Mas esse não és tu. Tu, gozas os teus três, quatro anos de fato de luto, - o único diploma que te distinguirá a vida inteira, três, quatro anos a andar pelas ruas a proclamar nada. Entretanto, sobe um patamar e praxa. Isto é, leva a tua ambição ao nível dos fundilhos do teu traje. No começo, obedece e humilha-te. Serás premiado, depois, com mandar e humilhar. Fica-te por aí, rasteiro. De grande, só a colher de pau. Fica-te por aí, és o País. Sem saberes que um só dos teus podia redimir a todos. Um só estudante, bela palavra, no pátio de uma universidade, bela palavra, dizendo as mais certas das palavras para um jovem: não vou por aí.

Podia ter escolhido outros: Por exemplo o de João Gomes André no Delito de Opinião,  ou o de Pacheco Pereira no Público. Escolhi este porque destaca o espírito "Maria vai com as outras", que me parece estar em grande parte por trás de tudo isto. No fundo, participa-se nesta palhaçada sem se saber porquê e para quê. Sem se questionar. Só porque todos (ou quase) o fazem. Não faltam hoje, também,  nas redes sociais os que se dizem "orgulhosos" de terem sido "praxados". O que terão aprendido com isso?
Enfim, pertenço ao grupo dos que defendem que se acabe com esta coisa ridícula e sem sentido e com tudo o que há nela de  alarvidade, grosseria e degradação.
E pergunto-me se o que fez com que se chegasse a este estado de coisas não foi também um ensino  excessivamente preocupado com o imediatismo da nota do exame que tantas vezes nem leva a lado nenhum, por exemplo, e muito pouco, ou mesmo nada, com o desenvolvimento do espírito crítico e da capacidade de argumentação. É que, na verdade, somos todos de certo modo responsáveis, acho eu.

sexta-feira, 24 de janeiro de 2014

Antecipação


O sol desperta-me o desejo de ver voltar a Primavera, o perfume das frésias amarelas e os meus anos outra vez; e um mundo de novo pujante e florido, onde eu posso ser (mais) feliz.

quinta-feira, 23 de janeiro de 2014

Desapego

 
Havia dias em que pensava que tinha uma alma errante e que por isso nunca gostara que nada lhe parecesse definitivo. Nunca quisera comprar uma casa, não gostava de repetir todos os dias  os mesmos gestos e  caminhos, nunca fora de juras de amor eterno ou de ostentar sentimentos de posse, nem sentira necessidade de assumir amores perante os olhos do mundo, que os compromissos e os afectos fazem-se portas e corações adentro, no secretismo de duas vontades em sintonia, alheadas do resto.
E, no entanto, ligava-se fortemente às pessoas e aos lugares, que eram as âncoras de que precisava para se equilibrar e ser feliz, como se vivesse em aparente e constante contradição entre a tranquilidade de ir escolhendo a cada passo o rumo a seguir, em quase total liberdade, e a entrega insensata aos desejos mais imoderados e às mais caprichosas e esfusiantes paixões, entre o prazer supremo dos instantes perfeitos e a agonia de nem sempre poder ter o que mais queria.
Era como aquele amor tão louco  quanto antigo, todo imprevisto e improviso, que parecia ora apagar-se ora reacender-se, do qual já pouco mais sobrava do que lembranças, que lhe vinham nos dias em que o seu lado mais romântico lhe fazia ter de novo  vontade de adormecer nos seus braços, apesar de saber que agora já pouco mais tinham para dizer que banalidades; e então chegavam em turbilhão  saudades dos beijos lentos  e molhados que  acendiam os corpos enlaçados entre lençóis, e vontades e risos e gemidos confundidos, e uma mão grande e quente correndo pela sua pele nua;  e logo de seguida a realidade da cama demasiado grande, toda quase só ausência de colo e de aconchego. E queria voltar às horas silenciosas em que o amor redimia todos os males, numa emoção que parecia sempre a mesma e nunca repetida, presos  nos olhos um do outro, de onde conseguiam ver o mundo inteiro; e só encontrava o silêncio e o vazio que lhe preenchia o peito e lhe dilacerava a vida e em certos dias lhe ocupava o tempo de existir; e a distância que os separava tornava-se ainda  maior e tudo parecia irremediavelmente perdido.
Perguntava-se  qual o sentido de persistir  no que não era senão a nostalgia  de um passado feliz  e infeliz, feito de afecto e de mágoa, de arrojo e de arrependimento, que era ao mesmo tempo proximidade  e lonjura, desejo e recordação, querer ainda e já não querer, vagueando entre o desnorte e o susto de uma vida nova que irrompia e o que sobrava dos amores levados pelos estragos dos anos, na impossibilidade de  recuperar uma intimidade perdida.
Mas como separar-se de um laço tão fundo e tão forte e por que razão ter de escolher entre a amargura de partir de vez e o desejo de ficar ainda um pouco mais, se há tantas formas de amor, mesmo quando se sabe que o tempo e a vida são sempre para diante...
 
(Fotografia de Paulo Abreu e Lima)

terça-feira, 21 de janeiro de 2014

Fragilidade repentina

 
http://www.youtube.com/watch?v=Q0sQcC4Duc0

Não era dada à melancolia. Optimista por natureza, tentava sempre encontrar o lado bom de todas as coisas e não se permitia estar triste por muito tempo. Aprendera a calar a dor, a vivê-la para dentro ou a relativizá-la, como se alimentá-la ou exibi-la fosse um sinal de ingratidão diante de tanto  que a vida lhe dava.
Mas havia os dias cinzentos em que tudo era só inquietação e desamparo, e prevalecia a nostalgia, a tristeza e o desencanto, e muitas mágoas e saudades lhe doíam no peito e se perdia em mil afazeres e ocupações na esperança vã de ignorar ou esquecer as perguntas para as quais não tinha resposta.
E pensava que mesmo de forma passageira, mesmo sem motivos demasiado fortes, podia a espaços entregar-se ao desgosto, desatar as lágrimas só porque sim e, em silêncio e solidão, desalmadamente, chorar. 

segunda-feira, 20 de janeiro de 2014

Amor às letras

 
Já falei dela aqui, mas na verdade nunca conseguirei dizer na totalidade o muito que lhe devo. Antes como agora. Ela é tão importante na minha vida como a professora que me ensinou a ler e a escrever. No fundo, ambas mudaram a minha vida; ambas fazem, de certo modo, parte da família. Da família afectiva, claro está.
Maria Alzira Seixo mudou a minha forma de ver o mundo, ensinou-me a aprofundar a paixão das letras que trago comigo desde sempre e a perceber  como a literatura pode ser determinante na forma como lemos, como escrevemos, como pensamos e até como vivemos. As suas aulas foram por isso as melhores da minha vida. Inesquecíveis até hoje. Por tudo o que sabe e ensina, mas sobretudo pelo modo simultaneamente simples e arrebatado como fala, como lê, - tão expressivamente, que conseguimos ao ouvi-la visualizar a mancha gráfica do texto -, por tudo o que nos faz pensar.
É talvez por isso que passados muitos anos ainda consigo lembrar a forma apaixonada como nos falava de Roland Barthes, de quem fora aluna, ainda sou capaz de a ouvir repetir o incipit da Princesse de Clèves:
La magnificence et la galenterie n'ont jamais paru en France avec tant d'éclat que dans les dernières années du règne de Henri second, ou recitar, emocionada, o poema barroco de Du Perron: 
Au bord tristement des eaux je me retire 
et vois couler ensemble et les eaux et mes jours
je m'y vois sec et pâle et si j'aime toujours
leur rêveuse mollesse où ma peine se mire.
E tudo isso foi essencial, também, para a minha forma de ser professora. Ensinou-me a deixar-me enfeitiçar pelas palavras. E a perceber porquê. Ainda anteontem a ouvia dizer esta coisa extraordinária: A literatura é um trabalho de prosódia. É dizer alguma coisa, mas com um determinado ritmo e uma determinada sonoridade. E é isso que faz a diferença e que nos enfeitiça. Quem estuda literatura continua enfeitiçado; mas sabe porquê.
Agora estou de novo a fazer um curso com ela, que tem este belíssimo nome: "mãos que constroem sonhos". É sobre Mário Dionísio e o neo-realismo, mas como tudo aquilo de que fala é sobretudo sobre a literatura, a arte, a vida. Fala-se de tudo. De Proust. De pintura. De ler e de escrever. E de ensinar, também. E tem sido mais uma fascinante descoberta, que me deixa encantada.
Acabei há instantes de ler a interessantíssima autobiografia de Mário Dionísio, mais ao jeito de memórias, e com passagens como esta:
(...) uma nação secularmente mergulhada na mais completa ignorância das suas próprias carências (que não são só pão e casa, e mesmo para ter o pão, para ter a casa) exigia, antes de tudo, sabem o quê?, ensino. Ensino, no sentido mais vasto e profundo da palavra. Tão vasto e tão profundo que a tarefa imensa de pôr milhões a saber ler e escrever (mas que é ler?, mas que é escrever?) mais não seria do que um ponto de partida. Em todas as idades. Em todos os recantos desta terra de milagres, crenças e crendices, de faz como vires fazer. Ensino para que se aprenda a ver com os próprios olhos, a intervir com as próprias mãos (...)
Não podia ser mais actual!...
E, como se tudo isso fosse pouco, Maria Alzira Seixo tem ainda uma frontalidade genuína, que eu tanto aprecio, nela como em toda a gente (sobre isso diz "quem nos quer bem diz-nos onde estamos mal. Porque o "educadinho" é uma hipocrisia, uma dissimulação") mas que não a impede de ser uma pessoa muito doce, que revela ter um grande coração, nem que seja pela generosidade de partilhar com o mundo tanto do muito que sabe. Ouvi-la é pois, sem dúvida, um monumental e indescritível privilégio, que deixa marcas para sempre.

sábado, 18 de janeiro de 2014

Tranquilidade


... e uma nuvem surgiu no silêncio da tarde

                                               (José Gomes Ferreira)

sexta-feira, 17 de janeiro de 2014

Tous les garçons et les filles

 
Para quem como eu gosta da Chanson Française, esta é uma canção obrigatória, o primeiro e talvez o maior sucesso de Françoise Hardy, que faz hoje, imagine-se, setenta anos. Quem diria...

As inclemências do tempo





Não tenho idade para me pôr a falar do tempo, eu sei, mas hoje o assunto é praticamente inevitável. Porque é o que marca este dia, esta manhã em que foi mais difícil chegar, escapando aos contratempos de um dia típico de Inverno, pontuado de traços insólitos.
Isto, por exemplo: abrir a porta preparada para o temporal que já se fazia ouvir, e deparar-me com o cenário inédito de um imenso manto branco de granizo, que cobria tudo. Como não se deter em  deslumbramento e em espanto diante de um fenómeno destes, hesitando entre a estupefacção contemplativa, o equilíbrio incerto do piso escorregadio e a urgência do passo apressado? 
E, no entanto, a paisagem toda branca não está sequer no topo das minhas preferências. Mas, mesmo se aos excessos de frio ou de calor prefiro o tempo ameno variando entre os vinte e os vinte e cinco graus, o colorido ostensivo, os cheiros fortes e a luz brilhante da Primavera no esplendor da natureza que renasce, ou a doce melancolia dos castanhos e dourados de Outono, é no fundo a alternância e a variedade das estações que me seduz. 
Talvez por isso, encontro uma magia qualquer neste dia cinzento, frio e chuvoso, uma beleza quase poética e uma silenciosa paz que, mais do que convidar ao aconchego e ao recolhimento de uma casa quentinha, me traz do fundo da memória pedaços de poemas que sei de cor desde tempos longínquos:
(...)
Passa gente e, quando passa,
os passos imprime e traça 
na brancura do caminho
Ou me lembra uma canção de Brassens:
Un petit coin de parapluie, contre un coin de Paradis, 
elle avait quelque chose d'un ange,
un petit coin de Paradis, contre un coin de parapluie 
je ne perdais pas au change, pardi! 
Afinal, quem é que não gosta de caminhar abraçado debaixo do mesmo chapéu, de se beijar à chuva ou, evocando a infância, de chapinhar nas poças de água, pequenos mares inesperados, onde todos os sonhos conseguem navegar?... 

(Fotografias de Isabel Santiago Henriques - a primeira - minha, - a segunda - e da internet as outras duas)

quarta-feira, 15 de janeiro de 2014

Longe...



Às vezes lembrava ainda o tempo em que ele a chamava sem precisar de palavras e com que excitação o seu corpo lhe respondia. Lembrava as pernas a tremer e o coração disparado, os arrepios do toque, os beijos demorados, ardentes e incontáveis e o modo exaltado como sempre se entregava inteira àquela paixão desmedida. 
O tempo em que o seu cheiro se lhe colava à pele e a sua companhia era toda sol e céu, em que o silêncio era a forma cúmplice e desassombrada de se saberem ter um ao outro para as pequenas e as grandes coisas da vida e em que até a solidão era descoberta, intimidade e partilha. E a doçura redentora da crença num amor infinito, maior, melhor, diferente de todos os outros. 
Depois vinha a dura realidade de perceber que já nada era assim e parecia até nem ter remédio, o desconforto daquele vazio no peito que era como se lhe arrancassem um pedaço de si, a inquietção constrangida de quem parece já não ter nada a dizer, e um poema do Eugénio ecoando repetidamente na sua cabeça: Já gastámos as palavras pelas ruas, meu amor, e o que nos ficou não chega para afastar o frio de quatro paredes... 
E a ausência e o esquecimento. E a fragilidade de se ver sozinha diante de caminhos e de mundos desconhecidos, que a seduziam e assustavam de igual modo, a angústia do sentimento de culpa que em certos dias lhe tomava conta do pensamento e a fazia perguntar-se o que acontecera afinal e em que momento, ou por que razão, tudo começara a ser diferente. 
Havia também alturas em que, entre o desencanto e a esperança, se enternecia e emocionava; em que lhe bastava uma palavra, um abraço ou uma meiguice qualquer para acreditar que tudo podia ainda voltar o ser o que já fora e que, em querendo, seria possível contrariar a inexorável marcha do tempo. E queria tudo e nada ao mesmo tempo. 
Então virava-se para dentro, encolhida e calada, deixando a tristeza e a música embalar-lhe aquele buraco enorme que a deixava mais desprotegida e indefesa que nunca, sem serem precisas lágrimas, nem dramas, nos momentos em que muita coisa íntima se desatava de repente. 
E logo refeita, sorria, na alegria serena de imaginar que entre o que fomos e o que está por vir, enquanto o coração bate no peito, há muita vida pela frente. E que, acima de tudo, é preciso ter calma...

segunda-feira, 13 de janeiro de 2014

A importância da literatura

Por muito mal que digam de Nuno Crato, é na verdade com este governo e com este ministro que a educação literária volta a assumir no ensino do português o papel fulcral que nunca deveria ter perdido.
Haverá sempre os defensores do caminho facilitista, os que querem "nivelar por baixo" e que acham que a literatura é para as "elites", porque os textos são demasiado difíceis. Esta é a posição assumida, por exemplo, pela inenarrável Associação de Professores de Português, na qual a maior parte dos professores não se revê e cujas posições públicas sobre os mais variados assuntos nos fazem corar de vergonha.
Há hoje, de resto, uma tendência crescente para considerar que a literatura, em particular, e as Humanidades, a cultura e as artes, em geral, não servem para nada, ou têm uma importância menor, normalmente associada ao lazer e ao ócio e restrita a certos meios, ditos "intelectuais". Nada mais errado!
Os que assim pensam e que defendem o utilitário e o pragmático, acreditando que apenas importa aprender a fazer coisas de uma forma mecânica, quase sem pensar, esquecem a visão crítica sobre o mundo que o ensino da literatura permite; esquecem que só a leitura conduz à escrita e que para escrever bem é preciso ler muito. E que a leitura ajuda à concentração, desenvolve a imaginação, proporciona emoção e permite a conservação de um património artístistico, histórico e cultural, formando cidadãos mais lúcidos, capazes de raciocínios mais consistentes, de maior sensibilidade, a consciência do valor da língua em todas as suas possibilidades e realizações e que, como alguém dizia no Sábado, julgo que talvez Maria Alzira Seixo, "a literatura não resgata o mundo, mas ajuda a compreendê-lo e a suportá-lo".
É por isso que encontros como o deste fim de semana no CCB, intitulado "A urgência da literatura" e baseado no pressuposto que "é através da literatura que a língua atinge a sua máxima realização" e que é importante "pensar a literatura num tempo em que impera o paradigma tecnológico" assumem particular relevância. Como dizia António Carlos Cortez - comissário deste colóquio, juntamente com Helena Buescu - em entrevista ao DN de Sábado: "Quando retiramos a complexidade dos textos retiramos aos alunos a possibilidade de alcançarem uma maior amplitude intelectual. Hoje vemos que há toda uma geração que não sabe interpretar os conteúdos das mensagens que lhe são transmitidas, que não tem vocabulário para falar, nem para pensar. Há uma imaturidade generalizada nos jovens em consequência dessa imaturidade pressuposta por aqueles que acharam que os alunos eram incapazes de ler (...) Alexandre Herculano ou Camilo Castelo Branco. Foi a ditadura do banal imposta pelas Ciências da Educação e os seus bons sentimentos que levou à perda de uma geração inteira que não sabe escrever, que lê pouquíssimo, porque se patrocionou uma literatura infantil, uma literatura de entretenimento. (...) A propósito do provincianismo português Fernando Pessoa escreveu na revista Águia que todo o povo que é provinciano tem uma espécie de fetichismo da técnica. E os portugueses são assim. Substituíram a cultura por um hiperfascínio em relação a tudo o que é da ordem da máquina, do imediato, do concreto. (...) Há uma obsessão pelo pensamento estatístico e um decrescimento do pensamento crítico humanista (...) as gerações mais novas não podem viver reféns da ideologia do banal, do divertimento e do superflúo. As políticas educativas têm de dizer definitivamente "não" ao aventureirismo pedagógico e aos interesses partidários."
É nesta linha que surgem as metas curriculares e o regresso aos currículos de autores e textos literários fundamentais, através dos quais se ensina e aprende tanto do que que é essencial para a vida.
Importa pois dotar as crianças e os adolescentes de uma consciência literária e linguística, mas não exagerar nos conceitos demasiados "técnicos" que, além da sua duvidosa utilidade, só servem para os afastar da disciplina de Português, cuja importância no currículo é crucial. O ensino do Português tem que se centrar na importância da leitura e da escrita, acima de tudo, na importância da reflexão e no desenvolvimento da argumentação e do espírito crítico. A preocupação não pode ser o imediatismo do exame, ou do programa. O que importa é ver mais longe e formar cidadãos mais conscientes e interventivos, capazes de observar o mundo criticamente e de ser mais felizes.
É um desafio gigantesco e tão urgente quanto difícil. Mas que, certamente, vale a pena!

sexta-feira, 10 de janeiro de 2014

Um "pedaço de mau caminho"

 
http://www.youtube.com/watch?v=LPppZQhyC9o

Há palavras horríveis, pela sua sonoridade, pelo que evocam, mesmo erroneamente, por aquilo que querem significar, ou por tudo isto em simultâneo. Uma delas é, por exemplo, "metrossexual", que me faz logo lembrar o metro (meio de transporte muito rápido, mas cheio de gente com duvidosos odores) e traz à ideia, depois, uma sexualidade a meio caminho entre o hetero e o homo, com qualquer coisa meio abichanada à mistura. Mas, na verdade, não é nada disso.
E quem é que não gosta de um homem elegante e bem parecido, charmoso, cuidado, lavadinho e a cheirar bem? Um bocado vaidoso, até, desde que não excessivamente. Quem é que nunca se perdeu em devaneios inconsequentes diante de corpos esculturais e rostos quase perfeitos de verdadeiros Apolos que nos passam pela frente e nos levam o pensamento para longe, de olhar imóvel e perdido, em momentâneas fantasias e suspiros involuntários, quase imperceptíveis?
Os gostos variam, é certo. E ainda bem. Eu não gosto de homens demasiado bonitos. Diria, parafraseando Proust, mas ao contrário, que os homens muito bonitos são para as mulheres sem imaginação, ou repetindo Vinícius, no Samba da Benção, embora ele se referisse também às mulheres: "tem que ter qualquer coisa além da beleza, qualquer coisa de triste, qualquer coisa que chora, qualquer coisa que sente saudade, um molejo de amor machucado..."
A minha predilecção vai para os morenos, de cabelo escuro levemente encaracolado onde os meus dedos podem afundar-se em demoradas carícias. E para braços fortes que me agarram com força, como se nunca mais fossem soltar-me, mãos e colo grandes, porto seguro de todas as horas e mimos e lugar onde deitar a cabeça nos momentos de maior tristeza e desamparo. E olhos. Olhos grandes e profundos, um pouco tristes, dos que fazem "beicinho" lá no fundo, e dizem tudo o que se diz sem palavras, e provocam e seduzem, e fazem soltar as mais ocultas vontades e o desejo de afagos e de ternuras sem fim.
Mas quando gostamos de alguém tudo isso deixa de ter  importância, porque é mesmo como diz a sabedoria popular: "quem feio ama, bonito lhe parece". E o nosso amor é sempre infinitamente melhor que todas as "tentações" que sempre se nos cruzam no caminho.

quarta-feira, 8 de janeiro de 2014

Pinoquices


Já só dá para rir

Ser mentiroso é uma condição de marca da maioria dos socialistas. Só que alguns reconhecidos mentirosos deveriam ter mais cuidado. Há mentiras que nem sequer são muito gravosas, digamos que não é por apanhar com elas que vem daí mal ao mundo. Mas poderiam servir, ao menos, para nos refrescar a memória sempre que o mentiroso em questão é reincidente e as suas mentiras, num passado recente, nos saíram muito caras. Trata-se agora da já conhecida prelecção de Sócrates aos microfones da RTP quando, com a voz algo embargada pela emoção, afirmou que era do Benfica, lembrava-se bem, porque ia a caminho da escola na Covilhã, ouvindo o relato do Portugal Coreia do Norte, e ficou tristíssimo porque Portugal estava a perder por 3-0. Felizmente que havia Eusébio e quando Sócrates chegou à escola, Portugal tinha vencido por 5-3. Faltou a Sócrates o ponto para o avisar que o jogo foi às 15 horas de um sábado, 23 de Julho e que as escolas da Covilhã, salvo erro ou omissão estão fechadas para férias neste dia da semana e neste dia do ano. Sócrates, igual
a ele próprio. Na escola ao Sábado de tarde, como na Universidade ao Domingo. Mas há quem goste…


O texto não é meu. É, uma vez mais, indecentemente roubado a um dos "meus" blogues, o Espumadamente, de Nelson Reprezas.
Mas apeteceu-me republicá-lo aqui. Porque tudo isto é demasiado ridículo. E outras coisas mais. Com uma ressalva: a mim não me dá bem para rir. A minha vontade é mais a de um imenso e tonitruante "Por qué no te callas"? (já agora extensivo a Mário Soares, que há muito anda também "a pedi-las"...)

terça-feira, 7 de janeiro de 2014

Na companhia dos livros

 
Retida em casa pelos restos de uma gripe, soube-me bem, hoje, o silêncio e o sossego do encontro comigo na companhia dos livros.
E como ouvia ainda este Sábado, ler distrai, sim, mas não é apenas fuga, ou alheamento. Porque ler também é pensar. Pensarmo-nos. E pode modificar muita coisa em nós.

segunda-feira, 6 de janeiro de 2014

Inevitavelmente, Eusébio!

 
Não sou benfiquista e não ligo nenhuma ao futebol. E, no entanto, hoje, é impossível não falar de Eusébio. Porque hoje, o dia é todo ele. E mesmo para quem, como eu, não liga muito a estas coisas, é impossível  não se deixar emocionar com o estádio da Luz cheio de gente a aplaudi-lo e a gritar por ele naquela última volta à sua "casa", como ele quis que fosse. Ou não se impressionar com a quantidade de pessoas à chuva, nas ruas de Lisboa por onde passa o cortejo fúnebre. Mas não é de admirar. 
Eusébio não é do Benfica, nem de Lisboa; é de Portugal e do Mundo. E por isso, hoje, o mundo inteiro é de certo modo português.
O que torna Eusébio excepcional e o eleva acima de todos os clubes, de todos os partidos, das esquerdas e das direitas, fazendo dele o mito que é está muito para lá da sua excelência desportiva e do seu imenso profissionalismo. O que há nele de mais tocante é a sua enorme e genuína simplicidade, a ausência de vedetismos parvos, a sua humanidade.
Lembro-me de o ver, mais de uma vez, no Fonte Nova, a tomar café entre amigos, quase anónimo, apenas mais um entre muitos. E isto, que é apenas um mero exemplo da sua humildade,  deveria servir de lição a todos os Cristianos Ronaldos desta vida e outros arrogantes deste meio e de outros, incapazes de lhe chegar, sequer, aos calcanhares.


domingo, 5 de janeiro de 2014

Ó mãaee!

 
Não sei por que razão, mas apesar de já ter este tamanho todo, ainda tenho aquela coisa meio infantil de quando me sinto doente me apetecer chamar pela minha mãe. E lembro o tempo antigo em que me bastava o seu colo, primeiro, e depois a sua mão, ou o sorriso sereno, para apaziguar as minhas dores. As dores físicas e as outras. Mesmo as que ela só intuía, porque havia muita coisa que eu não lhe queria contar.
Agora fica-me o grito preso no lado de dentro da vontade e não o faço. Por pudor. E, sobretudo, porque sei que agora é ao contrário, que ela precisa mais de mim do que eu dela, e que me cabe ser apenas uma parte de tanto que ela foi para mim em tantos anos.
Por isso, hoje, esqueci a febre  e a gripe e fui vê-la. Por motivos diferentes, ambas precisávamos desse encontro, ritual de todos os nossos Domingos. E, além disso, sei que provavelmente haverá um dia em que nem isso terei; e quero aproveitar ao máximo o tempo que temos para estar juntas.
E é tão grande a nossa cumplicidade e tudo o que nos une, que consigo ver na maneira como me olham aqueles magníficos olhos verdes o que tantas vezes não lhe chega às palavras; e sei que ela percebeu que eu não estava nos meus melhores dias. Gosto de pensar que, além do Brufen - que faz milagres -, o que na verdade me   tirou a febre e me fez melhorar foi, acima de tudo, aquele nosso abraço.

sexta-feira, 3 de janeiro de 2014

Um mundo melhor


Grand Corps Malade é o nome artístico de  Fabien Marsaud, um francês de 36 anos que trouxe à luz um determinado estilo musical, o slam, e o popularizou em França nos últimos dez anos.
O slam, de que nunca ouvira falar, confesso, é a declamação de textos originais a capella, ou acompanhados de uma melodia minimalista que suporta e sublinha o texto, aproximando-se do rap na sua origem e misturando a prosa poética, o teatro e a canção, na forma expressiva de comunicar a alegria ou a revolta.
O nome do artista, um pouco estranho, surge do invulgar metro e noventa e quatro de Fabien Marsaud e das suas limitações físicas que, na sequência de um acidente aos vinte anos, ao mergulhar numa piscina em que o nível da água era demasiado baixo, o levaram a abandonar definitivamente uma vida até então dedicada ao desporto e a ter de procurar outros caminhos.
Foi na blogosfera e de uma forma totalmente casual que descobri Grand Corps Malade, cuja originalidade me deixou curiosa. Por isso fui à procura de mais, no Youtube e afins. E pareceu-me muito interessante, embora seja sempre o mesmo tipo de registo.
Depois, no dia de Ano Novo, em mais um zapping fortuito, encontrei-o na TV5 Monde, apresentando esta Course contre la Honte que faz parte do quarto álbum, Funambule, que saiu em Outubro e para o qual convidou Richard Bohringer, um actor francês, para escrever um texto em duo. O resultado foi este, e eu não resisto a partilhar aqui o vídeo.
Gosto da ideia de "ter de se cantar o amor ainda mais alto", da crença num mundo melhor, sobretudo em tempos conturbados como os que vivemos, em que é mais fácil desistir e, como li não sei onde, fechar as portas à emoção, por excesso de desalento, por medo do ridículo, ou da exposição do mais fundo de nós.
Para se perceber melhor tudo o que dizem, transcrevi também o texto. Em francês, bien sûr!...

Eh Tonton, est-ce que t’as regardé dehors ?  
Sur l’avenir de nos enfants il pleut de plus en plus fort 
Quand je pense à eux  pourtant, j’aimerais chanter un autre thème 
Mais je suis plutôt serein, je fais pas confiance au système 
Ce système fait des enfants mais il les laisse sur le chemin 
Et il oublie que s’il existe, c’est pour gérer des êtres humains 
On avance tous tête baissée sans se soucier du plan final 
Ce système entasse des gosses et il les regarde crever la dalle  
Tonton on est du bon côté mais ce qu’on voit, on ne peut le nier 
J’ai grandi au milieu de ceux que le système a oubliés 
On vit sur le même sol mais les fins de mois n’ont pas le même parfum 
Et chaque année monte un peu plus la rumeur des crève-la-faim 
Le système a décidé qu’y avait pas de place pour tout le monde 
Tonton, t’as entendu les cris dehors, c’est bien notre futur qui gronde 
Le système s’est retourné contre l’homme, perdu dans ses ambitions 
L’égalité est en travaux et y’a beaucoup trop de déviations 
Eh Tonton... On va faire comment? Dis-moi Tonton, on va faire comment? 
Est-ce que les hommes ont voulu ça, est-ce qu’ils maîtrisent leur rôle 
Ou est-ce que la machine s’est emballée et qu’on a perdu le contrôle 
Est-ce qu’y a encore quelqu’un quelque part qui décide de quelque chose 
Ou est-ce qu’on est tous pieds et poings liés en attendant que tout explose 
Difficile de me rassurer Tonton, je te rappelle au passage 
Que l’homme descend bel et bien du singe pas du sage 
Et c’est bien l’homme qui regarde mourir la moitié de ses frères 
Qui arrache les derniers arbres et qui pourrit l’atmosphère 
Y’a de plus en plus de cases sombres et de pièges sur l’échiquier 
L’avenir n’a plus beaucoup de sens dans ce monde de banquiers 
C’est les marchés qui nous gouvernent, mais tous ces chiffres sont irréels 
On est dirigé par des graphiques, c’est de la branlette à grande échelle 
Eh Tonton, on va faire comment, tu peux me dire ? 
Comme il faut que tout soit rentable, on privatisera l’air qu’on respire 
C’est une route sans issue, c’est ce qu’aujourd’hui, tout nous démontre 
On va tout droit vers la défaite dans cette course contre la honte 
Eh Tonton... On va faire comment ? Dis-moi tonton, on va faire comment ? 
Entre le fromage et le dessert, tout là-haut dans leur diner 
Est-ce que les grands de ce monde ont entendu le cri des indignés 
Dans le viseur de la souffrance, y’a de plus en plus de cibles 
Pour l’avenir, pour les enfants, essayons de ne pas rester insensibles 

Ma petite gueule d’amour, mon Polo, mon ami Châtaigne on va rien lâcher,  
on va aimer regarder derrière pour rien oublier, 
ni les yeux bleus ni les regards noirs 
On perdra rien, peut-être bien un peu,  
Mais ce qu’il y a devant, c’est si grand 
Ma petite gueule d’amour, mon Polo, mon ami Châtaigne 
T’as bien le temps d’avoir le chagrin éternel 
S’ils veulent pas le reconstruire, le nouveau monde, 
On se mettra au boulot 
Il faudra de l’utopie et du courage 
Faudra remettre les pendules à l’heure, 
Leur dire qu’on a pas le même tic tac, 
 que nous, il est plutôt du côté du coeur 
Fini le compte à rebours du vide, du rien dedans 
Ma gueule d’amour, mon petit pote d’azur 
Il est des jours où je ne peux rien faire pour toi 
Les conneries je les ai faites, et c’est un chagrin qui s’efface pas 
Faut pas manquer beaucoup pour plus être le héros, faut pas beaucoup 
Je t’jure petit frère, faut freiner à temps 
Va falloir chanter l’amour, encore plus fort 
Y’aura des révolutions qu’on voudra pas, 
Et d’autres qui prennent leur temps, 
Pourtant c’est urgent 
Où est la banque? 
Il faut que je mette une bombe, une bombe désodorante, 
Une bombe désodorante pour les mauvaises odeurs du fric qui déborde 
Pas de place pour les gentils, pour les paumés de la vie 
Chez ces gens-là, on aime pas, on compte 
Ma petite gueule d’amour, mon Polo, mon ami Châtaigne
P’tit frère, putain, on va le reconstruire ce monde 
Pour ça, Tonton, faut lui tendre la main 
Tonton, il peut rien faire si t’y crois pas 
Alors faudra se regarder, se découvrir, jamais se quitter 
On va rien lâcher 
On va rester groupé 
Y'a les frères, les cousines, les cousins,  
Y a les petits de la voisine, 
Y’a les gamins perdus qui deviennent des caïds de rien, 
Des allumés qui s’enflamment pour faire les malins 
Y’a la mamie qui peut pas les aider, 
Qu’a rien appris dans les livres,  
Mais qui sait tout de la vie 
À force de ne plus croire en rien, c’est la vie qui désespère 
Faut aimer pour être aimé 
Faut donner pour recevoir 
Viens vers la lumière, p’tit frère 
Ta vie c’est comme du gruyère,  
mais personne te le dis 
Que tu as une belle âme 
Ma petite gueule d’amour, mon Polo, mon ami Châtaigne 
On va rien lâcher 
On va aimer regarder derrière pour rien oublier

quinta-feira, 2 de janeiro de 2014

(Re)começo(s)

 
Ainda a propósito do Ano Novo, encontrei no blogue "Duas ou três coisas", de Francisco Seixas da Costa, esta opinião, com a qual concordo inteiramente:
Deixei, há muito, de acreditar na ritual ideia de ter o início do ano civil como ponto de partida para um novo tempo na vida pessoal. Se, ao longo do ano anterior, não fomos capazes de mudar atitudes e práticas, dificilmente será a simples entrada de Janeiro a dar-nos a força e, em particular, a persistência que até aí não tínhamos tido - seja o arrumar daquela estante ou arrecadação, sejam os contactos pessoais em atraso, seja recomeçar a escrever um texto há muito adiado ou qualquer outro acto que seguramente nos ajudaria a melhorar e organizar a vida. Mas percebo muito bem que alguns persistam em tentar utilizar essa marca temporal como o momento para o abrir da ilusória cortina que nos separa de um futuro de maior racionalidade. 
E depois de um dia dedicado à preguiça, quase fora do tempo, passadas as festas, volta a mesma rotina de antes com tudo o que há nela de bom e de mais entediante, também.
Por mim, são de novo as correrias e os horários a cumprir, o ginásio a horas escandalosamente matutinas e dias inteiros no semi-sossego do meu lugar com vista privilegiada sobre a Av. de Roma, o computador na minha frente e os papéis, cadernos, canetas, dossiers, processos, recursos, queixas, transferências disciplinares, dúvidas, pareceres, telefonemas, mails, faxes, ofícios e mil outros assuntos a tratar em quarenta horas por semana. E depois, há também o tempo que é só meu e eu preencho como quero e como posso, no que depende de mim. Porque o mundo é também quem me rodeia e acompanha, e limita e liberta, e faz feliz.
É bom acreditar nas infinitas possibilidades que nos oferece a ideia de tantos dias por viver e imaginar poder preenchê-los com momentos e  motivos que se querem só de prazer e felicidade. Mas, na verdade, é em cada dia que se começa um ano novo; e cada momento deveria ser percebido assim, na plenitude da sua singularidade, na certeza de que mesmo o que aparentemente se repete não é nunca exactamente igual, sem querer saber do que está depois de cada curva da estrada e na alegria de aceitar o que nos acontece, porque tudo nos ensina e fortalece. E, a cada passo, mais seguro ou mais incerto, ir procurando e construindo, desfazendo e corrigindo o caminho, porque há uma grande parte dele que depende só de nós.
Enfim, e porque tenho sempre músicas na cabeça, tudo isto me lembra num canção de Vinicius e Toquinho de que eu gosto muito, e que me traz muito boas recordações.
Diz assim:
(...)
Nessa estrada não nos cabe conhecer ou ver 
O que virá 
O fim dela ninguém sabe bem ao certo 
onde vai dar 
Vamos todos numa linda passarela 
De uma aquarela 
Que um dia enfim 
Descolorirá (...)

 (Fotografia de Paulo Abreu e Lima)

quarta-feira, 1 de janeiro de 2014

Paz

Por uma razão qualquer que não sei explicar, há lugares especiais, que um dia fazemos nossos e passamos a sentir que nos pertencem, que conseguem levar-nos até  ao mais profundo de nós e nos dão uma imensa e revigorante paz interior. É que, apesar de nos serem mais ou menos familiares, olhamo-los sempre com o assombro e a surpresa da primeira vez, porque há neles uma magia e um encantamento que nos fazem sentir bem, que nos serenam. Como uma casa. Como um colo grande e bom. 
Este jardim é para mim um desses lugares mágicos onde o tempo parece suspender-se e é possível ficar imóvel, sem pensar em nada, apenas a sentir o ar e a deixar-me arrebatar pela perfeição de um momento puramente contemplativo e por aquela boa sensação que me faz ganhar um alma nova.
O que sinto nele é semelhante ao que sinto diante do mar, no Rocío, num fim de tarde junto ao rio, que pode ser Tejo, Sena, Guadalquivir, ou em casa, no meu sofá, em harmonia com o meu mundo, deixando o tempo correr, sem pressa nem horas marcadas, em entorpecida  e purificadora languidez.
E ainda há quem diga que a preguiça, mesmo só de vez em quando, não é boa...

 (Fotografia de Paulo Abreu e Lima)