quinta-feira, 31 de dezembro de 2015

Fim de ano



Assim, quase sem se dar por isso, passou mais um ano. Em termos pessoais foi bom. Desafiante. Um ano de mudanças e de crescimento. De amizades novas e amores de sempre. De despedidas e de regressos. De laços que se consolidaram. E de tantas coisas, grandes e pequenas, boas e menos boas, de que se vai fazendo a vida.
Não vivo este último dia do ano em euforia, porque é apenas um novo dia, como cada um dos outros. Guardo as alegrias e os festejos para momentos de celebração só meus, que espero continuem a não faltar. Hoje, como em tantas outras noites, e dias, são as canções brasileiras que me acompanham. Estas:

Nada a temer senão o correr da luta
Nada a fazer senão esquecer o medo
Abrir o peito a força, numa procura
Fugir às armadilhas da mata escura

ou

Hoje eu quero a rosa mais linda que houver
E a primeira estrela que vier
Para enfeitar a noite do meu bem

Hoje eu quero paz de criança dormindo
E o abandono de flores se abrindo
Para enfeitar a noite do meu bem

ou ainda

viver e não ter a vergonha de ser feliz,
Cantar,
A beleza de ser um eterno aprendiz
Eu sei
Que a vida devia ser bem melhor e será
Mas isso não impede que eu repita:
É bonita, é bonita e é bonita!

E para lá de todos as esperanças e desejos, promessas ou vontades, saibamos construir o nosso caminho e ser tão felizes quanto possível, porque grande parte dele depende também de nós.
Feliz Ano Novo!



terça-feira, 29 de dezembro de 2015

Homens...



Quando se trata de gostos, já se sabe, cada um fala por si, todas as opções estão em aberto e as combinações são quase infinitas. Por mim, prefiro homens morenos, sem músculos em excesso e em razoável forma física, com ar forte, mas sensíveis, de olhar profundo e malicioso, sorriso travesso, e aquela vulnerabilidade irresistível que os faz às vezes parecer um menino pequeno a pedir colo e, diante da qual, é impossível não sucumbir.
Não gosto de generalizações, mas há também os pequenos detalhes em que são todos iguais: quando, por exemplo, ao mínimo sinal de constipação soltam a frase típica "eu nunca me senti tão mal em toda a minha vida!" Uma delícia...  

segunda-feira, 28 de dezembro de 2015

Sem sucessor


A notícia já se previa, mas não deixa de cair como uma bomba. Paulo Portas, para mim, de longe o melhor político, sem ninguém que lhe chegue perto, sequer, deixa o CDS e a política activa.
Não sei o que será do partido sem ele. Provavelmente morrerá. Basta pensar no que ele foi nos tempos de Manuel Monteiro e Ribeiro e Castro, para referir apenas dois exemplos. É pena. O CDS faz falta à democracia e, apesar de ter gente boa e má, capaz e incapaz, competente e incompetente, como em todo o lado, não vejo no horizonte mais próximo ou mais longínquo ninguém com perfil de líder capaz de agarrar o partido com a mesma garra e brilhantismo, com a determinação e a dedicação de Paulo Portas.
Adolfo Mesquita Nunes é, na minha opinião, o único que estaria mais ou menos ao mesmo nível, em inteligência, conhecimento, cultura, capacidade; mas também ele deixa a política, infelizmente. Sai quem é capaz de fazer a diferença e nós ficamos todos cada vez mais entregues à mediocridade.
Diz-se que "ninguém é insubstituível". Eu acho o contrário. Toda a gente o é. Porque venha quem vier (mesmo que seja excelente, o que não será certamente o caso) nunca será igual.
Paulo Portas lá terá os seus defeitos, como temos todos, mas o que faz bem é infinitamente melhor que o resto. Por isso sempre se destacou tanto. Percebo que tudo tem um tempo, acho que já fez muito pelo país e pelo partido, foi muito maltratado, invejado, odiado, e percebo que queira agora outras coisas que, tenho a certeza, fará igualmente bem. Mas não posso deixar de ter pena...

domingo, 27 de dezembro de 2015

Mimar-se


Sabia que o tempo que dedicava a si era tão importante como o que destinava aos outros. E por isso se deliciava sem pudor nem culpa nas horas passadas a sós consigo, a cuidar do corpo ou do espírito, em silêncio e solidão, demorando-se no banho, espalhando cremes no corpo com o vagar dos dias de férias, lendo um livro, estendendo-se preguiçosamente no sofá, sem pensar em nada, ou deixando o pensamento voar em sonhos de realidade e fantasia misturadas, o olhar perdido em fascínio e quietude diante da lareira acesa.

sexta-feira, 25 de dezembro de 2015

Tempo de esperança e de ternura


O Natal também é isto: a força de acreditar, a esperança de que nunca estaremos derrotados, a ternura de bem querer, a cumplicidade dos afectos que nos guiam e nos acompanham na vida.

A Criança Nova que habita onde vivo
Dá-me uma mão a mim
E outra a tudo o que existe
E assim vamos os três pelo caminho que houver,
Saltando e cantando e rindo
E gozando o nosso segredo comum
Que é saber por toda  a parte
Que não há mistério no mundo
E que tudo vale a pena.

                                   (Alberto Caeiro)

quinta-feira, 24 de dezembro de 2015

Feliz Natal


Querendo ou não, é impossível escapar ao espírito da época, tempo de emoção e de afectos, de esperança, luz, alegria. De bons sentimentos, também. De pensar ainda mais nos outros e de lhes dizer como são importantes para nós.
Para todos os que por aqui vão passando, e lêem o que escrevo e seguem caminho em silêncio, para os que me dedicam palavras de simpatia e carinho, para os que discordam de mim e o dizem com educação e respeito, para todos os que este mundo me deu a conhecer e a vida fez meus amigos de verdade, para todos os que alguma vez se me cruzaram no caminho e me fizeram pensar o que não pensaria sozinha, para todos os que estão desse lado das palavras e eu não sei quem nem quantos são mas continuo a encontrar encanto nesse mistério, para todos um Natal cheio de saúde, de felicidade, e de amor, que é afinal o que mais importa. 


terça-feira, 22 de dezembro de 2015

Férias de Natal


Parece que o Inverno chega nesta madrugada, segundo os entendidos. Se eu pudesse escolher não seria esta a altura para as férias. Mas, já que é assim, aproveito para estar mais demoradamente com os amigos e preguiçar à vontade, para pensar na vida e me deter por instantes diante do presépio, para me deixar tocar pela esperança e alegria dessa lição de amor e de simplicidade, e ganhar força para o novo ano que aí vem. 

segunda-feira, 21 de dezembro de 2015

Coisas do coração


É mais ou menos do senso comum, mas hoje dei comigo a pensar que uma das coisas mais extraordinárias do amor é descobrir  que gostamos de alguém que não é como gostaríamos que fosse e, com todos os seus defeitos, ou apesar deles, continuar a gostar.
Depois, por coincidência, ou talvez não, encontrei  no Observador esta animação, que tenta explicar o amor, tanto quanto ele pode ser explicado. O vídeo, que parece já ter um ano, recebeu muitos prémios e foi visto não sei quantas mil vezes. E achei-lhe piada...


domingo, 20 de dezembro de 2015

Desilusão total


Ando há tempos à espera de ver um filme muito bom, daqueles que deixam marca em nós, o que já não (me) acontece nem sei desde quando. O último filme de Nanni Moretti, "Mia Madre", aplaudido de pé no Festival de Cannes e considerado excepcional pela crítica de modo quase unânime, poderia, pensei, reverter a situação. 
Gosto dos filmes de Nanni Moretti, de quem me lembro de ter visto pelo menos "O Quarto do Filho" em 2000 e "Caos Calmo" em 2008. Mas hesitei. Sei que os seus temas se situam na zona sombria da perda, do luto, ou da crise existencial. E o nome do filme não augurava nada de bom. Não tinha a certeza de estar preparada psicologicamente para o assunto, nesta fase da minha vida.
Depois lembrei-me de "Amour", de Michael Haneke, e  de como tinha valido a pena ver o filme, apesar do "murro no estômago" que ele representa também. E lá me decidi.
Mas não gostei. O filme não é tão deprimente como se poderia inicialmente supor, nem é um mau filme, longe disso. Mas não me tocou. Há nele qualquer coisa que falha, uma empatia que não consegue estabelecer-se entre as personagens e os espectadores e que o torna até, de certo modo, um pouco maçador, para lá de um ou outro detalhe mais conseguido. 
Enfim, será talvez de mim, mas de Nanni Moretti esperava muito mais... 

sábado, 19 de dezembro de 2015

Piaf: 100 anos


Cem anos depois do seu nascimento, Piaf continua a ser "a diva" da canção francesa, um nome incontornável da música do mundo e uma referência para os apaixonados da cultura francesa, entre os quais me incluo.
Tenho amigos que detestam a chamada "Chanson française", que para mim é tanto e que tem uma dimensão fundamental na história da minha vida. Julgo que talvez por este ser um tipo de música em que o texto é essencial, quem não domina a língua a ponto de entender todos os meandros do que se diz, para lá da melodia, não consegue percebê-la e amá-la como merece.
A singularidade de Edith Piaf reside justamente na mistura de força e fragilidade, no contraste da sua figura franzina com a garra da sua voz, que fez com que o nome Piaf (pardal, em linguagem popular) lhe assentasse na perfeição. A sua glória opõe-se também a uma trágica história de vida, que Marion Cotillard tão bem soube interpretar no filme La Môme, de 2007, e que lhe valeu o Óscar da Melhor Actriz.
Passados cem anos, ou quase, as canções de Piaf continuam a ouvir-se e ela faz parte do leque dos grandes artistas, que perduram para lá da morte e cuja obra é intemporal. Não há, ainda hoje, quem não conheça "La vie en rose",  "Non, je ne regrette rien" ou "Milord". Para mim, Piaf estará sempre associada a Paris, a cidade que trago no coração.
Gosto de quase todas as suas canções, muitas delas verdadeiros hinos que, ao longo do tempo, me embalaram amores e desamores e me marcaram para sempre. Por isso, faço minhas as palavras que João Gobern escreveu hoje no DN. Estas:
La Môme faria hoje cem anos. Filha de um saltimbanco e de uma cantora de "bas-fonds", a maior voz da música popular francesa só foi feliz depois de morrer. Porque enquanto viveu andou da miséria à tragédia, da doença aos amores perdidos. Para bem de todos decidiu cantar o que lhe ia na alma. De tal forma que, agradecidos, continuamos a ouvi-la e a venerá-la. (...) Deu tudo o que tinha. Deu-nos muito do que temos.

sexta-feira, 18 de dezembro de 2015

Jardins da minha vida (IV)




Situado em frente à Basílica, é mais conhecido pelo nome do bairro onde se situa do que como Jardim Guerra Junqueiro, designação que a maioria dos que o visitam desconhece.
Inaugurado em 1852 e aberto todos os dia entre as sete da manhã e a meia-noite, o Jardim da Estrela é um dos mais românticos e encantadores jardins de Lisboa.
São cerca de quatro hectares de canteiros e de relva, de alamedas e lagos com cisnes, gansos e patos-reais, com estátuas e um coreto em ferro forjado, que é a sua imagem de marca, mas que se situara originalmente noutro lugar, no Passeio Público, que é hoje a Avenida  da Liberdade.
Mas mais do que tudo isto, o Jardim da Estrela é um local calmo e quase silencioso, onde é possível sentarmo-nos tranquilos e sentirmo-nos em paz. É uma das minhas mais recentes paixões, desde que há pouco tenho vindo a descobrir a zona envolvente em todos os seus segredos e detalhes e, devagar, me vou deixando seduzir.

quarta-feira, 16 de dezembro de 2015

Assim, sim...



Mesmo para quem gosta muito do que faz é fácil às vezes deixar-se levar pelo cansaço ou o desânimo. É muito desgastante a profissão que escolhi; trabalha-se muito e ganha-se pouco, sofre-se grande pressão psicológica a cada dia, em cada hora, e é preciso lidar com muita gente e muitas coisas ao mesmo tempo, cada qual com especificidades próprias e as mais diversas ideossincrasias a funcionar em simultâneo.
E, no entanto, três meses depois da mudança que eu quis, não me arrependo de nada. Foi quase como começar outra vez. Cada escola é um mundo novo, com regras próprias, hábitos, pessoas, modos e tempos diferentes. É preciso observar, aprender, adaptarmo-nos e mudar, sem deixar de ser quem somos, ou de acreditar no que acreditamos, num caminho lento, cheio de altos e baixos, de avanços e retrocessos, de vitórias e derrotas construídas no tempo e na estranheza, de surpresas e cansaços vários, na tentativa de fazer o melhor de que somos capazes e de levar todos aqueles nos foram confiados e dependem de nós o mais longe que eles puderem chegar, o que é também um desafio gigantesco, misto de responsabilidade, de risco e de aventura.
Como em tudo e em todo o lado, encontra-se bom e mau, pessoas fantásticas e outras que é melhor manter à distância, competência e desleixo. Mas, para já, posso dizer que valeu a pena. Foram três meses duríssimos, que chegaram ao fim com um balanço positivo em resultados e em satisfação, mas em que quase tudo foi conquistado a pulso, a cada minuto contado no relógio. Que, ainda assim, me fizeram perceber com mais clareza que gosto disto, malgré tout. E se dúvidas houvesse, elas dissiparam-se hoje, quando li isto num dos noventa e não sei quantos texto de auto-avaliação:
Hoje sinto que sou uma boa aluna a Português, mas nem sempre foi assim (...) percebi que desde que a escrita de textos se tornou algo semanal para mim, alguns desses problemas, como a falta de ideias, dificuldade em estruturar o texto, etc, melhoraram muito. (...)
Vim a descobrir que gosto muito mais da disciplina de Português do que algum dia achei que viria a gostar e, apesar de às vezes não ficar muito entusiasmada quando a professora nos manda escrever um texto durante a aula, cada vez acho as aulas de Português mais interessantes. 
Pode até soar a presunção, mas para além de tanta novidade e dos bons resultados com que fechamos esta etapa, esta é para mim a verdadeira recompensa de três meses de muito trabalho, e a certeza de que é sempre possível fazer um pouco mais, ou ainda melhor.

segunda-feira, 14 de dezembro de 2015

Íntimo(s)


Este é também o tempo da intimidade e do sossego, dos lanchinhos à lareira e do calor da casa, de amigos e de amores, de longas e boas conversas, de bebidas quentes, de harmonia e de abraços apertados. E, na verdade, há muito poucas coisas melhores que o abraço de quem se quer bem...

(Fotografia do blogue iznotmeizyou)


quarta-feira, 9 de dezembro de 2015

O que não se explica


Dizem que os grandes amores não podem explicar-se, que são maiores do que as palavras e existem para além delas, naquele lugar fundo, dentro do peito, onde tudo é apenas emoção e sentimento. 
É talvez isso que me faz ter vontade de voltar muitas vezes aos "meus" lugares, onde me reencontro e pacifico, e donde volto mais eu.

Y yo sé
Que Sevilla tiene algo
Que será ese "no sé qué"
Que si de Sevilla salgo
Tan solo pienso en volver

(Fotografia de Carmen Pizarr)

segunda-feira, 7 de dezembro de 2015

Um ano depois


Passou um ano em que a nossa vida mudou muito. Nunca guardo muitas recordações dos dias maus e, por isso, são difusas as minhas lembranças desse dia 7 - um dia de que eu gosto tanto!... Não sei bem o que senti ou pensei, o que disse, o que fiz.
Sei apenas que esse nosso Domingo foi muito diferente de todos os outros. E que havia sol, embora nem dessemos por isso. Recordo vagamente a ambulância a apitar, correndo desenfreada, subindo e descendo ruas que eu não conseguia ver, e finalmente o destino, que me pareceu situado no fim do mundo.
Depois, foi um mês inteirinho de incerteza e angústias, de sofrimento e solidão, que nenhum abraço ou palavra podiam atenuar. E foi assim, no meio desta inquietação com o que viria a seguir, que chegou o Natal, vivido em silêncio, no calor das mãos apertadas a contrastar com o ambiente frio de um quarto de hospital.
Entretanto passou o tempo e, devagar, um dia de cada vez, tivemos que nos habituar a novas realidades e aprender a viver com elas, na tranquilidade possível. Não imagino o que pensas e sentes nesse mundo quieto e sem palavras em que vives agora, mas gosto de te ter ainda do lado de cá da vida, de te contar as minhas histórias sem saber se as ouves, se as percebes, se reconheces a minha voz e o meu riso, se ainda sabes quem eu sou; gosto de te ver agarrada à vida, mesmo se são frágeis os fios que te prendem a ela, e se me pergunto muitas vezes se viver assim ainda é viver.
Mas é quando me olhas com os teus magníficos olhos verdes, quase sempre tranquilos, ou  às vezes sombrios, quando muito raramente me sorris ao ver-me chegar, quando passas a mão na minha cara e tentas dizer-me palavras que eu não compreendo, que percebo que tudo se inverte na nossa forma de existir, e que tal e qual como quando eu ainda não chegava às palavras  são agora as palavras que já não chegam a ti; e é então que tenho a certeza que, manifestando-se em presença e mimos, pelos olhos e pelo toque, como no princípio, o nosso amor permanece igual, ou até, talvez, mais forte ainda.

BFF: Helena


Todas as pessoas que amamos são especiais à sua maneira e têm um lugar importante e insubstituível no nosso coração e na nossa vida. 
Mas depois, há também aquelas pessoas que não têm idade, que não somam anos mas só experiência e sagesse, e que espalham sempre à sua volta muita luz e alegria.
A Helena é uma dessas pessoas excepcionais, com uma força e um humor únicos, que sabe aproveitar e revelar o lado melhor da vida, e que eu, por um acaso do destino, daqueles que parecem escritos nas estrelas, tive o prazer e o privilégio de poder conhecer "ao vivo e a cores". 
Tornámo-nos amigas muito depressa e hoje somos muito próximas, e rimos como adolescentes quando estamos juntas, tal e qual como os velhos amigos. 
E é porque hoje o dia é todo dela, e porque esta nossa amizade é mais uma daquelas bençãos que eu devo agradecer a Deus e à Virgem do Rocío  que, apesar das más lembranças que esta data me traz também, eu  a assinalo aqui, - pois é a vida que deve ser celebrada - e lhe deixo um beijo enorme de parabéns, além dos que já lhe dei e dos que vou dar ainda.

sábado, 5 de dezembro de 2015

Jardins da minha vida (III)



Situado no centro da cidade, o Parque Eduardo VII, começou por chamar-se Parque da Liberdade, mudando depois de nome, como forma de homenagear o rei de Inglaterra que entretanto visitara Lisboa. Obra do arquitecto Francisco Keil do Amaral, o "Parque", como é normalmente conhecido, existe desde o início do século XX e é, ainda hoje, um dos mais emblemáticos locais de Lisboa.
Os seus 26 hectares incluem a Estufa Fria do lado oeste e o Pavilhão dos Desportos, mais tarde designado Carlos Lopes,  do lado oposto, e um miradouro no topo norte de onde se pode observar uma das mais bonitas vistas sobre o rio. É também no alto do Parque que é hasteada uma bandeira nacional de tamanho XXL, que por tradição havia sempre um presépio de grandes dimensões na época do Natal e que, desde 1997, existe um controverso monumento ao 25 de Abril da autoria de João Cutileiro.
Quando eu era pequena, o Parque Eduardo VII era o jardim que ficava mais perto da nossa casa e tinha um parque infantil que era um dos meus locais favoritos e fazia as minhas delícias. Nele  passei inúmeras tardes de aventura e diversão, experimentando habilidades nos baloiços e escorregas, inventando jogos, correndo e saltando, na despreocupação inocente desses anos em que o mundo nos parece simultaneamente simples, misterioso e encantador.
Mas tenho também uma má memória associada a este lugar que, ainda que aparentemente insignificante, me marcou de forma profunda. Foi quando, numa dessas tardes, o meu pai que sempre nos acompanhava e se sentava a ler no mesmo lugar, observando-nos de longe, resolveu esconder-se para ver como reagíamos ao verificar que ele não estava ali.
Relembro, até hoje, aquele momento de aflição em que olhei para o banco do costume e percebi que o meu pai não estava lá. Teria uns quatro ou cinco anos, não mais. Sei que pensei de imediato que não sabia como voltar para casa sozinha e senti-me verdadeiramente perdida. Não sei quanto tempo passou até o meu pai se mostrar de novo, nem sei se me pus a chorar, se chamei a minha irmã, ou o que fiz a seguir. Mas, durante muitos anos, mesmo já bem "crescidinha", aconteceu-me muitas vezes ,a cada vez que  perdia de vista quem me acompanhava, num sítio qualquer, voltar por instantes àquela mesma sensação aflita do "e agora?"
De facto, há brincadeiras parvas que se fazem com as crianças, que deixam marcas que não poderíamos supor.

quinta-feira, 3 de dezembro de 2015

Se (eu) fosse...


Quando eu era adolescente, tinha um grande grupo de amigos com quem me encontrava todos os fins de semana. E, entre muitas outras coisas, fazíamos às vezes o jogo do "se fosse..." para testar a  que ponto nos conhecíamos. Era mais ou menos assim: um de nós tinha que adivinhar de quem estávamos a falar, fazendo perguntas começadas por "e se fosse...", a que os restantes tinham de responder com o que considerassem mais próximo da personalidade e maneira de ser do(a) visado(a).
Muitos anos depois, em 2010, cerca de um ano após a minha adesão ao Facebook, retomei a brincadeira, mas desta vez só comigo, numa nota que redigi em jeito de apresentação. Redescobria-a um destes dias, ao fazer por lá uma "limpeza". E não deixou de me surpreender que, ainda que tenha sido feita há cinco anos, o que diz de mim continue a ser verdade...

Se fosse um mês: Março (porque faço anos e chega a Primavera. Porque de Março até ao final de Junho é a altura do ano de que eu mais gosto)

Se fosse um dia da semana: Sexta-feira (o dia livre dos últimos anos, a antecipação do fim de semana)

Se fosse uma hora do dia: final da tarde, em Lisboa, junto ao rio, ou no Chiado. Em Paris, no Jardin du Luxembourg

Se fosse uma estação: Primavera

Se fosse uma direcção:  Sul (de Espanha...)

 Se fosse um país: Espanha (pela alegria) França (pelo requinte e o pensamento)

 Se fosse uma cidade: Paris

Se fosse um continente: Europa

Se fosse um móvel: sofá (onde eu gosto de estar quando estou em casa...)

Se fosse uma bebida: vinho tinto, claro!
 
Se fosse um pecado: preguiça (para apreciar vagarosamente todas as coisas boas) 

 Se fosse uma fruta: Pêssego (quando se vê  por fora não se imagina como é por dentro)

 Se fosse um elemento da Natureza: mar calmo num fim de tarde de Verão

 Se fosse uma paisagem: uma cidade movimentada, ou uma praia deserta

 Se fosse um elemento: Água

 Se fosse uma cor:  Azul

 Se fosse um festival de música: Rock in Rio

  Se fosse um insecto: Uma Joaninha

 Se fosse um som:  gargalhada

 Se fosse uma canção:  Caçador de mim de Milton Nascimento ou Perdidamente de Luís Represas

 Se fosse um sentimento: amor sem limites nem obrigações

 Se fosse uma personagem da mitologia grega: Orfeu (a poesia, a música, o amor excessivo, a incapacidade de resistir à tentação)
  
 Se fosse uma palavra:  agora

 Se fosse um lugar:  Uma cidade cosmopolita

 Se fosse um sabor:  doce

 Se fosse um cheiro: terra molhada depois da chuva

 Se fosse um verbo: viver

 Se fosse um objecto: caneta

 Se fosse uma parte do corpo: cabelos

Se fosse uma expressão facial: piscar de olho

 Se fosse uma manifestação de afecto: um beijo sonoro

 Se fosse um filme: As asas do desejo

Se fosse um quadro: Impressionista (Monet, Impression Soleil levant)

Se fosse um livro: Aparição

 Se fosse um número: 7

Se fosse uma letra: A (porque é por onde tudo começa...)

Se fosse um acento: circunflexo

Se fosse um sinal de pontuação: Reticências (Há sempre mais qualquer coisa a dizer...)

 Se fosse uma peça de roupa: mini-saia ou vestido

 Se fosse uma peça de calçado: sapatos de salto alto, modelo clássico

 Se fosse um acessório: óculos de sol

 Se fosse um advérbio: imenso
 
 Se fosse um palavrão: merda
 
 Se fosse uma sensação: liberdade

quarta-feira, 2 de dezembro de 2015

Sinceramente não estou para festas


Quando chega Dezembro, já se sabe, a vida agita-se e enfeita-se excessivamente, numa euforia festiva que se vai sobrepondo à essência da época e lhe vai retirando sentido.
Há as ruas iluminadas e as canções que mantêm uma certa magia evocativa da infância e do tempo em que a celebração do nascimento do "Menino Jesus" vinha embrulhada em poesia, mistério e encantamento, em gestos e  em rituais, e em que tinham grande significado e destaque a missa do Galo, o almoço de Natal e o enorme presépio no móvel da sala de jantar.
Mas hoje, por onde quer que se ande, há sobretudo o trânsito insuportável e os sacos a transbordar de compras que atravancam tudo e importunam até os que, pelas mais diversas razões, preferem ignorar o consumismo e esta versão da alegria  de plástico, bem mais oca e fugaz, pronta a usar e deitar fora.
Um dia ouvi dizer que esta é uma época bela na aparência, mas também violenta do ponto de vista emocional; e de certa maneira é um pouco assim.
Este ano não me sinto de modo algum tocada pelo espírito natalício. Por isso decidi só enfeitar a casa com um presépio em cada divisão, como sempre faço, mas sem bolas, nem estrelas, nem nada mais. Haverá a missa, que continua a ser para mim um tempo e espaço fundamental das minhas festas, e duas ou três inevitabilidades familiares, sociais, afectivas. E depois é só esperar que passe depressa, e que volte o silêncio e a paz.

segunda-feira, 30 de novembro de 2015

Um amor assim...


E havia também alturas em que tudo era só só corpo, cheiro e sabor, arrepio e prazer puro, numa festa de todos os sentidos misturados, na excitação da vontade física, na urgência do abraço apertado, do peito contra o peito, na explosão do desejo, em momentos perfeitos de entrega imoderada e total, sem mais mundo ou vida que não fossem os seus corpos abraçados, confundidos, estonteados e felizes.


(Fotografia do blogue iznotmeizyou)

domingo, 29 de novembro de 2015

E é isto!...


Recapitulemos. A 4 de Outubro, a vitória da coligação de "direita" e da "austeridade" provou que o povo é masoquista e retardado. Horas depois, ou o tempo necessário para contar os deputados, apurou-se que afinal a maioria do povo derrotou a "austeridade" nas urnas e concluiu-se, com alívio, que o povo masoquista e retardado é minoritário. O exercício, então, consistiu em parodiar na internet e na nobre arte do comentário político a falta de competência aritmética da "direita", já que 122 lugares na AR são mais do que 107 - "Qual é a parte que não percebem?", repetia-se por aí. Dada a suprema importância dos parlamentares exigia-se que o PR indigitasse a aliança de esquerda sem ouvir nenhum. Enquanto isso, insultava-se "o Cavaco", que por sua vez indigitou Passos Coelho. Derrubado Passos Coelho, reclamou-se a nomeação imediata do Dr. Costa, ameaçou-se com baderna pública e decidiu-se que "o Cavaco", entretanto ocupado a receber meio mundo, não respeita a Constituição e o eleitorado, embora o homem agisse de acordo com a primeira e tivesse sido eleito em duas ocasiões pelo segundo (a parcela masoquista e retardada). Tudo, da sagrada "lei fundamental" à plebe, existe apenas para ser torcido a benefício da vanguarda esclarecida.
Hoje, com a cedência do PR à piedosa mentira da "inevitabilidade" do governo PS, enterrou-se (entre insultos) "o Cavaco" e passou-se a biografar os membros da coisa como se os ditos fossem para levar a sério. Não são. Desde logo são, sem excepção ou duvida, cúmplices de uma golpadazita - inteiramente "conchcinal", dirá o Dr. Costa - , o que por si define o respectivo carácter. À lupa, são no máximo antigos serviçais da autarquia, zombies "socráticos", favores, flores, emissários de interesses, em suma ninguém. Dissecar o currículo formal de cada um , mesmo agrupando os diversos agregados familiares que por lá andam, tem uma utilidade reduzida e não será grande contributo para prever o futuro e a essência do novo tempo, do novo homem, enfim da nova ordem emergente. A nova ordem está nos pormenores, e nem se esgota no rancho que tomou posse há dias.
(...)
O único "princípio" do PS é a convicção profunda e feroz de que nasceu para mandar nisto, custe o que custar. E, se custa muito resignarmo-nos à arrogância de rústicos, a eles custa pouco partilhar o poder com quem partilha a descrença na democracia e a crença na superioridade inata. Só espanta que o arranque demorasse tanto. A nova ordem, feita de brutalidade, retórica de 4ª classe (sem exame), intolerância, comparsas, falências, delírios, respeitinho e a terminal anexação do país pelo Estado, é um projecto velho.
Este é apenas um excerto do artigo de opinião de Alberto Gonçalves, hoje, DN, Chama-se "A nova ordem nacional" e vale bem uma leitura na íntegra, para se perceber, uma vez mais, como estamos, de facto, "entregues à bicharada", para usar uma expressão prosaica e apropriada. De resto, se dúvidas restassem, bastaria ver por alguns segundos o vídeo abaixo, para se perceber o nível. Patético, no mínimo...

sexta-feira, 27 de novembro de 2015

O regresso da rebaldaria facilitista


A nova maioria parlamentar decidiu hoje acabar com os exames nacionais de Português e de Matemática do quarto ano, com efeito imediato no ano lectivo em curso. Parece-me um emblemático prenúncio do que aí vem.
A argumentação que defende a medida e a sua urgência é, no mínimo, reveladora de uma enorme ignorância sobre o que se passa de facto. Segundo uma deputada socialista cujo nome não retive, "os exames desvalorizam a avaliação contínua". Desconhece esta senhora, decerto, que a avaliação contínua (ou interna) tem um peso de setenta por cento na avaliação final de um aluno e o exame de apenas trinta.
Há depois aquele argumento, que é o meu preferido, da "violência" que é uma criança de dez anos ter que realizar uma prova, do "trauma" e da ansiedade que ela provoca, da tenra idade das crianças sujeitas a tanta "pressão", a qual pode até degenerar em depressões e outras maleitas afins.
Sem esquecer o Bloco de Esquerda, ou o PCP, tanto faz, que nunca se esquecem de associar os exames a "uma visão retrógrada e conservadora da educação". Enfim, a conversa já é conhecida, mas vai-se repetindo até à exaustão.
Acho que desta vez só faltou mesmo a comparação com a Finlândia, ou qualquer outro país nórdico, com uma realidade em tudo semelhante à nossa.
Estranho muito, ainda assim, que só se tenha decidido acabar com exames do 4º ano. Acabe-se também com os do 6º, do 9º, do 11º e 12º. Vivam as passagens administrativas!
Porque foi à custa de ideias peregrinas destas, de modas pedagógicas que mudavam a cada ano ou quase e das mais duvidosas experiências, que a educação chegou onde chegou. 
Assim, é tudo muito mais fácil: cada um faz o que quer, passam-se os meninos de qualquer maneira e voltará a haver alunos que estão no sétimo ou oitavo ano sem saber ler nem escrever (e eu conheci vários...). Mas isso não importa nada. É que passa a haver muito mais "sucesso", que é o que se pretende afinal.
Enfim, "a cereja no topo do bolo" será provavelmente o regresso das "Novas Oportunidades". Como se não tivéssemos  já a Lusófona...

quinta-feira, 26 de novembro de 2015

Para lá dos contratempos


É que no fundo a vida é muito mais simples e mais bonita que todos os estorvos, contrariedades e questões triviais, mas irrelevantes, que às vezes amesquinham e ensombram os dias que passam. E afinal há sempre o sol e o mar, a música e a poesia; e os abraços e mimos de quem nos quer bem...

terça-feira, 24 de novembro de 2015

O dia do Represas


Tem uma voz de que gosto muito, que tem acompanhado a minha vida toda. E, digam o que disserem, para mim, como cantor, será sempre "o maior". 
Hoje, o dia é todo dele. Aqui fica um grande abraço e o meu reconhecimento por me ter embalado tantas horas, boas e más, tantos dias, tantos anos. Parabéns, Luís!


(Estive lá, sim, e até apareço no vídeo...)

segunda-feira, 23 de novembro de 2015

Dois filmes medianos



Não sei se tenho tido pouca sorte, feito más escolhas, ou se realmente não tem havido filmes em cartaz daqueles fantásticos, capazes de nos "encher as medidas".
Os dois últimos que vi, não sendo péssimos, são dos que não deixam marca, nem se recordam durante muito tempo.
She´s funny that way, traduzido por "Ela é mesmo o máximo", é uma comédia que assinala o regresso de Peter Bogdanovich, realizador que fizera algum furor em certos meios intelectuais nos anos 70 e 80, e conta com Owen Wilson e Jennifer Aniston no elenco, mas ainda assim não convence  inteiramente, apesar de algumas  piadas e situações mais ou menos inteligentes e engraçadas.
Já o filme de John Wells, cujo título original, Burnt, foi traduzido em português por "À procura de uma estrela" e tem como protagonista Bradley Cooper acompanhado por um leque de outros nomes igualmente sonantes como Sienna Miller, Uma Thurman, Emma Thompson, ou Omar Sy é interessante sem conseguir chegar a ser um grande filme. Tudo em "lume brando", portanto...

domingo, 22 de novembro de 2015

A força de um abraço


Hoje, no Notícias Magazine, minha leitura obrigatória de todos os Domingos, vinha uma crónica de José Luís Peixoto, um escritor que não aprecio. E, no entanto, gostei da crónica. Chamava-se "O que dizem os abraços" e falava de um em particular, que o pai lhe dera com nove ou dez anos.
Dizia isto, por exemplo: "Juntar as pontas dos ombros e dar algumas palmadinhas nas costas não é um abraço. Escrever "abraço" no fim de um e-mail também não é um abraço. Indiferente ao desenvolvimento social e tecnológico, um abraço continua a ser duas pessoas que se juntam e se apertam uma de encontro à outra.
Esses rapazes que aparecem com cartazes a oferecerem abraços nos festivais de Verão têm graça e talvez sejam bem-intencionados, mas fazem publicidade enganosa. Não são os abraços que provocam as ligações, são as ligações que provocam os abraços."
Por coincidência, hoje também, li um texto impressionante de um aluno, chamado "batalha perdida", que falava da mãe que morrera de cancro quando ele tinha apenas nove anos. E dizia assim, a certa altura: "Todos os dias me lembro do abraço aconchegante que só ela me sabia dar."
Fiquei a pensar nisto. Há, de facto, abraços que não podem esquecer-se. Eu também gosto muito de abraços, daqueles muito apertados, e de um em especial, que me vira do avesso e, por instantes, me faz ver "la vie en rose."

quarta-feira, 18 de novembro de 2015

La plus belle ville du monde


Quem me conhece sabe desta minha paixão, de como eu amo esta cidade como se fosse minha, e a acho a mais bonita do mundo mesmo sem conhecer muitas das que também assim são consideradas. E também do meu sonho poder viver nela durante um ano, apenas para lhe descobrir os inúmeros encantos, ou os recantos e segredos mais secretos; ou de como de tempos em tempos tenho que correr para lá, porque tenho que matar as saudades, e a cada regresso é a alegria e a felicidade de quem abraça lenta e fortemente um amor antigo, que já se conhece mas não deixa de surpreender. 
É por isso que, mesmo se o que se passou e passa ali nestes dias tem uma dimensão que não é apenas da cidade, nem do país, mas do mundo inteiro, eu não tenho conseguido deixar de pensar neste lugar maravilhoso que me pertence e onde pertenço, onde eu queria e não queria estar agora.

(Fotografia de Paulo Abreu e Lima) 


terça-feira, 17 de novembro de 2015

Testemunhos




Enquanto Paris se reergue na dor e o mundo com ela se refaz do choque dos últimos dias, há mil histórias de resistência, de coragem, de emoção. E enquanto na minha cabeça ecoa repetidamente um poema de Sophia que marcou a minha adolescência - "vemos, ouvimos e lemos / não podemos ignorar" - destaco dois exemplos de entre muitos que me tocaram.
A carta de Antoine Leiris, que perdeu a mulher, e as palavras do menino que assiste com o pai às homenagens feitas de flores e de velas que enchem a Place de la République e outras  ruas e praças de Paris: "C'est pour nous protéger, les fleurs et les bougies..."
(Para ler "ci-dessous" e para ouvir aqui:)

“Vous n’aurez pas ma haine”
Vendredi soir vous avez volé la vie d’un être d’exception, l’amour de ma vie, la mère de mon fils mais vous n’aurez pas ma haine. Je ne sais pas qui vous êtes et je ne veux pas le savoir, vous êtes des âmes mortes. Si ce Dieu pour lequel vous tuez aveuglément nous a fait à son image, chaque balle dans le corps de ma femme aura été une blessure dans son coeur. 
Alors non je ne vous ferai pas ce cadeau de vous haïr. Vous l’avez bien cherché pourtant mais répondre à la haine par la colère ce serait céder à la même ignorance qui a fait de vous ce que vous êtes. Vous voulez que j’ai peur, que je regarde mes concitoyens avec un oeil méfiant, que je sacrifie ma liberté pour la sécurité. Perdu. Même joueur joue encore. (...) 
Nous sommes deux, mon fils et moi, mais nous sommes plus fort que toutes les armées du monde. Je n’ai d’ailleurs pas plus de temps à vous consacrer, je dois rejoindre Melvil qui se réveille de sa sieste. Il a 17 mois à peine, il va manger son goûter comme tous les jours, puis nous allons jouer comme tous les jours et toute sa vie ce petit garçon vous fera l’affront d’être heureux et libre. Car non, vous n’aurez pas sa haine non plus.

segunda-feira, 16 de novembro de 2015

Jardins da minha vida (II)



Oferecido à cidade pela infanta Maria Luísa em 1893, foi aberto ao público em 1914 e depois alargado e modificado por ocasião da Exposição Ibero-americana de 1929. Hoje, estende-se por mais de trinta hectares e inclui no seu interior, ou nas imediações, vários edifícios e monumentos emblemáticos de Sevilha, entre os quais se destaca a que é, talvez, a mais original de todas as Praças de Espanha.
Mas o que há de mais cativante e sedutor no Parque María Luisa é o silêncio e o sossego das suas manhãs quase desertas, a frescura verdejante que ameniza os excessos de calor das tardes do sul, o som contínuo dos guizos e dos cascos dos cavalos em passo lento, um ou outro pássaro que se manifesta em exuberante alegria.
Aqui, a calma é tão profunda que de imediato nos invade uma sensação  de preguiça boa, e a serenidade que se instala faz-nos ter vontade de ficar. Ou de voltar.

sábado, 14 de novembro de 2015

En deuil


PARIS SERA TOUJOURS PARIS


C’est Paris ce théâtre d’ombres que je porte
Mon Paris qu’on ne peut tout à fait m’avoir pris
Pas plus qu’on ne peut prendre à des lèvres leurs cris
Que n’aura-t-il fallu pour m’en mettre à la porte
Arrachez-moi le cœur vous y verrez Paris

C’est de ce Paris-là que j’ai fait mes poèmes
Mes mots ont la couleur étrange de ses toits
La gorge des pigeons y roucoule et chatoie
J’ai plus écrit de toi Paris que de moi-même
Et plus que de vieillir souffert d’être sans toi.



Louis Aragon

terça-feira, 10 de novembro de 2015

O melhor político


Por mim, só tenho a agradecer-lhe: o excelente trabalho destes quatro anos, o contributo para a boa imagem de Portugal, o patriotismo, a educação, a classe.

Indignação


Diante do que já se anunciava e hoje não fez mais que confirmar-se, faltam-me as palavras. Esta sede desmedida de poder, o princípio de que vale tudo e que não se olham a meios para atingir fins que assentam em pura ambição pessoal, a ideia de querer levar a sua vontade avante por cima de tudo e de todos é, no mínimo, vergonhoso, imoral e ultrajante.
Como disse Paulo Portas: "O secretário -geral do PS escolheu o caminho do que é matemático possível, formalmente constitucional, mas politicamente ilegítimo." Ou ainda: "Um dia acabará por suceder-lhe manobra igual ou semelhante. E de tão alto cairá como a tão alto se quis guindar, sem que para tal o povo o elevasse."
O discurso de Paulo Portas, tão brilhante como sempre, ou mais ainda desta vez, vale a pena ser ouvido na íntegra. Aqui.
Mas, mais cedo ou mais tarde, não serão apenas os que hoje cantaram vitória a pagar o preço desta fraude. Infelizmente, vamos todos pagar muito caro este triste episódio da nossa história.
Por ora, resta-nos manifestar bem alto a nossa imensa indignação...

segunda-feira, 9 de novembro de 2015

Prazer(es)


A revista Notícias Magazine, que leio todos os Domingos, apareceu esta semana renovada. Diferente. Com mais opiniões. Entre elas as de Júlio Machado Vaz e Marta Crawford, em versão quase epistolar, alternando os seus textos, numa crónica chamada "Na volta do correio". Desta vez, o texto dela diz uma coisa com a qual concordo inteiramente. Isto:
Para mim o sexo é muito mais do que penetração. Comparo-o a um menu de degustação em que cada prato deve ser saboreado sem pressas de se chegar ao fim. É esse o princípio do prazer. Mas será que sabemos realmente saborear o nosso caminho, aproveitar cada momento, tirar o maior partido do que temos?

domingo, 8 de novembro de 2015

Jardins da minha vida (I)



Mesmo quem, como eu, sofre de urbanidade aguda, encontra no espaço de um jardim em plena cidade um encanto muito peculiar. Há nele uma paz revigorante, um silêncio e um sossego que nos permitem descansar, uma magia de beleza e serenidade que nos fazem sentir um conforto semelhante ao de um colo grande e bom.
E então, é como se o tempo se suspendesse e pudéssemos parar e permanecer quietos, pensar em nada, deixando-nos simplesmente arrebatar pela perfeição de um momento puramente contemplativo e, naquela sensação de beatitude que nos dá uma alma nova, sentir como pode às vezes ser boa a preguiça. 
Destes lugares maravilhosos onde me sinto em harmonia com o mundo, o Luxembourg é talvez o mais especial de todos. Em traços gerais a história é mais ou menos assim: Marie de Médicis, a viúva de Henri IV e mãe de Louis XIII, farta das intrigas da corte, decidiu retirar-se para um pavilhão de caça (hoje Palais du Luxembourg, sede do Senado, no interior do Jardim), que mandou arranjar e, ao mesmo tempo, construir os jardins. Isto por volta de 1600 e tal. E, por isso, há no Jardim a Fontaine de Médicis.
O Jardin du Luxembourg, em pleno Quartier Latin, Paris, é para visitar sempre que se quiser, mas eu prefiro-o ao entardecer. Seja em que estação do ano for. Porque o entardecer, ali, é diferente. Os parisienses, que adoram abreviaturas, chamam-lhe, de modo familiar: “Le jardin du lugo”.
E contrariamente ao que se passa connosco, os franceses aproveitam de forma quase exaustiva os inúmeros e extensos espaços verdes da cidade. É comum encontrar os jardins cheios de gente, a qualquer hora. E também no Inverno, mesmo quando a temperatura não é superior a cinco graus. Ao final do dia, em todo o caso, quase ao pôr-do-sol, o “Lugo” costuma ser tranquilo e silencioso. Por isso me sabe tão bem sentar-me nas cadeiras de ferro verde e deixar-me estar, apreciando a luz e o sossego em volta. Ah, que saudades...

Il y avait un jardin qu'on appelait la terre,
Il brillait au soleil comme un fruit défendu.
Non, ce n'était pas le paradis ni l'enfer
Ni rien de déjà vu ou déjà entendu.

Il y avait un jardin, une maison, des arbres
Avec un lit de mousse pour y faire l'amour
Et un petit ruisseau roulant sans une vague
Venait le rafraîchir et poursuivait son cours

Il y avait un jardin grand comme une vallée
On pouvait s'y nourrir à toutes les saisons
Sur la terre brûlante ou sur l'herbe gelée
Et découvrir des fleurs qui n'avaient pas de nom.


sexta-feira, 6 de novembro de 2015

Spectre: muito bom, mas...



Um filme de 007 vale sempre a pena ser visto. Mesmo para mim, que não sou fã de filmes de acção. Mas estes são suficientemente bem feitos, aliam qualidade e bom gosto, charme e adrenalina, argumento e ritmo intensos, efeitos especiais e humor, tudo nas doses certas.
Spectre tem uma sequência de abertura verdadeiramente arrebatadora e depois amolece e prolonga-se um pouco para lá da conta.
As "bond girls" de serviço cumprem o seu papel no essencial, com vantagem óbvia para Mónica Bellucci que mantém o "sex appeal", apesar das marcas visíveis da passagem dos anos (ou até por causa delas). Já Léa Seydou não consegue nunca parecer-me completamente convincente, neste como noutros filmes - La vie d'Adèle, por exemplo - mas deve ser problema meu, que nunca vejo nela garra suficiente para dar credibilidade aos papéis com que é presenteada.
Desta vez concordo com a crítica. O filme é muito bom. Mas o anterior é talvez ainda melhor. Até na música que o acompanha...

quarta-feira, 4 de novembro de 2015

Caminhos para Deus


O livro foi hoje posto à venda e eu tenho sobre ele uma imensa curiosidade. E, mesmo sem o ter lido, consigo antever a sua excepcionalidade. Sei que ao dizer isto posso ser considerada muito mais do que suspeita. Porque a Helena que todos conhecemos, que eu comecei por admirar como acontece com a maior parte da população portuguesa, pelo menos, que é um exemplo de força, de coragem e de alegria, é agora -  por um daqueles acasos do destino que se acredita estarem há muito escritos nas estrelas  - uma pessoa que faz parte da minha vida, uma amiga muito próxima e muito querida, a quem estou profundamente ligada por fortíssimos laços de amizade e estima.
Por isso já não consigo dissociar a Helena autora da "minha" Helena, que está para além dessa imagem comum, porque é a que tenho no coração. Por isso, também, tudo o que lhe diz respeito me interessa e me toca.
Mas este livro é diferente, eu sei. Mais íntimo e ousado. E sei muito de como ele surgiu e foi crescendo, o que aumenta a minha expectativa.
Já estava à venda no Corte Inglés, mas não o comprei ainda. Prefiro guardar-me para o lançamento, que será, de igual modo, um momento especial.
É uma livro sobre a espiritualidade e a fé, mas estou certa que é também um livro de amor e de afectos, onde todos nos poderemos rever e encontrar.
E, se alguém tem dúvidas, basta ouvi-la aqui, na primeira pessoa. Grande Helena!...

terça-feira, 3 de novembro de 2015

Esta confusão em que estamos metidos




A propósito dos dias estranhos que temos vivido no último mês - e sabe Deus o que ainda vamos ver acontecer - tenho lido e ouvido muita coisa. Do mais interessante ao mais disparatado, opiniões com as quais concordo e outras de que discordo em absoluto, umas simples e outras muito rebuscadas, muito bem escritas, ou nem tanto.
Hoje, encontrei no "Observador" um texto de Rui Ramos de que gostei. Chama-se "A última golpada e não resisto a trazê-lo até aqui. Diz isto:

Em Portugal, não entrámos numa época de polarização política, mas de golpismo parlamentar e de confusão ideológica. O perigo não é a guerra civil, mas o apodrecimento do regime.
Vivemos há um mês no país dos cenários. Subitamente, tudo se tornou possível. Pela primeira vez, a democracia portuguesa pode ser governada por quem perdeu as eleições. Para chegarem ao poder, os derrotados de 4 de Outubro prestaram-se à mais extraordinária ginástica: António Costa esqueceu o seu precioso plano Centeno, o BE rifou a  intransigente oposição ao Tratado Orçamental, e o PCP pôs no sótão a sua implacável campanha contra o euro – em conjunto, renegaram todas as propostas e bandeiras com que pediram votos e convenceram os eleitores. Quem votou no PS porque era um “partido do centro”, vê-o agora a perfilhar as bolas que o BE e o PCP lhe atiram; quem votou no BE e no PCP porque eram “contra tudo”, vê-os agora a aceitar tudo. O poder corrompe, e o poder de uma maioria parlamentar forjada no desespero e no cinismo da derrota, corrompe muito mais. 
António Costa transformou um dos maiores fracassos da política portuguesa numa vitória: é como se D. Sebastião, depois de perder em Alcácer-Quibir, tivesse reaparecido como sultão de Marrocos. Ora, o que custa, nestas coisas, é a primeira vez. Uma golpada nunca é a última golpada. Qual é a próxima? O PCP e o BE vão “entalar” o PS? Ou é Costa quem vai “entalar” o PCP e o BE? As pensões e os salários sobem mesmo, ou isso é apenas outro embuste, para cair em Janeiro, a pretexto dos “mercados” e da “Europa”? Manter-se-á Costa fiel aos seus parceiros de ocasião, ou tentará mudar de montada e obrigar o PSD e o CDS, com a ajuda de Bruxelas e do próximo presidente da república, a assumir a “responsabilidade” de lhe viabilizar o governo? As esquerdas serviram-lhe para chegar ao poder; vai a direita servir-lhe para lá ficar? Ninguém sabe. Nada, a partir de agora, é impossível. 
Quem pensa que em Portugal entrámos numa época de polarização e de ideologia, está talvez enganado. Entrámos na época do golpismo parlamentar e da confusão ideológica. O perigo não é a guerra civil, mas o apodrecimento do regime através da quebra de todas as regras e da degradação de todos os projectos. A política desligou-se da sociedade. A velha regra do vencedor das eleições governar tinha uma razão de ser. Não era só permitir governos minoritários num sistema que dificulta maiorias absolutas. Era mais do que isso: era manter alguma relação, mesmo que esforçada, entre o voto e as soluções de governo. Quando, a meio da noite eleitoral, os resultados ficavam definidos, o eleitor podia ir para a cama, porque já sabia quem iria ser o primeiro-ministro. O cidadão tinha assim a sensação de haver decidido o governo. Isso acabou. A partir de agora, o eleitor vota, mas sem ideia nenhuma do que pode resultar desse voto: tudo dependerá das intrigas e das combinações dos chefes políticos. 
Entre o eleitor e o governo, a oligarquia inseriu o parlamento como uma camada intermédia de enredo e de manipulação, onde os derrotados se transformam em vencedores e os partidos anti-euro reaparecem como partidos do euro. Para a metamorfose da nossa política estar completa, falta apenas a atomização dos partidos em pequenos grupúsculos imprevisíveis. Então, as possibilidades de combinação serão ainda mais infinitas e vertiginosas. 
Em Portugal, a oligarquia libertou-se dos eleitores. Atreveu-se a isso, porque imagina que já não tem diante de si cidadãos, mas apenas dependentes do Estado, que pode rebaixar à vontade. No meio disto, estão os grandes interesses (empresariais, corporativos, sindicais), cuja margem de manobra vai aumentar, e os grandes ingénuos, convencidos que isto é a “democracia”, quando é apenas a podridão.