sábado, 29 de novembro de 2014

Uma questão de tempo




Richard Linklater é um realizador de que eu gosto, ou não fosse ele o autor da triologia que inclui um dos filmes da minha vida, Before Sunset, de que já falei aqui.
É também ele o realizador do filme de que se fala: Boyhood. Neste, como nos anteriores, é a passagem do tempo que atravessa todo o filme, é ela o seu tema central, na sua complexa e natural simplicidade.
Não é pois um filme que simplesmente conta a história da vida de um rapaz entre os seis e os dezoito anos, é antes um filme sobre o que o tempo faz de nós e o que fazemos com o tempo. Por isso nos cativa, nos envolve e sensibiliza, apesar de ser mais ou menos banal o que nos conta. E por isso, também, aquelas personagens são credíveis e verosímeis, como nós ou os que nos são próximos. Como acontecia nos três filmes da trilogia. E se ali havia nove anos a separar cada filme, aqui o filme leva doze anos até estar completo, o que constitui um projecto arriscado, sem dúvida, mas torna mais real e visível o efeito da passagem dos anos. Porque aproxima o tempo real e o tempo ficcional e é esse o seu trunfo e o seu encanto.
Para mim, que  sou uma apaixonada por estas questões do tempo e da forma como nos relacionamos com ele - o que explica talvez a minha paixão por relógios - nem me apercebi que a história durara três horas  e deixei-me levar por ela e pela serenidade que transmite. É que, tal como na vida,  há as palavras e os silêncios, as relações entre as pessoas, os afectos e as desilusões, as escolhas que se fazem e as que ficam por fazer; e tudo aquilo é também um pouco de cada um de nós. Por isso nos toca tanto...

sexta-feira, 28 de novembro de 2014

Chegam as festas


A menos de um mês do Natal, acendem-se hoje as luzes de Lisboa e estamos já em pleno "espírito natalício".
Tenho, em relação a esta época, sentimentos contraditórios.  Gosto da luz, dos brilhos e dos cânticos associados à festa, do seu lado mais emotivo e espiritual, da mensagem de amor que lhe está na mais funda essência. Mas dispenso o lado frívolo e consumista que se lhe foi juntando também, que hoje ocupa quase tudo, com os excessos de todo o tipo, o frenesim exagerado e uma inexplicável azáfama que transformam tudo isto  numa tremenda canseira.
Enfim, mesmo sendo uma época emocionalmente tumultosa, há uma poética magia que se agarra a estes dias e me faz encontrar neles, apesar de tudo, algum encanto que, às vezes, me pacifica a alma.

(Fotografia de Maria Cristina Guerra)

quarta-feira, 26 de novembro de 2014

Fraqueza e força



Era um amor antigo, que surgira repentino  e inevitável como quase sempre acontece e que o tempo só fortalecera,  na certeza serena e terna de se terem um ao outro mesmo quando tudo parecia dizer não, e depois fora corroendo muito devagar, até chegar ao ponto de já não saberem se fazia ainda sentido, ou se havia alguma coisa que os unia para além de um passado comum, com memórias boas e outras más.
Entregara-se-lhe inteira, na rendição de corpo e alma que deixara neles a marca definitiva dos amores sem limite nem  pressa que se acredita serem para a vida inteira, e que tornam os dias mais luminosos e mais bonitos.
Mas quando tudo parecia perdido, nas noites de maior solidão e desamparo, quando sentia precisar de colo e de mimo, recordava às vezes o primeiro beijo e o primeiro toque, naquela noite já muito distante que fora a primeira de muitas noites boas. E queria voltar à emoção de outrora, que sabia irrepetível, porque o tempo não volta para trás. E vinha a nostalgia do calor do seu corpo, do conforto do seu abraço silencioso, o sabor dos beijos demorados e uma saudade doce e magoada dos instantes mágicos de vontades e corpos em sintonia, tudo só desejo e tempo infinito.
No fundo sabia que, mesmo em momentos assim, sem  o constante alvoroço do  quotidiano e com as emoções todas à solta, em que parecia só haver fragilidade e desencanto, e queria tudo e nada ao mesmo tempo, era na verdade e na profundidade  dos afectos que sempre haveria de acreditar.
E era então que lhe nascia também a vontade de o apertar nos braços outra vez, de o olhar no fundo dos olhos, e de lhe dizer simplesmente a falta que lhe fazia.
  

terça-feira, 25 de novembro de 2014

Dois pesos e duas medidas


Não posso deixar de achar muita graça a todos os que agora preferem "manter o silêncio", e mais ainda aos que vêm de forma mais ou menos indignada e às vezes até excessivamente apaixonada falar no escândalo da "violação do segredo de justiça" ou em "respeito pelos direitos humanos" e todas as barbaridades que  temos ouvido nos últimos dias. Porque são exactamente estas mesmas pessoas as que não se eximem de crucificar muita boa gente em praça pública, com base em suspeitas infundadas e em pura maledicência.
"Estamos todos consternados", ouvi eu dizer hoje. Eu não estou, garanto. Porque, para mim, a falta de respeito maior é que se tenha podido chegar ao estado a que este país chegou.
E, a propósito, vale a pena ler  José Manuel Fernandes, no Observador:
Aqui ficam alguns excertos:
Uma parte do país – e um contingente notável de comentadores – parecem continuar em estado de negação. Durante anos não quiseram ver, não quiseram ouvir, não quiseram admitir que havia no comportamento de José Sócrates ministro e de José Sócrates primeiro-ministro demasiados “casos”. Em vez disso só viram cabalas, só falaram em perseguições, só trataram eles mesmo de ostracizar ou mesmo perseguir os que se obstinavam em querer respostas, os que insistiam em não ignorar o óbvio, isto é, que Sócrates não tinha forma de justificar os gastos associados ao seu estilo de vida.
Agora, que finalmente a Justiça se moveu, eles continuam firmes na sua devoção – e nas suas cadeiras nos estúdios de televisão. Não lhes interessa conhecer o que se vai sabendo sobre os esquemas que Sócrates utilizaria para fazer circular o dinheiro, apenas lhes interessa que parte do que foi divulgado pelos jornais devia estar em segredo de Justiça. Antes, anos a fio, quando não havia segredo de justiça para invocar, desvalorizaram sempre todas as investigações jornalísticas que tinham por centro José Sócrates.
(...)
Vamos ser claros, deixando a hipocrisia do respeitinho de lado. A dúvida que havia sobre José Sócrates era sobre se seria algum dia apanhado. A percepção que corroía a confiança nas instituições não era sobre se os seus direitos humanos poderiam vir a ser negados (a sugestiva preocupação de Alberto João Jardim), mas sim sobre se algum dia um aparelho judicial que, anos a fio, pareceu amestrado seria capaz de apanhar alguns dos fios das muitas meadas tecidas pelo antigo primeiro-ministro.
Escrevi-o muitas vezes e vou repeti-lo: José Sócrates foi a pior coisa que aconteceu na democracia portuguesa nos últimos 40 anos, e não o digo por causa da bancarrota. Digo-o por causa da forma como exerceu o poder, esperando fazê-lo de forma absoluta, sem contestação, sem obstáculos, sem críticos. Não os tolerava no PS, no Governo, nos jornais, nos bancos, nas grandes empresas do regime.
Não sou a primeira pessoa a descrever assim José Sócrates. Nem essa descrição é recente. Recordo apenas um texto de António Barreto, de Janeiro de 2008 (há quase sete anos, bem antes da bancarrota), onde se escrevia que “o primeiro-ministro José Sócrates é a mais séria ameaça contra a liberdade, contra a autonomia das iniciativas privadas e contra a independência pessoal que Portugal conheceu nas últimas três décadas”.

segunda-feira, 24 de novembro de 2014

A voz

 
Já o disse aqui muitas vezes: esta é, sem dúvida, a voz que marca a minha vida, a de todos os momentos, a que nunca me canso de ouvir. E o Luís Represas é uma pessoa de quem eu gosto muito.
Hoje, o dia é  dele. E tal como nos outros dias, ou mais ainda, nada melhor que ouvi-lo. Muitos parabéns, Luís!...
(Fotografia de Vânia Marecos)
 
 
 

quinta-feira, 20 de novembro de 2014

Desencanto


Já gastámos as palavras pela rua, meu amor,
e o que nos ficou não chega
para afastar o frio de quatro paredes.
Gastámos tudo menos o silêncio.
Gastámos os olhos com o sal das lágrimas,
gastámos as mãos à força de as apertarmos,
gastámos o relógio e as pedras das esquinas
em esperas inúteis.

Meto as mãos nas algibeiras e não encontro nada.
Antigamente tínhamos tanto para dar um ao outro;
era como se todas as coisas fossem minhas:
quanto mais te dava mais tinha para te dar.

Às vezes tu dizias: os teus olhos são peixes verdes.
E eu acreditava.
Acreditava,
porque ao teu lado
todas as coisas eram possíveis.

Mas isso era no tempo dos segredos,
era no tempo em que o teu corpo era um aquário,
era no tempo em que os meus olhos
eram realmente peixes verdes.
Hoje são apenas os meus olhos.
É pouco, mas é verdade,
uns olhos como todos os outros.

Já gastámos as palavras.
Quando agora digo: meu amor,
já se não passa absolutamente nada.
E no entanto, antes das palavras gastas,
tenho a certeza
que todas as coisas estremeciam
só de murmurar o teu nome
no silêncio do meu coração.

Não temos já nada para dar.
Dentro de ti
não há nada que me peça água.
O passado é inútil como um trapo.
E já te disse: as palavras estão gastas.

Adeus.


                                                   (Eugénio de Andrade)

quarta-feira, 19 de novembro de 2014

Lisboa Menina e Moça


Goste-se ou não de Carlos do Carmo - e eu confesso que não é de todo um dos "meus" artistas - não pode ignorar-se a sua importância no fado, na música portuguesa e também na música do mundo, que lhe valeu a atribuição de um  grammy, facto em si mesmo assinalável e de certa forma motivo de orgulho, para o próprio, acima de tudo, mas também para todos nós, que acabamos por estar nele implicados.
"Lisboa Menina e Moça" é um dos mais lindos hinos alguma vez escritos sobre esta cidade única e belíssima, que Carlos do Carmo imortalizou com a sua voz, mas que tem o toque especial que só um poeta tão extraordinário como Ary dos Santos lhe poderia ter dado.
(Fotografia de Paulo Abreu e Lima)

Lisboa menina e moça, menina
Da luz que meus olhos vêem tão pura
Teus seios são as colinas, varina
Pregão que me traz à porta, ternura
Cidade a ponto luz bordada
Toalha à beira mar estendida
Lisboa menina e moça, amada
Cidade mulher da minha vida
 

segunda-feira, 17 de novembro de 2014

Um blogue "de sucesso"

Escrever, já se sabe, é uma aprendizagem. Mas anterior a ela há também uma boa dose de aptidão, que faz com que algumas pessoas possam fazê-lo muito bem e outras nem tanto. Há algumas técnicas, claro, há melhoramentos que se conseguem pela prática, mas da mesma maneira que todos podemos aprender a dançar, a cantar, ou a pintar, sem que apenas  por isso o façamos com perfeição e mestria, porque faltará sempre qualquer coisa, aquele suplemento de alma que faz a diferença, também não é por aprender uma "receita", e por escrever muito, que todos somos de repente Proust ou Tolstoi, por exemplo.
Hoje toda a gente acha que escreve. Nada contra. Mas esse simples facto em si mesmo não significa que quem o faz seja um grande escritor.
Vem tudo isto a propósito de uma descoberta que fiz recentemente: num tempo cada vez marcado pelos "vendedores de banha da cobra", em que proliferam cursos de tudo e mais alguma coisa, que vão da "escrita criativa" a "como ser famoso", mais ou menos isto, descobri não sem espanto que agora há também cursos que ensinam como construir "um blogue de sucesso".
Não sei exactamente o que quererá isto dizer. O que é na verdade um "blogue de sucesso"? Como se define? Pelo número de "visitas"?
Enfim, não conheço muito do meio, mas do que conheço há os que considero muito interessantes e onde vou todos os dias, às vezes mais que uma vez, e até só para "descansar"; há outros verdadeiramente abomináveis, irritantes ou de mau gosto, por onde já passei mas não voltei. Depois, há também os que não me interessam, simplesmente, que me são indiferentes, com toda a carga de subjectividade que têm estas coisas e que correspondem, para mim, muito mais a afinidades e gosto pessoal do que outra coisa qualquer.
O que sei é que não queria nada ter "um blogue de sucesso". Gosto do meu assim como ele é, hoje já muito colado à minha pele e inteiramente "caseirinho", onde todos são bem-vindos, mas que não me faz querer nada mais que o prazer que isto me dá.

domingo, 16 de novembro de 2014

Em parte incerta


Para mim, um fim de semana típico da época Outono-Inverno inclui uma ida ao cinema. Por motivos vários, há já algum tempo que isso não acontecia, o que explica talvez que estando este filme em cartaz desde o início de Outubro só agora tenha dado por ele. E ainda bem, porque foi, de facto, uma escolha que valeu a pena.
Realizado por David Fincher, o mesmo realizador de Seven e de Benjamim Button, para mencionar apenas dois dos que eu vi em distintas épocas, "Em parte incerta" (Gone Girl, no original) é um fantástico thriller baseado num bestseller de Gillian Flynn, que é também a autora do argumento; mas é muito mais que isso: é um filme sobre a complexidade humana, sobre o mistério do outro, sobre a verdade e a mentira, as ilusões e as aparências, sobre o poder dos media e o seu lado mais ridículo, e mais perverso, também.
O filme dura cerca de duas horas e meia, mas nem se dá pelo tempo a passar, porque nos prende do início ao fim, nos empolga, nos perturba, nos assusta  e nos envolve, no modo como está construído e nos vai surpreendendo a cada momento, no que há de mais obscuro nas personagens, na empatia que nos faz aproximar-nos delas e logo afastar-nos na volta seguinte.
Mesmo não sendo grande fã de Ben Affleck é suficientemente credível  o seu Nick Dunne. Mas o papel de destaque é claramente para Rosemund Pike, sempre brilhante na interpretação da multifacetada Amy, que fará dela com toda a probabilidade uma séria candidata aos Óscares, o que é, aliás, muitíssimo merecido.
Para quem ainda não viu, recomenda-se, claro está!...


sexta-feira, 14 de novembro de 2014

Praga(s) moderna(s)


Por mera casualidade, encontrei ontem este texto, que me pareceu no mínimo curioso. Diz isto:

Nos Estados Unidos, pelo menos 9% das crianças em idade escolar foram diagnosticadas com TDAH (Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade), e estão sendo tratadas com medicamentos. Na França, a percentagem de crianças diagnosticadas e medicadas para o TDAH é inferior a 0,5%. Como é que a epidemia de TDAH, que tornou-se firmemente estabelecida nos Estados Unidos, foi quase completamente desconsiderada com relação a crianças na França?
TDAH é um transtorno biológico-neurológico? Surpreendentemente, a resposta a esta pergunta depende do fato de você morar na França ou nos Estados Unidos. Nos Estados Unidos, os psiquiatras pediátricos consideram o TDAH como um distúrbio biológico, com causas biológicas. O tratamento de escolha também é biológico – medicamentos estimulantes psíquicos, tais como Ritalina e Adderall.
Os psiquiatras infantis franceses, por outro lado, vêem o TDAH como uma condição médica que tem causas psico-sociais e situacionais. Em vez de tratar os problemas de concentração e de comportamento com drogas, os médicos franceses preferem avaliar o problema subjacente que está causando o sofrimento da criança; não o cérebro da criança, mas o contexto social da criança. Eles, então, optam por tratar o problema do contexto social subjacente com psicoterapia ou aconselhamento familiar. Esta é uma maneira muito diferente de ver as coisas, comparada à tendência americana de atribuir todos os sintomas de uma disfunção biológica a um desequilíbrio químico no cérebro da criança.
Os psiquiatras infantis franceses não usam o mesmo sistema de classificação de problemas emocionais infantis utilizado pelos psiquiatras americanos. Eles não usam o Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders ou DSM. De acordo com o sociólogo Manuel Vallee, a Federação Francesa de Psiquiatria desenvolveu um sistema de classificação alternativa, como uma resistência à influência do DSM-3. Esta alternativa foi a CFTMEA (Classification Française des Troubles Mentaux de L’Enfant et de L’Adolescent), lançado pela primeira vez em 1983, e atualizado em 1988 e 2000. O foco do CFTMEA está em identificar e tratar as causas psicossociais subjacentes aos sintomas das crianças, e não em encontrar os melhores bandaids farmacológicos para mascarar os sintomas.
Na medida em que os médicos franceses são bem sucedidos em encontrar e reparar o que estava errado no contexto social da criança, menos crianças se enquadram no diagnóstico de TDAH. Além disso, a definição de TDAH não é tão ampla quanto no sistema americano, que na minha opinião, tende a “patologizar” muito do que seria um comportamento normal da infância. O DSM não considera causas subjacentes. Dessa forma, leva os médicos a diagnosticarem como TDAH um número muito maior de crianças sintomáticas, e também os incentiva a tratar as crianças com produtos farmacêuticos.
A abordagem psico-social holística francesa também permite considerar causas nutricionais para sintomas do TDAH, especificamente o fato de o comportamento de algumas crianças se agravar após a ingestão de alimentos com corantes, certos conservantes, e / ou alérgenos. Os médicos que trabalham com crianças com problemas, para não mencionar os pais de muitas crianças com TDAH, estão bem conscientes de que as intervenções dietéticas às vezes podem ajudar. Nos Estados Unidos, o foco estrito no tratamento farmacológico do TDAH, no entanto, incentiva os médicos a ignorarem a influência dos fatores dietéticos sobre o comportamento das crianças.
E depois, claro, há muitas diferentes filosofias de educação infantil nos Estados Unidos e na França. Estas filosofias divergentes poderiam explicar por que as crianças francesas são geralmente mais bem comportadas do que as americanas. Pamela Druckerman destaca os estilos parentais divergentes em seu recente livro, Bringing up Bébé. Acredito que suas idéias são relevantes para a discussão, por que o número de crianças francesas diagnosticadas com TDAH, em nada parecem com os números que estamos vendo nos Estados Unidos.
A partir do momento que seus filhos nascem, os pais franceses oferecem um firme cadre - que significa “matriz” ou “estrutura”. Não é permitido, por exemplo, que as crianças tomem um lanche quando quiserem. As refeições são em quatro momentos específicos do dia. Crianças francesas aprendem a esperar pacientemente pelas refeições, em vez de comer salgadinhos, sempre que lhes apetecer. Os bebês franceses também se adequam aos limites estabelecidos pelos pais. Pais franceses deixam seus bebês chorando se não dormirem durante a noite, com a idade de quatro meses.
Os pais franceses, destaca Druckerman, amam seus filhos tanto quanto os pais americanos. Eles os levam às aulas de piano, à prática esportiva, e os incentivam a tirar o máximo de seus talentos. Mas os pais franceses têm uma filosofia diferente de disciplina. Limites aplicados de forma coerente, na visão francesa, fazem as crianças se sentirem seguras e protegidas. Limites claros, eles acreditam, fazem a criança se sentir mais feliz e mais segura, algo que é congruente com a minha própria experiência, como terapeuta e como mãe. Finalmente, os pais franceses acreditam que ouvir a palavra “não” resgata as crianças da “tirania de seus próprios desejos”. E a palmada, quando usada criteriosamente, não é considerada abuso na França.
Como terapeuta que trabalha com as crianças, faz todo o sentido para mim que as crianças francesas não precisem de medicamentos para controlar o seu comportamento, porque aprendem o auto-controle no início de suas vidas. As crianças crescem em famílias em que as regras são bem compreendidas, e a hierarquia familiar é clara e firme. Em famílias francesas, como descreve Druckerman, os pais estão firmemente no comando de seus filhos, enquanto que no estilo de família americana, a situação é muitas vezes o inverso.
 
O artigo, que parece que já tem dois anos, foi originalmente publicado por Marilyn Wedge na revista "Psychology Today", e esta é, como se pode perceber, uma tradução brasileira.
Ora, não sendo especialista da área, não estou em condições de avaliar a veracidade e o rigor científico do que aqui se diz.
Parece-me, no entanto, pelo que vou observando, que há um número anormalmente crescente e  quase excessivo de crianças e adolescentes diagnosticados com "Défice de Atenção e Hiperactividade" que, por isso, são todos medicados com Ritalina. E então é vê-los nas salas de aula, aos "ritalínicos", quais zombies, num estado de apatia e aparvalhamento quase completos, que chega a ser confrangedor em alguns casos.
Quando os vejo assim, claramente afectados pela medicação, pergunto-me muitas vezes se não terá havido precipitação ou subjectividade na avaliação, e se não haverá outro caminho. Porque a Ritalina, mesmo para mim, que não percebo nada do assunto, não me parece ser de todo a solução.

quinta-feira, 13 de novembro de 2014

Ainda as "taxinhas" do Costa


Não queria mencionar o assunto, juro, mas encontrei isto e não pude resistir.
(Indecentemente "roubado" daqui.)

A antecipação do prazer

 
Grande parte de que há de mais excitante no prazer é também o que o antecede e se vive por antecipação, na cabeça, no coração ou no corpo todo, antes mesmo de ele se tornar plenitude absoluta.
E isto vale para todos os prazeres imagináveis - do mais grandioso e avassalador ao mais insignificante -, porque todos são afinal fonte satisfação e de bem-estar.
Lembro-me de coisas muito simples: do prazer de chegar a casa, largar os saltos altos e trocar de roupa; do primeiro contacto com  a água no banho matinal; de estender-se no sofá para entregar-se à preguiça. E de outras, também: de um toque que provoca um arrepio; do afago de uma mão a despertar vontades; de uma meiguice sussurrada ao ouvido; de um beijo que se pressente tanto quanto se deseja.
Há uma singularidade muito própria nos instantes que antecedem estes momentos, quando já se sabe que o que se espera está mesmo a chegar e se começa a supor o gozo do que vem depois, numa antevisão que é já o princípio do prazer. 
E por isso não é raro querer também prolongar esse tempo prévio, anterior ao acontecer, e retardá-lo até um pouco, para ampliar o deleite. 

quarta-feira, 12 de novembro de 2014

Nostalgia



(...) é preciso deixar correr o coração, de lembrança em lembrança, na esperança de ele se cansar.  
 
(Miguel Esteves Cardoso)

segunda-feira, 10 de novembro de 2014

Chuva


Cai a chuva abandonada
à minha melancolia,
a melancolia do nada
que é tudo o que em nós se cria.

Memória estranha de outrora
não a sei e está presente.
Em mim por si se demora
e nada em mim a consente

do que me fala à razão.
Mas a razão é limite
do que tem ocasião

de negar o que me fite
de onde é a minha mansão
que é mansão no sem-limite.
Ao longe e ao alto é que estou
e só daí é que sou. 
           

              
                                           Vergílio Ferreira
            
Sou claramente do sol, que me é fundamental, tal como o mar, a música, a poesia. Ser-me-ia por isso difícil viver feliz numa daquelas cidades onde chove quase sempre.
E, no entanto, encontro às vezes um encanto todo especial nas superfícies luzidias dos dias mais tristes e sombrios, que tornam as horas de sol e luz brilhante mais apetecíveis ainda.

domingo, 9 de novembro de 2014

Outono em pleno

 
Agora já é a sério: este fim de semana o Outono instalou-se por inteiro com o Natal no horizonte  a querer sobrepor-se-lhe na exuberância de luzes e enfeites que anunciam a festa por antecipação.
Há qualquer coisa de irremediavelmente poético e aconchegante nos dias  a saber a tangerinas, a nozes e a torradas com requeijão e marmelada, no friozinho cortante que nos atravessa a pele e chega até aos ossos, na mudança das roupas leves para roupas quentes e macias, ou nos dias demasiado curtos, de noites enormes, a reclamar bebidas quentes, corpos tapados e abraços embrulhados em ternura.
E eu, que às vezes corro demais e vivo de cronómetro pendurado ao peito, ou quase, páro de vez em quando para olhar as cores quentes do Outono ou a doce melancolia dos dias chuvosos, e para lhe sentir profundamente todos os cheiros.
Mas é no fundo dos olhos verdes da minha mãe que melhor aprendo o vagar dos dias.
 



sexta-feira, 7 de novembro de 2014

Retorno


Eu, que sou desde sempre uma apaixonada pelas palavras, pelo que elas significam e pela incomensurável distância a que ficam do que só se sente sem se conseguir dizer, sei bem que há emoções verdadeiramente difíceis de descrever, mas que também não podem calar-se, nem quando as palavras parecem ter fugido todas para muito longe, ou situar-se demasiado aquém da comoção que as antecede. Foi mais ou menos o que me aconteceu ontem.
Quem é professor há muito tempo, como eu, sabe que na escola, tal e qual como na vida, há quem  passe por nós sem deixar marca e quem por alguma razão se relembra sempre com agrado. Que há alunos verdadeiramente detestáveis, outros muitos queridos, e outros ainda com os quais é possível criar laços que perduram.
Ontem, fiz uma coisa que nunca tinha feito. Recebi na minha sala de aula uma dessas antigas alunas com quem nunca se perde o contacto, porque a empatia e a cumplicidade se mantêm, mesmo de outra maneira e passados mais ou menos dezassete anos.
A Ana Filipa Nunes, que hoje é jornalista, aceitou o meu desafio de ir conversar com os meus alunos de agora sobre alguns dos livros que a marcaram e sobre a sua vida profissional.
E o que o se passou naquela sala de aula durante noventa minutos foi para mim uma emoção totalmente inexprimível. A menina que eu conhecera outrora, que na época fizera parte das minhas equipas do jornal e da rádio da escola, estava outra vez na minha aula, mas a explicar aos que têm a idade que ela tinha então que ler é fundamental, o que pode haver de bom e de mau na profissão que escolheu, a importância de se gostar do que se faz e o trabalho que implica chegar onde queremos, a aceitação de maneiras de pensar e de sentir diferentes das nossas, e tantas outras coisas que ela entendeu dever dizer. Com a mesma paixão e entusiamo de antigamente, ampliados e modificados pela(s) experiência(s) que a vida lhe trouxe.
Enfim, esta foi uma tentativa de levar os meus alunos a entender  que ler pode ser bom e tornar-nos mais capazes e mais preparados para a vida. O primeiro round não podia ter corrido melhor. E foi quase  uma espécie de retribuição, que me faz acreditar que apesar de tanto trabalho a ver testes e de tanta hora gasta em muita coisa considerada inútil,  no fundo, se calhar, tudo isto vale a pena e faz sentido. O que vi e ouvi ontem fez-me sorrir de felicidade; e de orgulho também, um bocadinho.

quarta-feira, 5 de novembro de 2014

Pensamentos em cadeia

 
Hoje ao ler noutro blog um post de que gostei muito, lembrei-me de Vinícius e do seu magnífico "Soneto da Fidelidade". 
E esta é para mim, justamente, uma das coisas boas da blogosfera: tudo o que nos sugere e faz pensar, as memórias que evoca, o que desperta em nós, a descoberta de muita coisa nova e de outras maneiras de olhar o mundo e a vida.
Tenho amigos que continuam a não compreender muito bem que eu possa achar  isto interessante e que ainda me falam em "excessos de exposição" e nos "perigos do desconhecido," mas começam a desistir quando eu explico que, apesar do lado bom e mau que há em tudo, o que encontro por aqui todos os dias também me enriquece e me ajuda a viver melhor. 
(Fotografia de Paulo Abreu e Lima)
 

terça-feira, 4 de novembro de 2014

O livro do Camarneiro

 
Até há cerca de duas semanas, conhecia-lhe apenas o nome. Camarneiro, como Mouzinho, é um apelido pouco comum. Sabia que tinha sido o vencedor do Prémio Leya 2012, mas nunca me interessei muito por lê-lo. Na verdade, pode ser preconceito meu, mas não ligo nenhuma a este tipo de galardões, desconfio sempre de ascensões mais ou menos meteóricas e amplamente mediatizadas e irrita-me sobejamente o grupo Leya e a sua visão algo mercantilista da literatura. Admito, enfim, que em tudo isto possa haver um pouco de exagero meu.
Seja como for, por circunstâncias que não vêm ao caso, conheci o Nuno Camarneiro em carne e osso. E foi uma agradável surpresa. Gostei de o ouvir e de lhe conhecer o percurso mais ou menos sinuoso, de perceber que era inteligente, bem humorado e nada convencido. Fiquei cheia de vontade de o ler, para ver até que ponto o que escrevia era tão interessante como o que dizia. Apressei-me a comprar o livro. Tinha dois. Escolhi o que fora premiado.  Comecei há pouco tempo mas, até agora, não me desiludi. Gosto da sua escrita simples e clara, que nos prende às palavras e faz querer ler mais.
Hoje, sem mais nem menos, levei o livro comigo. E no final de um aula peguei nele e contei aos alunos isto tudo. Quem era Nuno Camarneiro, como o tinha conhecido e decidido começar a ler, como estava a gostar, apesar de ser ainda o início. Depois abri o livro e comecei a ler-lhes. Ouviram num imenso silêncio uma parte do capítulo chamado "a voz do narrador", que apresenta os diferentes moradores do mesmo prédio. No fim,  perguntaram-me onde é que eu tinha comprado o livro, quanto custava e saíram a dizer que parecia ser " bué da fixe".
E eu fiquei a pensar que estas coisas de ler e fazer ler são quase sempre muito mais simples do que às vezes imaginamos. Para quê complicar?
 
(...)
O prédio, como outros, tem sons e movimentos próprios de um organismo. Uma janela que bate, vozes que viajam pelos canos, o estalar de madeiras que se adaptam ao tempo, os talheres nos pratos à hora das refeições, os autoclismos, música que atravessa as paredes perdendo sons e ganhando outros, o motor do elevador cansado de carregar gente.
Quando o elevador se põe em movimento, há quem se agite com ele. (...)

segunda-feira, 3 de novembro de 2014

Amor(es) de sempre

 
Sou de amores resistentes e mais ou menos assolapados. O francês é, das línguas que conheço, a minha língua do coração. Não sei explicar muito bem porquê. Não apenas por ter sido a primeira língua estrangeira com que tive contacto. É por uma razão mais funda. Há nela uma sonoridade que me toca de um modo particular e que me faz considerá-la a mais bonita de todas, ao contrário da maior parte das pessoas que tem tendência a preferir o italiano, para mim demasiado adocicado.
Tenho a sensação de a saber desde sempre, se bem que isso não seja exactamente verdade. Mas aprendi-a ainda antes de a aprender, porque a minha irmã começou antes de mim. E eu gostava tanto de ouvir aquelas palavras estranhas, que me soavam bem mesmo sem lhes conhecer o significado, que me entretinha a decorar textos do livro dela, que começava, ainda me lembro: Pierre est à la porte de la sallle de classe. Il frappe. Il ouvre la porte... ou, mais adiante, de aprender a dizer isto sem fazer  a mínima ideia do que dizia, mas que nunca mais esqueci:
Demain, dès l'aube à l'heure où blanchit la campagne
je partirai. Vois -tu je sais que tu m'attends
j'irai para la forêt, j'irai para la montagne
Je ne puis demeurer loin de toi plus longtemps.
Isto, soube-o muito depois, é Victor Hugo, que eu não fazia a coisa por menos...
Já adolescente, por coincidência, ou talvez não, grande parte dos meus amigos andavam no Charles Lepierre. Nessa altura, convencidos de que haveríamos de mudar o mundo e com a cabeça e o coração cheios de sonhos e de utopias várias, conhecíamos e cantávamos com fervor todas as canções de Moustaki, de Brassens, de Reggiani, Ferré e companhia, que sabíamos de cor,  mas cujas letras eu insistia em escrever na minha letra pequena e redonda nos famosos  "cadernos de canções", forrados de tecido e religiosamente guardados, anos a fio.
Hoje, a língua francesa faz quase parte de mim, trato-a por tu, e vivemos na mais absoluta intimidade. Não é a minha língua, mas diria que sou capaz de pensar, rir, chorar ou emocionar-me em francês, por mais estranho que possa parecer.
Trago comigo outros amores assim, intemporais e da vida toda, alguns mais secretos que outros. E em momentos de excesso de sentimentos, seja tristeza ou alegria, não é raro pensar num poema, ou numa canção. Em francês, pois claro. Hoje, foi isto:
Venise n'est pas en Italie
Venise c'est chez n'importe qui 
C'est où tu vas
C'est où tu veux´
C'est l'endroit où tu es heureux
Venise n'est pas là où tu crois
Venise aujourd'hui c'est chez toi
Faites l'amour dans un grenier
Et foutez-vous des gondoliers...
 
(Fotografia de Maria Cristina Guerra)

domingo, 2 de novembro de 2014

Verso e reverso


 
Há lugares por onde apenas passamos e outros que ficam connosco para sempre, tal como há amores que marcam e que permanecem, que existem para lá de todas as palavras e de todos os silêncios, no olhar, no toque, na respiração, nas pausas, nas voltas do tempo e do caminho, como uma condenação que é também redentora, prazer e mágoa, desilusão e felicidade, desejo imoderado e incerto, proximidade e distância, princípio e fim.


sábado, 1 de novembro de 2014

À deriva...


Quando  alguém conta um dia ou uma vida está a calar quase tudo, as vidas são imensas e não se podem contar só por palavras. Haveria que inventar artes de encher silêncio e de descobrir nele o peso certo do que somos. O que se é só se pode encontrar no que não é dito (...)
 
Nuno Camarneiro

(Fotografia de Maria Cristina Guerra)