terça-feira, 28 de fevereiro de 2017

Um bem essencial

Aproxima-se uma época em que me dou conta de uma forma mais evidente daquilo que, bem no fundo, já sei há muito: como me são fundamentais as amizades.
Orgulho-me de ter um leque de amigos relativamente vasto e variado, feito de personalidades fortes e distintas, que são, de certo modo e em grande medida, pilares de força e de equilíbrio na minha vida. Tenho amigos de muitas idades e proveniências, antigos ou mais recentes, muito diferentes de mim e com pontos em comum, interesses ou perspectivas, maneiras de ser, ou de viver. Todos me fazem falta e me mimam quando preciso deles. E gosto tanto de todos, que às vezes me pergunto se saberão como e quanto me aconchegam o coração...

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2017

Irmandade(s)


Quando eu era pequenina, todas as noites pedia assim ao anjo da guarda: "Anjo da guarda, minha companhia, guarda a Teresinha e a maninha, de noite e de dia". E ele guardou.
Continua a guardar até hoje, acho eu, mesmo que eu me tenha esquecido de continuar a pedir-lho; pelo menos desta forma, tão pueril quanto enternecedora.
E, de facto, com mais ou menos altos e baixos, mas sem juízos de valor, com tudo o que ao longo dos anos nos dividiu e aproximou, não há nada comparável à relação dos irmãos. Porque temos com eles uma ligação diferente de todas as outras; porque há entre nós histórias e memórias que não são de mais ninguém, e coisas que só nós podemos entender; porque há qualquer coisa de indizível, que está para lá dos laços familiares, do sangue e do nome em comum, um vínculo que nos liga com tudo o que isso tem de bom e de mau, também, e que, nunca, nunca, se desfaz. Será, talvez, esse nó que já estava implícito no pedido feito ao anjinho da guarda, há muito tempo, nos primórdios da nossa existência.

domingo, 26 de fevereiro de 2017

Profundamente tocante


Desde o "Quarto" (Room-2015) que um filme não me impressionava tanto. É certo que ambos se baseiam em histórias verídicas, e esse é provavelmente um dos motivos que adensa o drama.
Mas o que há de mais belo e amargo neste Lion - a long way home, uma co-produção da Austrália, Estados Unidos e Reino Unido, realizado por Garth Davis e baseado na obra autobiográfica de Saroo Brierley, é a força e expressividade de Sunny Pawar, o pequeno actor que interpreta a personagem principal na primeira parte do filme. É impossível não vivermos com ele a aflição de se ver de repente sozinho e perdido, a 1500 km de casa, sem saber mais que o seu nome próprio e a sonoridade aproximada do lugar onde morava, não nos deixarmos levar pela autenticidade daqueles lindos olhos negros e pelo sorriso inocente e genuíno de que só os bons meninos são capazes, que nos faz sorrir, chorar ou enternecer-nos com ele, que nos dá vontade de lhe pegar ao colo para lhe apaziguar a dor, e trazer também para nossa casa como fez aquele casal australiano. Nicole kidman é, também ela, brilhante, como sempre. E há, depois, Dev Patel e a humana determinação que dá à sua personagem. Mas é aquele menino a verdadeira estrela da história, a que mais nos prende e abala.
Este é um filme absolutamente emocionante e imperdível, que retrata a pobreza e a miséria humanas e nos deixa a pensar sobre o que (não) fazemos para a evitar, que não cai nunca na lamechice piegas, e que, ainda assim, consegue ser poético e delicado, que é o que o torna tão especial; um  filme sobre o qual ficamos a pensar mesmo depois de ter acabado, porque guardamos connosco a doçura triste e a coragem daquele Saroo pequenino, e o seu grito lancinante, a chamar repetidamente pelo irmão que nunca mais volta: Gudduuuuuu!.... Tão autêntico, tão frágil, tão humano.

sábado, 25 de fevereiro de 2017

Do desamor


Há o "Samba da Benção", de Vinicius, que diz a certa altura, "a vida não é brincadeira, amigo,/ a vida é a arte do encontro/ embora haja tanto desencontro nessa vida". E se é verdade que cada um sabe de si, e que não temos nada a ver com o que se passa na vida dos outros, faz-me às vezes confusão quando olho à minha volta e vejo como tantas pessoas mantêm ligações pelos mais diversos motivos, que não não têm nada ou quase nada a ver com amor, ou afecto, sequer. Deve ser por isso que há tanta gente que anda por aí muito mal-disposta.
No fundo, é tudo muito mais simples do que julgamos. E, embora haja sempre quem pense o contrário, claro, o ditado, com a sensatez que tem a sabedoria popular, encerra em si uma grande verdade:"Antes só do que mal acompanhado."

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2017

Histórias de Lisboa (VI)



Percursos


Viver agora no centro da cidade trouxe-me um novo prazer: o de mais frequentemente pode entregar-me ao vício antigo de passear a pé por Lisboa, sem destino definido, revisitando locais onde não passava há muito, relembrando histórias e momentos, ou descobrindo o que nunca antes me fora dado ver, porque me passara então despercebido, ou porque nem sequer existia.
Foi assim que ontem, no sossego de uma manhã de Domingo cheia de sol e com um céu muito azul como não existe em mais lado nenhum, voltei ao Campo Mártires da Pátria e ao Jardim do Torel, desci à Avenida e subi ao Príncipe Real pela Praça da Alegria, depois voltei a descer pelo Chiado a caminho do rio, deixando-me  deslumbrar com as magníficas vistas das colinas de Santana e de São Roque, misturando-me com os turistas, apreciando as cores, os cheiros e os contrastes que fazem desta minha cidade um lugar ao mesmo tempo antigo e moderno, sedutor e apaixonante, onde continuo a gostar de pertencer, e que não me canso de olhar ,com olhos novos, como se o visse sempre pela primeira vez.




sábado, 18 de fevereiro de 2017

Este não é um dia qualquer

Há amizades que o tempo ou a distância não destroem, que são da vida toda sem importar quando, onde e em que circunstâncias nos conhecemos, feitas de segredos, de sintonias, de cumplicidades e de plenitudes, de palavras e de silêncios, de almas que se tocam e corpos que  às vezes se desejam, de mistério, fascínio e liberdade. E há pessoas de quem gostamos muito sem poder explicar porquê, de quem nos sentimos sempre profundamente perto, e nem precisamos de dar nome aos laços fortes que nos unem, porque nos basta saber que tudo isso existe, e é bom, e nos aquece o coração. 

terça-feira, 14 de fevereiro de 2017

Amor a metro


Mal vão os amores que precisam de um dia para ser lembrados. Este  "Dia dos Namorados", para lá da piroseira do nome e do conceito, é uma tremenda aberração, porque é justamente a antítese do que o amor deve ser.
O mais bonito e o melhor do amor é a sua inevitabilidade, e tudo o que há nele de inesperado e surpreendente, sem tempo nem espaço, nem nada que se possa prever ou antecipar. É por isso que me repugnam tanto os amores de "centro comercial", com dia e hora marcada, corações e ursinhos, bombons e flores, menus "afrodisíacos", noites "especiais" promovidas por um hotel qualquer e escolhidas  por catálogo. Quem comemora o São Valentim dirá também "amor", ou mesmo "mor", cada vez que se dirige ao objecto do seu afecto, que passa a não ter nome, porque "toda a gente faz assim".
E afinal, para quê tudo isto se cada amor é único, o primeiro e o último em simultâneo, por ser diferente de todos os outros e chegar quando e de onde menos se espera, nos virar do avesso e ter mil maneiras de se viver e manifestar. Pode ser caos e redenção, fraqueza e força, todos os sentimentos e os sentidos de repente confundidos, lágrimas e riso, solidão e companhia, dor e deslumbramento, nada e tudo, e o arrepio do desejo sempre diferente, apesar de sempre repetido, em momentos de entrega e de plenitude total . Mas vivido no secretismo exclusivo de uma intimidade  própria, a dois, fora do tempo, ou para além dele.
Por isso não é preciso um amor de plástico, nem o faz de conta para o mundo ver. Basta-nos a certeza de nos termos na vida um do outro, de nos entendermos e conhecermos tanto e tão bem, e de tanto que só nós sabemos e vivemos, sem precisar sequer de o dizer.  Porque os sentimentos mais íntimos são como um nó que nunca se desfaz. E porque há amores assim, sem limites nem amarras, que chegam à nossa vida, se instalam e ficam nela, a  fazer-nos desmedidamente felizes. E que podem comemorar-se sempre e nunca, mas sem dias marcados...

sábado, 11 de fevereiro de 2017

Depardieu e Ardant


Já há muito tempo que não via aquilo a que no grupo de amigos que me é  mais próximo costumamos designar como "um filme p'rá carola".
Eu devia ter desconfiado: Paulo Branco tem a mania que é intelectual e um filme produzido por ele só podia ser qualquer coisa deste género.  Havia, porém, dois nomes de que gosto muito; e foi isso que me tentou. 
Por mais polémico que Gérard Depardieu possa ser, por mais que a sua figura esteja nos antípodas dos cânones de beleza, charme ou sedução, tem um talento inegável, muito acima da média, que faz com que não perca quase nenhum filme com ele, porque é sempre um espectáculo de interpretação. Tem ainda a característica peculiar de deixar coladas à sua pele as personagens que já fez, em especial Cyrano de Bergerac, uma personagem e um filme inesquecíveis. Há portanto neste Estaline de agora qualquer coisa dos filmes anteriores, aquele panache de Cyrano, ou até um pouco da brutalidade de Obélix.
E há depois Fanny Ardant, de quem recordo sempre os papéis nos filmes de Truffaut, sobretudo, como La femme d'à côté ou Vivement Dimanche, por exemplo. Mas até agora conhecia-a apenas na sua faceta de actriz, e no seu porte de grande dama, que mistura requinte e  altivez, tudo muito français. Não conhecia ainda o seu trabalho como realizadora, apesar deste ser já o seu terceiro filme.
"O divã de Estaline" (Le divan de Staline, no original) é um filme franco-português, rodado integralmente no palácio e  na mata do Buçaco, com a participação de actores portugueses, como Lidia Franco ou Joana Verona, ainda que  em pequenos papéis, com Emmanuelle Seigner  e Paul Hamy. É, no entanto, apesar dos nomes de peso e das performances à altura dos nomes envolvidos, um filme de estranhas atmosferas, sombrio e um pouco maçador, que conta o jogo perverso que se estabelece entre Estaline, a sua amante Lídia e o pintor Danilov, adaptado do romance com o mesmo nome de Jean-Daniel Baltassat e, na minha opinião, muito pouco convincente.
Fanny Ardant, que muito prezo enquanto actriz,  não me convenceu, de facto, como realizadora. Temos pena...

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2017

Humor(es)



E depois também há dias assim, em que é mais ou menos isto:

Je m'en fous pas mal
Il peut m'arriver n'importe quoi
Je m'en fous pas mal
J'ai mon dimanche quei est à moi
C'est peuy-être banal
Mais ce que les gens pensent de vous
Ça m'est égal
Je m'en fous!
(...)
Et puis il y a le bal
Qui vous flanque des frissons partout
Il y a des étoiles
Qui sont plus belles que les bijoux
Il ya les beaux mâles
Qui vous embrassent dans le cou
Le reste, après tout
Je m'en fous
(...)
Il y a ses bras qui m'enlacent
il y a son corps doux et chaud
Il y a sa bouche qui m'embrasse
Ah, mon amant ce qu'il est beau
(...)
Quande je suis dans ses bras c'est fou
(...)

Avec lui j'irais n'importe où
Le reste, après tout
Je m'en fous.

domingo, 5 de fevereiro de 2017

Beaubourg: 40 anos e 5 dias


A primeira vez que fui a Paris, o Beaubourg era ainda muito recente. Ultrapassada toda a polémica da sua construção, era na altura a novidade, uma explosão de arrojo, de cor e de modernidade no velho bairro de Les Halles. Como um grito, uma pedrada no charco, uma surpresa qualquer.
Numa altura em que não havia sequer a Fontaine Stravinsky, Beaubourg era o exemplo máximo do pós-moderno, e por isso era à sua volta que se concentrava grande parte da animação da  cidade.
Mandado construir por Georges Pompidou, o centro herdou oficialmente o seu nome (Centre National d'Art et de Culture Georges Pompidou), apesar de ser geralmente mais conhecido e designado pelo nome da rua onde se situa (Beaubourg). Foi inaugurado a 31 de Janeiro de 1977, com os famosos tubos coloridos à vista, a estrutura em vidro e aço e a enorme escada rolante exterior que rapidamente se tornaram  a imagem de Paris virada para o futuro, e são hoje elementos emblemáticos de uma cidade simultaneamente antiga e moderna, sofisticada e mundana, em constante renovação sem nunca perder a sua essência, que é o que faz dela um lugar tão encantador e especial.
Para mim, aquela primeira visita foi tão significativa, que nunca mais voltei a Paris sem passar por Beaubourg, que continua igual e já diferente como é hábito acontecer com quase tudo, que já não é uma novidade nem concentra tanta gente à sua volta, mas é ainda assim local de visita obrigatória, onde já vi magníficas exposições, ou simplesmente me detenho e delicio a olhar Paris.
Quem diria que já passou tanto tempo...

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2017

O dia de festa no mar


Hoje, que é dia 2 de Fevereiro, lembrei-me de uma canção antiga que diz que este é dia de "festa no mar". Mas o mar não é sempre uma festa?

(Fotografia do blogue À Esquina da Tecla)