sábado, 31 de dezembro de 2016

Eu e a minha circunstância


Como toda a gente tenho defeitos e qualidades. Sou muito tolerante para as pessoas a quem quero bem e quase nada para as outras. Não sou muito dada a amuos, nem a ressentimentos, não sou capaz de fazer birra durante muito tempo e uma das minhas maiores fraquezas é a incapacidade de prolongar uma zanga com as pessoas de quem gosto e que me importam.
E sou de extremos: gosto muito, ou não gosto mesmo nada. Mas não guardo ódios nem inimizades e a quase totalidade das pessoas de quem não gosto é-me totalmente indiferente.
Neste ano, como em todos, algumas pessoas ficaram pelo caminho, mas só estão comigo as que têm que estar e o tempo ajuda a tornar a verdade mais óbvia e a fazer uma selecção natural: afasta o que não importa e aproxima o que e/ou quem prezávamos menos e, afinal, injustamente.
É que tenho um coração enorme, mas quem lá está ocupa um espaço muito grande e, por isso, não cabe toda a gente. E só fica quem merece. São os os que vêm para ficar, de quem eu gosto desmedidamente, e por quem sou capaz de tudo. São os que me ajudam a viver melhor, aqueles que me enchem a vida com mimos e cuidados e que, na sua singularidade toda especial, me fazem sentir feliz, me fazem falta, com quem gosto de estar, de falar e de partilhar a vida.
Mas às vezes, também me engano, acredito em quem não devo, deixo-me levar pelo que parece mais do que pelo que é. Mas quando isso acontece, e passada a desilusão momentânea, o caminho segue igual.
Enfim, que o novo ano me permita, também, continuar a seguir a minha intuição e a saber guardar os amigos verdadeiros coladinhos ao coração, para levar comigo vida fora. Porque os amigos são o meu bem mais precioso...

sexta-feira, 30 de dezembro de 2016

Fim de Ano


Foi muito peculiar o ano que agora termina. Foi um ano de muitas mudanças e de surpresas. Boas e más. Dir-se-ia que é sempre mais ou menos assim. E, no entanto, parece-me que desta vez foi diferente. E deixará marcas, daquelas que não se esquecem facilmente, que nunca se apagam...
Em todo o caso, feito o balanço de perdas e ganhos, acho que tenho que continuar a sentir-me abençoada e a não poder queixar-me. Que o mau e o bom me tenham servido para aprender, para me modificar, para crescer por dentro, continuando a ser quem sou. Mas agora já não vale a pena pensar muito nisso. 
Que venham os novos 365 dias, ainda como um buraco negro que atrai e assusta, como tudo o que é novo e não se sabe o que será. E que sejam bons para todos, incluindo os que não gostam de mim ou de quem eu não gosto, que não sou de desejar mal a ninguém. 
Que saibamos fazer de cada minuto, de cada hora, de cada dia, um tempo que valha a pena. Porque a vida é maravilhosa...BOM ANO!

(Aqui ficam os que foram, para mim, dois momentos marcantes de 2016, musicalmente falando: o emotivo reencontro de Chenoa e Bisbal e o desaparecimento de Leonard Cohen, um dos músicos da minha vida).


terça-feira, 27 de dezembro de 2016

Lógico

Num ano em que já haviam desaparecido Leonard Cohen, David Bowie e Prince, o Rui Rocha escreveu isto no "Delito de Opinião", a propósito da morte de George Michael no dia de Natal:
Em 2016 morreram muitos dos ícones da nossa adolescência. Mas isso é natural. À medida que envelhecemos, a probabilidade de as nossas referências desaparecerem vai aumentando. Podemos não querer encarar a realidade, "culpando" 2016. Mas se 2016 foi mau, 2017 e os seguintes serão piores. A vida é assim.
Nunca tinha pensado nisto desta maneira, mas na verdade faz sentido...

sexta-feira, 23 de dezembro de 2016

Dias de Natal


É o tempo dos bons propósitos e das bons intenções, doa afectos e dos abraços, da paz e do amor.  De fé, de pureza e de simplicidade. Ou devia ser assim. Apenas isto; sobretudo isto...
Para não fugir à regra, aqui ficam então os meus melhores votos para todos os que por aqui passam e se detêm, a quem deixo também estas duas canções que, sendo muito diferentes, estão para mim muito relacionadas com o Natal. E um grande  e terno abraço...

 

quarta-feira, 21 de dezembro de 2016

A três meses da Primavera


Mesmo eu, que sou do sol e da luz, consigo encontrar algum encanto na tristeza sombria do Inverno, que chegou hoje de mansinho, sem os rigores de outros anos, porque o Outono insiste em demorar-se  ainda por aqui.
Este é um tempo de silêncios e de recolhimento, de se virar para dentro e passar horas no sofá, à lareira, entre conversas calmas, contemplação, afagos e bebidas quentes, como uma longa noite que faz resplandecer o dia. E, daqui a nada, é Primavera outra vez...

domingo, 18 de dezembro de 2016

Éternité



Tardes de inverno e cinema são, para mim, uma excelente combinação. Se há um filme francês em cartaz, então, não há lugar para grandes hesitações. Tudo isto e Audrey Tatou, a eterna Amélie, levou-me a ver Éternité, traduzido como "Amor Eterno", uma co-produção franco-belga, de um realizador vietnamita que vive em França desde os treze anos, Tran Anh Hung, e de quem eu nunca ouvira falar, adaptação de um romance de Alice Ferney, L'élégance des veuves (1995), que conta também com as interpretações das lindíssimas Mélanie Laurent e Bérénice Bejo.
É um filme diferente, lento, belo, casto e requintado, a fazer lembrar os romances que líamos na adolescência, sobre a passagem do tempo e os ciclos de vida que se repetem de geração em geração. Centrado nas mulheres, conta-nos a história de vários membros de uma família francesa, do fim do século XIX aos dias de hoje, sob o olhar de Valentine (Audrey Tatou), que seguimos a vida toda, através de uma voz em off que vai fazendo a narração. Com diálogos quase inexistentes, o filme centra-se nos estados de alma mais do que nos acontecimentos, no silêncio mais do que na palavra.  É a vida que passa, inexorável, girando em volta do nascimento, amor e morte. Não é exactamente o que estamos habituados a ver; mas eu gostei...

quinta-feira, 15 de dezembro de 2016

Não ter a noção


Não posso deixar de achar graça diante da opinião mais ou menos generalizada de que dar aulas é uma actividade que não exige grande trabalho, nem sequer preparação prévia, sobretudo quando já se tem muita experiência. 
Assim, é comum ouvir-se coisas do género:"Mas ao fim destes anos todos ainda precisas de preparar aulas?", ditas até por pessoas com alguma formação e conhecimentos. É como se bastasse passar o tempo, ou "conversar" sobre um determinado assunto. Esta ideia costuma de resto andar associada a uma outra, que é já "um clássico": a de que os professores têm muito tempo livre e mais férias que o comum dos mortais. Ou que quando acabam as aulas, os professores ficam também "desocupados". Mas, enfim, há que ter paciência... É que a educação é um daqueles assuntos sobre os quais toda a gente acha que percebe muito e opina a torto e a direito sem ter a mínima noção do que diz.

domingo, 11 de dezembro de 2016

Um homem sem idade



Não está  entre os meus preferidos, mas não deixa de ser um dos nomes incontornáveis da Chanson Française de que eu tanto gosto, essa mistura perfeita de uma doce melodia com palavras fortes e sentidas. Falhei Brel, Brassens, Ferrat. E Piaf e Montand, claro, que já não fui a tempo de ouvir. Mas pude ver e ouvir ao vivo Reggiani, Moustaki (várias vezes) Ferré, Gréco...
Podia agora acrescentar  Aznavour à minha lista de concertos memoráveis e, ainda assim hesitei quase até ao último minuto, por motivos vários que incluíam o preço um pouco excessivo dos bilhetes. Depois, dada a provecta idade do cantor, achei que esta seria uma oportunidade única, talvez a última, e que não a devia perder. E fiz bem.
O mais impressionante de tudo foi a energia e a boa forma que se pode apresentar aos 92 anos. Quem vê quase não acredita. A voz pode não ser igual à de outrora, mas cantar durante cerca de duas horas e mostrar em palco uma energia que inclui uns passos de dança e muita garra não é para todos. Assim, assisti a um concerto de grande profissionalismo, que não se fica pela nostalgia do passado, mas mistura temas mais recentes com as canções "d'antan" e se projecta ainda no futuro, prometendo cantar em português na próxima visita.
Acompanhado por oito músicos, incluindo um "pianista clássico", foram, no entanto os momentos de piano e voz, pontuados aqui e ali pelo acordéon, tão "français", os mais intimistas e comoventes. Claro que não faltou nenhum dos êxitos esperados, de "hier encore", "she" ou  "emmenez-moi"  a mourir d'aimer" e a "la Bohème".
Durante o concerto não pude deixar de pensar que há de facto pessoas que parecem  não ter idade, ou relativamente às quais isso deixa de ter qualquer importância.
E, acima de tudo, fiquei cheia de vontade de voltar a Paris...

(Fotografias de Maria Cristina Guerra)

quinta-feira, 8 de dezembro de 2016

Madre del alma


Há dois anos, por estes dias, a minha vida mudou. Não gosto de recordar dias maus, mas é impossível esquecer aquele Domingo e os dias que se lhe seguiram, feitos de ansiedade e sofrimento. É sempre solitário o sofrimento. Sofre-se para dentro, em silêncio e solidão.
Nessa altura, como em todos os momentos bons e maus da minha vida, foi a Virgen del Rocío que me segurou nos seus braços e me levou pelo caminho, ensinando-me a aceitar a nova realidade e a aprender a vivê-la com a tranquilidade possível. É por isso que, por mais dolorosos que sejam estes dois anos em que vejo a minha mãe naquele mundo quieto e sem palavras que é agora o seu, lhe devolvo em  presença e amor e mimos tanto que ela sempre me deu, e me alegro por, apesar de tudo, a ter ainda do lado de cá da vida.
E nunca estou só, porque a Virgen del Rocío está sempre comigo. É ela que continua a ser o meu amparo e a minha força, enquanto canto para dentro "al Rocio yo quiero volver pa cantarle a la Virgen con fe, con un olé" e sonho e desejo "muy pronto" poder "volver a verla"...


quarta-feira, 7 de dezembro de 2016

O dia da Helena


Vilancete

Mote
Se Helena apartar 
Do campo seus olhos
Nascerão abrolhos

Voltas
A verdura amena,
Gado que pasceis,
Sabei que deveis
Aos olhos de Helena.
Os ventos serena,
Faz flores de abrolhos
O ar dos seus olhos

Faz serras floridas,
Faz claras as fontes:
Se isto faz nos montes,
Que fará nas vidas?
Trá-las suspendidas,
Como ervas em molhos,
Na luz dos seus olhos.

Os corações prende
Com graça inumana
De cada pestana
Uma alma lhe pende.
Amor se lhe rende 
E, posto em geolhos
Pasma nos seus olhos.

                            (Luís de Camões)

Era assim a Helena de Camões. A "minha" é igualmente fantástica: ou mais ainda...
Tê-la no grupo dos meus amigos é uma honra e um privilégio enormes. Gosto muito dela. E faz hoje anos, não importa quantos, que a Helena não tem idade. Aqui fica (mais) um grande beijinho de parabéns, porque os mimos nunca são demais.

(Fotografia de Isabel Santiago Henriques)

domingo, 4 de dezembro de 2016

Inevitabilidades da época


Chega Dezembro e é isto: por muito que se lhe queira escapar, o Natal impõe-se(nos), ainda que o seu sentido se esvazie mais e mais. Assim, cumpram-se os rituais com todas as obrigações sociais  e familiares que não podem evitar-se, enquanto se espera que tudo passe rápido e voltem os dias tranquilos. Porque os afectos que nos acompanham de facto, e nos norteiam a vida, estão connosco sempre, sem precisar dos dias festivos.

quarta-feira, 30 de novembro de 2016

Inactividade Forçada



Às vezes, quando corremos de um lado para o outro convencidos de que podemos tudo, é a vida que nos obriga a parar. Assim, mais ou menos à força, sem aviso prévio...
E então, o tempo por que tanto ansiáramos torna-se subitamente vazio, difícil de passar, como se as horas e os dias tivessem entrado em desaceleração total e a vida passasse para o modo de câmara lenta.
Não tem nada a ver com férias, em que se goza a euforia da inactividade e da lentidão, preenchendo o tempo de acordo com a vontade de cada momento.
Quando o tempo livre não é um luxo mas uma obrigação, aquilo por que se anseia é, por ironia do destino, o regresso dos horários e do ritmo mais veloz de uma existência "normal". Rotineira, até...
Resta o consolo de saber que há sempre situações bem mais difíceis e dramáticas, trautear baixinho "Desesperar jamais...", respirar fundo e continuar a acreditar que a vida é maravilhosa, mesmo se, por momentos, nos pode parecer que não.

terça-feira, 29 de novembro de 2016

Histórias de Lisboa (V)




Senhora do Monte


Foi, durante muito tempo, o meu lugar de eleição. Lá do alto, com a cidade a meus pés, olhei-a deslumbrada horas a fio e pude assistir muitas vezes ao cair da noite ou ao nascer do dia, vendo Lisboa a clarear ou a escurecer, transformando-se devagar em sons, cor e movimento, ou em repouso e quietude.
Ali, troquei beijos apaixonados, namorei ao luar, chorei a desilusão de amores breves que acreditara serem eternos, ou procurei refúgio para, em silêncio e solidão, de olhos perdidos no horizonte e pensamentos à solta, tomar decisões sérias, pensar na vida, sonhar.
Na verdade, há neste ponto alto do bairro da Graça, talvez até o mais alto da cidade, uma magia qualquer que faz dele um lugar meio feérico, quase irreal, suspenso no tempo e no espaço. 
Consta que foi este o local onde D. Afonso Henriques instalou o seu acampamento para conquistar a cidade. Na ermida de Nossa Senhora do Monte, fundada em 1147, dedicada a São Gens, um bispo mártir, encontra-se a cadeira de pedra que lhe terá pertencido e, segundo a lenda, se uma grávida se sentar nela terá um parto sem complicações. Mas, lendas e tradições à parte, é sobretudo a vista que nos seduz, por mais que a conheçamos. E, para mim, o Miradouro da Senhora do Monte será sempre muito mais que a melhor panorâmica de Lisboa. 
Hoje, quando regresso,  - agora que o visito bem menos amiúde -, não encontro já o sossego e o encanto de quando eu tinha vinte anos, pois tornou-se ponto turístico obrigatório, com alarido e euforia em excesso, e selfies garantidas. É quase como se aquele "meu" lugar fosse agora do mundo inteiro. E, no entanto, tem ainda qualquer coisa que me toca, me enternece e enfeitiça, que me faz espantar de tanta beleza, e gostar de ser daqui.

quinta-feira, 24 de novembro de 2016

60 anos: quem diria?


Luís Represas é muito mais que um amigo. É uma companhia de sempre, que, com a sua inconfundível e magnífica voz, fez do mundo um lugar ainda mais belo, me ensinou a entender o poder da música e me embalou quase todos os momentos de pura emoção, fosse ela feita de alegria ou de tristeza, de silêncios cúmplices ou de solidão e lágrimas magoadas, de amor ou de dor, de sonho ou de comoção...Por tudo isso e pelo que não sei dizer, gosto dele. Muito!...

quarta-feira, 23 de novembro de 2016

A tradição ainda é o que era



José da Câmara, que começa por ser um regalo para os olhos, comemorou no passado Sábado trinta anos de carreira, no belíssimo Teatro da Trindade.
Foi um concerto como uma noite de amigos, com todos os ingredientes com os quais sabíamos que podíamos contar: a voz grave, ligeiramente arrastada, que é a marca da família Câmara, o fado na sua vertente mais tradicional e mais aristocrata, as várias gerações presentes em palco, o que, pelas maravilhas que conseguem as novas tecnologias, incluiu até um dueto com o seu pai - Vicente da Câmara, recentemente desaparecido - , a evocação de quem já não está entre nós (Moniz Pereira, entre outros), o caminho percorrido ao longo de trinta anos, os fados incontornáveis, que cantámos juntos e de que "Cavalo Russo", "Lisboa à Noite"," Não venhas tarde", "É tão bom ser pequenino", "A Rosinha dos Limões" ou, naturalmente, a "Moda das Tranças Pretas" são apenas alguns exemplos.
Por mim, foi um espécie de regresso ao passado: revi amigos e emocionei-me com as lembranças dos "fados e guitarradas" de muitas noites bem passadas. Não se trata de saudosismo parvo, mas antes da doce nostalgia do que é sempre bom recordar.

terça-feira, 22 de novembro de 2016

Omar Sy superstar


É impossível, hoje, ver Omar Sy sem relembrar o seu inesquecível papel em Les Intouchables, de 2011, pelo qual, contracenando com François Cluzet, conseguiu a proeza de ser o primeiro actor negro a receber um César - o de "Melhor Actor",  em 2012.
Num registo totalmente diferente, podemos vê-lo de novo numa história empolgante, junto de James Thiérrée, nada menos que o neto de Charlie Chaplin.
Chocolat, de Roschdy Zem, é um filme inspirado na glória e decadência do primeiro artista negro do mundo do circo, em França, (Rafael Padilla, um ex-escravo cubano), e em particular do seu famoso duo com Georges Footit, o primeiro duo de palhaços da história circense.
Situado nos finais do século XIX, princípios do XX, o filme faz uma interessante reconstituição da época, mas também é verdade que perde ritmo, a certa altura, com pormenores que o tornam escusadamente longo.
Mas são notáveis as interpretações, quer de James Thiérrée (que eu nunca vira antes), quer de Omar Sy, que consegue fazer-nos rir e chorar e que, com o seu metro e noventa e o seu desarmante sorriso de menino, prova outra vez ser um dos mais carismáticos actores franceses da actualidade.

sábado, 19 de novembro de 2016

A inenarrável Linha Verde


Que os transportes de Lisboa estão cada vez piores parece-me mais ou menos consensual, pelo menos para quem, como eu, os frequenta diariamente.
O Metro, apesar dum rede excessivamente  reduzida (é incompreensível não haver Metro para as Amoreiras, para Campo de Ourique, ou para a Graça, por exemplo) tinha pelo menos a vantagem da sua rapidez.
Veio depois a pouca-vergonha das greves quase semanais que, ao contrário do que acontece noutras cidades evoluídas - Madrid, por exemplo - implicava o fecho integral do serviço durante dias inteiros.
Mas nunca o serviço do Metro foi tão mau como agora: todos os dias há pelo menos uma linha com "perturbações na circulação", o que significa atrasos imprevisíveis e incumprimento total de horários. Mas, para além da sujidade crescente das estações e carruagens, da degradação do espaço de forma geral, da ausência de funcionários em determinadas estações, dias ou horas, o que se passa na Linha Verde é o verdadeiro paradigma do péssimo serviço prestado a quem vive e/ou trabalha em Lisboa, para além do número crescente dos que nos visitam.
Como se explica, pois, que uma das linhas de maior movimento (Cais Sodré, com ligação ao comboio de Cascais - Telheiras), que cruza com a Linha que serve o Aeroporto e a Estação do Oriente, funcione sempre com as carruagens reduzidas a metade (três em vez de seis, como nas restantes linhas)?
Claro que isto significa a permanente sobrelotação das carruagens, cheias de gente literalmente "entalada" entre malas, visto que em cada estação entram pelo menos dez pessoas com bagagens. Um excelente cartão de visita, pois claro.
É por isso que podemos ter muitas manias de que somos europeus e civilizados, mas é, na verdade, no mais trivial que se verifica o nosso imenso e provavelmente incontornável atraso, que nos aproxima bem mais do Norte de África do que da Europa a que nos costumamos gabar de pertencer...
Assim não vamos lá...

quarta-feira, 16 de novembro de 2016

Ocho apellidos catalanes


Há cerca de dois anos vi uma comédia espanhola que me divertiu imenso e da qual falei aqui. Pois surgiu agora a sequela e não a quis perder, embora um pouco desconfiada, por considerar que nestes casos a continuação é quase sempre inferior à primeira versão.
O filme, que se chamava no original ocho apellidos vascos, segue com ocho apellidos catalanes e é a continuação da mesma história, com os mesmos protagonistas e mais dois ou três.
Inexplicavelmente, a tradução do título insiste no ridículo "Namoro à espanhola",  pondo mais a tónica na vertente de "história cor de rosa" - o romance entre Rafa e Amaya  - do que no que o filme é acima de tudo: um retrato/caricatura dos estereótipos sobre as diferentes regiões espanholas; e é isso que o torna simultaneamente popular e muito divertido.
Claro que nesta segunda parte se perde um pouco o  efeito surpresa da primeira, que foi, ao que julgo saber, o maior êxito de bilheteira de todos os tempos em Espanha. Mas, além de interpretações dignas de nota, com destaque para Rafa (Dani Rovira) e Koldo (Karra Elejalde), este é um filme que nos faz soltar umas boas gargalhadas e que dispõe bem. 
Pode não ser um excelente filme - e não é! - mas para mim, pelo menos, que sou amante da cultura espanhola e a conheço bem, foi uma boa opção para duas horas de riso e do mais puro entretenimento. E rir é sempre tão bom...

domingo, 13 de novembro de 2016

sábado, 12 de novembro de 2016

Leonard Cohen: leaning out for love


Leonard Cohen, com Moustaki, com Simon e Garfunkel, foi quem embalou a minha mais remota adolescência e continuou a acompanhar-me para além dela. Naquele tempo, sozinhos ou em grupo, acreditávamos que poderíamos mudar o mundo e cantávamos com fervor Suzanne ou So long Marianne, com o coração aos saltos e a cabeça a rebentar de sonhos, de projectos de felicidade, de utopias.
Depois, foi o tempo de dançar "to the end of love" vivendo os risos e as lágrimas de amores felizes e infelizes. Fui vê-lo e ouvi-lo ao vivo, em Cascais, há uns trinta anos, talvez, num pavilhão que já nem existe.
E, para onde quer que fosse, para lá de todas as circunstâncias, havia sempre aquela voz rouca e pausada, aquela melancolia que era também sentimento, e ironia, e emoção, a acompanhar-me os dias.
Quando vemos desaparecer os que amamos parece-nos que o mundo se desmorona à nossa volta. Fica-nos o desamparo da sua ausência e a estranha sensação de que a vida nos vai empurrando para a frente e que, também para nós, o fim se vai aproximando.
A um amigo que se vai embora, o que se diz? Na impossibilidade de encontrar as palavras certas, peço emprestadas as de Miguel Esteves Cardoso, que é capaz de dizer melhor que eu o que também sinto:
(...) Deixaste-nos. Avisaste muitas vezes que nos ias deixar. Deixar tornou-se a tua especialidade. Ninguém se despedia tão bem como tu. Ninguém dava à sola tão depressa como tu, tão bem vestido, com sapatos feitos para percorrer as grandes distâncias do amor e da vida. (...) Uma pessoa tem de morrer. E até a morrer foste um senhor. Pouco antes de morrer - sabemos agora . percorreste o mundo para cantar as tuas canções a quem quisesse ver-te e cantá-las. E melhor do que em qualquer outra altura da tua vida. Tu foste daqueles que melhoram à medida que se aproximam da morte. Aproximaste-te devagarinho, sem ser a medo, como se a morte fosse a última mulher. Cantaste-lhe a canção do bandido - nunca ninguém será capaz de cantá-la melhor que tu - a ver se ela ia na tua cantiga. Deitaste-te com ela na esperança que ela te esquecesse. And yet, e no entanto (aqui sinto-te a sorrir) ela deu cabo de ti à mesma.
Toda a vida dançaste com Deus e com a morte - às vezes eram mulheres, outras vezes professores - e algumas dessas vezes acabaram como canções, divinas de amor e de vida, escritas por  quem conheceu a alegria e a tristeza de amar e viver e viver e amar.
Morreste, Leonard Cohen, e no entanto, continuas vivíssimo para quem já morreu. Hoje de manhã, quando ouvi You want it darker, como faço todas as manhãs desde que saiu o álbum, pensei que ia chorar, por ser a primeira vez que o ouvi sabendo que estavas morto. Mas não chorei. As canções fizeram o que sempre fizeram: encheram-me de força, abriram-me ao medo e à beleza de estar vivo. 

 

sexta-feira, 11 de novembro de 2016

Do prazer


É também necessário que te diga um pouco dos meus gostos e carácter, na medida em que eu próprio os possa conhecer. Sou grande fumador, bom caçador, apaixonado pela música (...) Peço-te no entanto que não me impeças de fumar, é o único vício ao qual me apeguei seriamente. Quando se esteve no mar, quando se viu a morte defronte dos olhos, quando acreditamos que não voltaremos a ver os nossos, o charuto faz a vez de amigo e companheiro, fazendo voar os pensamentos tristes, como o fumo se agita ao vento.

(D. Luís I para D. Maria Pia, a 23 de Agosto de 1862, numa das cartas de noivado)


Mesmo sem nunca ter tido o vício do tabaco, e para lá do seu aspecto mais nocivo e malsão, até pelo que implica de dependência, entendo que há pequenos prazeres que podem fazer toda a diferença:  o primeiro café do dia, o vento no cabelo, uma conversa entre amigos, uma sesta no sofá, o regresso a um lugar de que se gosta, um olhar cúmplice, um beijo apaixonado... e tantas outras coisas que tornam a vida maravilhosa e permitem reinventá-la como se recomeçasse a cada instante, no conforto do que se conhece e na surpresa sempre renovada do que está por vir. 

quinta-feira, 10 de novembro de 2016

Um beijo é um beijo é um beijo


E quase nada sabe melhor...

(...)  a dependência é uma besta 
que dá cabo do desejo
e a liberdade é uma maluca 
que sabe quanto vale um beijo

domingo, 6 de novembro de 2016

Nostalgia


¿De qué se nutre la nostalgia?
Uno evoca dulzuras
cielos atormentados
tormentas celestiales
escándalos sin ruido
paciencias estiradas
árboles en el viento
oprobios prescindibles
bellezas del mercado
cánticos y alborotos
lloviznas como pena
escopetas de sueño
perdones bien ganados
pero con esos mínimos
no se arma la nostalgia
son meros simulacros
la válida la única
nostalgia es de tu piel.

                                Mario Benedetti

(Fotografia do blogue À Esquina da Tecla)

quinta-feira, 3 de novembro de 2016

Cumplicidade(s)


É bom ter na nossa vida quem a conheça inteira e nos segure a mão nem que seja com os olhos, e nos faça sentir, mesmo sem o dizer, que podemos contar com um abraço, um ombro, um sorriso, em momentos de alegria, de felicidade, ou de tristeza, ou de aflição.

terça-feira, 1 de novembro de 2016

Escondidos


Estas são as imagens do momento: o emotivo reencontro de Chenoa e David Bisbal, ontem, no Palau Sant Jordi de Barcelona, pouco depois da meia-noite, quinze anos depois.
Será provavelmente por termos acompanhado de perto o início, em 2001, ainda na Academía de Operacióm Triunfo 1, e o fim, três anos e tal depois, desta história de amor que é no fundo igual a tantas outras, e às nossas, também, que ela nos toca tanto.
A canção Escondidos ficará para sempre colada a este amor (e desamor), quase uma espécie de hino. Por isso, ontem, era o momento mais esperado e foi o mais alto e comovente de uma noite de sentimentos ao rubro e de emoções à flor da pele.
Agora, seguem-se as especulações do costume - que si le hizo David "la cobra" a Chenoa - que alimentarão sem dúvida as emissões e revistas do costume durante semanas, para além das redes sociais, como aconteceu no minuto imediato.
Para mim, o que destaco deste esperado reencontro é o que houve nele de mais bonito: cumplicidade, nostalgia, nervosismo, carinho e mais que tudo amor, seja ele passado, presente, futuro, ou tudo junto, que isso pouco nos deve importar.
E afinal, cada um de nós terá certamente um momento qualquer da sua vida, ou vários,  em que também sentiu o tempo parar e o mundo estreitar-se en un rincón, soltando o desejo na força de um súbito abraço apertado, agarrados ao corpo e ao coração um do outro enquanto o mundo lá fora continua a girar sem que nos demos conta, e relativamente ao qual poderia de igual modo trautear esta canção, que hoje não parou de soar na minha cabeça:

Escondidos, solos por amor
La oscura habitación
Tu cuerpo mio, el tiempo de un reloj
Escondidos, solos tú y yo
Atrapados sin poder salir 
Del interior, de tu interior
Mientras que hacemos el amor

sábado, 29 de outubro de 2016

Paixões


Ó sino da minha aldeia
Dolente na tarde calma
Cada tua badalada
Soa dentro da minha alma

É inevitável. Há uma magia qualquer em cada ida à Baixa, que me traz sempre de volta uma parte da minha infância. Lisboa é - será sempre - uma das minhas grandes paixões...

sexta-feira, 28 de outubro de 2016

Histórias de Lisboa (IV)


Rua Passos Manuel


Na rua de baixo cabe o mundo inteiro. Há o Jardim Constantino e o restaurante "Vaskus", de portas vermelhas e toalhas de quadrados, que já existe há pelo menos trinta anos. E continua quase igual. Esta é, sem dúvida, uma rua singular, onde encontramos de tudo um pouco: a loja de artigos ortopédicos e a sexshop, a Igreja Evangélica ao lado da Livraria "Assírio e Alvim", a mercearia antiga e o cabeleireiro "Pura Vaidade", o VivaFit mesmo antes  do alfaiate, o "Mundo dos pneus" e a papelaria, o Hotel e o Externato, a Boulangerie Costes em frente do atendimento social da Junta de Freguesia de Arroios, a Farmácia, a venda de velharias e a loja de artigos eléctricos, entre tantos outros pequenos comércios de bairro.
Na rua Passos Manuel misturam-se as línguas, as raças e as nacionalidades numa coexistência pacífica que é o paradigma da nova Lisboa, moderna e antiga, bairrista e cosmopolita, retrógrada e arrojada, caótica e encantadora, cheia de luz, de vozes e de vida. Mas é também esta miscelânea que faz de Lisboa uma das mais fascinantes cidades que conheço, que me seduz e apaixona todos os dias.

domingo, 23 de outubro de 2016

Café Society



Depois de Almodóvar, Woody Allen. Finalmente bons filmes em cartaz. Sou suspeita. Gosto destes realizadores de uma forma mais ou menos incondicional. Café Society poderá não ser um dos filmes maiores deste conceituado realizador, mas é sem dúvida uma história bem contada e que, justamente por isso, nos deslumbra.
Há depois duas coisas que Woody Allen sabe fazer na perfeição: escolher os actores e a música. Quanto mais não fosse pelo ambiente de jazz que é pano de fundo e quase imagem de marca na maior parte dos seus filmes já valeria a pena vê-los. Mas não é apenas isso. Aqui há Jesse Eisenberg e Kristen Stewart a conferir veracidade e encanto a uma história onde se ligam na perfeição o humor e a melancolia, há o glamour dos anos 30 em Hollywood e uma história que gira em torna de ambição e sentimento, onde não faltam todos os ingredientes tipicamente "Allenianos": os gags humorísticos, as situações inesperadas, os sentimentos amargos, belíssimas imagens...
É de filmes sobre sentimentos que eu mais gosto. Afinal, não é o que há de melhor na vida?

sexta-feira, 21 de outubro de 2016

Luz de Lisboa


Quando Lisboa escurece
E devagar adormece
Acorda a luz que me guia
Olho a cidade e parece
Que é de tarde que amanhece
Que em Lisboa é sempre dia

terça-feira, 18 de outubro de 2016

15 anos depois - el reencuentro


Quem me conhece bem sabe como eu gosto de Espanha, a ponto de ser a TVE o canal de televisão que mais sigo. Em 2001, eu tinha acabado de me apaixonar pelo flamenco e vivia ainda com mais fervor e intensidade aquela garra que vinha do outro lado da fronteira e que tanto me tocava, que me continua a tocar, que é coração, sangue e alma, euforia e emoção transbordante.
Havia, por aquel entonces, um programa que prendia todos os espanhóis ao écran - e eu com eles. Era o tempo da Operación Triunfo, na sua primeira edição (OT1), um programa que revolucionou a televisão e a música espanholas e teve, por isso, um sucesso inigualável e difícil de explicar. Era a excelência das vozes, mas era também um bom leque de professores, o bom gosto na escolha variada do repertório, das coreografias, e era um grupo carismático de jovens simples e ilusionados, dando o melhor de si mesmos para conseguir chegar o mais longe possível o que tanto nos atraía e encantava. 
Eu sou insuspeita. Não costumo ter a mínima paciência para concursos de talentos, sejam de música ou de cozinha, e acho que não exagero se disser que este foi o único que acompanhei do princípio ao fim. Porque era diferente. Porque me parecia absolutamente genuíno e tinha tudo o que um programa de entretenimento tem que ter. 
Por isso, também me surpreendi com o potencial vocal de Rosa ou com a vivacidade e energia de Bustamante; acompanhei a história de amor de Bisbal e Chenoa, que nasceu diante do nossos olhos e quase nos apercebemos dela antes deles próprios - é inesquecível o vídeo dos ensaios de "Escondidos"; diverti-me com as aulas de interpretação de Ángel, enterneci-me com a doçura maternal de Nina e admirei as coreografias de Poty; arrepiei-me com certas interpretações que ficaram para a história, conheci canções que até aí desconhecia.
Quando o concurso acabou, em Fevereiro de 2002, houve ainda a participação de Rosa na Eurovisão, que eu já não acompanhei, porque isso é que não faz de todo o meu género, e depois cada um seguiu o seu caminho e apenas dos mais mediáticos fui sabendo alguma coisa pelas revistas e pela televisão.
Mas, quinze anos depois, a TVE decidiu promover o reencontro daquele grupo inicial em três programas dos quais passou este Domingo o primeiro e um concerto ao vivo, no dia 31, em Barcelona. 
Passado este tempo, já não são os mesmos meninos de vinte anos de outrora, são adultos com um percurso feito e amadurecidos pela vida. E foi outra vez um fenómeno de audiências, um enorme sucesso. Por mim, voltei a emocionar-me quase como há quinze anos. E não me interessa nada se Bisbal foi mais frio ou mais caloroso com Chenoa e outras coisas que se disseram. O que eu vi ali foi aquele magnetismo de antes, de quem gosta de música e é capaz de passar para o lado de cá o que sente quando canta.
Talvez fosse bom que a televisão portuguesa, onde quase só passam novelas e debates de politica e de futebol, pudesse aprender alguma coisa com os vizinhos aqui do lado.


sexta-feira, 14 de outubro de 2016

O raio do Nobel


Nunca fui muito nesta conversa do prémio Nobel, que sempre me pareceu obedecer a critérios mais ou menos obscuros e duvidosos. Mas disso já aqui falei.
Não queria, pois, falar do assunto. Mas não resisto. Faço parte do grupo dos que consideram a atribuição do Nobel da Literatura a Bob Dylan um perfeito disparate, para não dizer pior. E não por não lhe reconhecer importância. Também ouvi e cantei, na adolescência, as suas canções. Acho que teve o reconhecimento que merecia, antes e depois. Chamar-lhe "literatura" é que já me parece um excesso.
No meio da polémica criada, não posso deixar de destacar o melhor texto que encontrei até agora e com o qual não posso estar mais de acordo. E sou insuspeita. O "Escrever é triste" é um blogue que raramente leio e com que pouco me identifico, porque me parece sempre demasiado "armado ao intelectual"  - para o meu gosto - e não tenho grande paciência para o género. Mas, como em tudo, há excepções. E, por isso, acho que vale a pena ler o texto de Manuel S. Fonseca intitulado "Em defesa de Bob Dylan" e do qual transcrevo apenas alguns excertos. Diz, por exemplo, isto:

(...) Bob Dylan é grande por ter sido transgressor, profeta assimétrico, rebelde contra os conservadores, rebelde outra vez contra os iconoclastas de feira, mas sobretudo por ter marcado a música popular do século XX. Usou para isso palavras e escreveu-as, à mão, à máquina, para aí num Remington de escritor. Ultimamente num laptop, quem sabe. Mas as grandes e maravilhosas palavras que escreveu, escreveu-as para uma arquitectura que envolve sons, para uma construção a que chamamos música.  Soprou palavras e as palavras mudaram um tempo. Em cima de um palco incendiou um tempo. Não dentro de um livro.
Eu bem sei que, hoje, a um homem já não se chama um homem, a uma mulher já não se chama uma mulher, a nada se chama nada, porque a tudo se chama tudo. Confundem-se as estradas. Mas Bob Dylan caminhou tanto na mesma estrada que merece que dela se diga o nome. A enigmática estrada da Literatura não foi a estrada de Dylan. Porque há uma estrada da Literatura: faz-se escrevendo para o papel, para a publicação em páginas, para a emergência das palavras numa folha de papel, criando tessituras dramáticas que só existem nessa forma autónoma e só nessa forma específica, de papel e letras, geram o mistério de um inexplicável tumulto emocional. Alfabeto e lábios imóveis, um par de nervosos olhos que lê, são essas as loucas ferramentas dessa nação. A Literatura é uma imensa montanha com 25 séculos e tem uma tradição – ó raio de palavra que me saíste descomandada e ainda me vais perder!
A arte de Dylan é feita de som, com fúria ou sem fúria. A arte pela qual lhe deram, hoje, o Nobel é feita do silêncio íntimo de uma página de papel. Mesmo os silêncios da música de Dylan, na tradição de todos os silêncios da música, são distintos do silêncio da palavra cativa do papel. E é essa diferença entre os silêncios que faz a grandiosidade da tradição de tantas artes. São diferentes, mas se as chamarmos pelo nome, elas vêm. Procuram o mesmo instante, têm a mesma aspiração de sublime ou de caos, uma danada vontade de beleza, destruição e eternidade, mas são diferentes: uma, a Música; outra, a Literatura; outra, a Pintura. Cada uma com o seu silêncio, nem o silêncio da Arquitectura rima com os silêncios das outras.

quarta-feira, 12 de outubro de 2016

Julieta


Almodovar é um dos raros realizadores (como Woody Allen) de quem vejo quase tudo, independentemente de  considerar, depois, que o filme é melhor ou pior, que me agrada muito, ou nem por isso. É de Almodovar um dos melhores filmes que vi, Habla con ella (2002), para mim a sua obra maior. 
Julieta é um drama, com a tristeza e a complexidade que têm muitas vezes as relações humanas e a própria vida. Mas o que faz a singularidade e a supremacia de um grande escritor, como de um grande realizador,  é essa capacidade de nos prender do primeiro ao último minuto a uma história que em si mesma pode ser entendida como trivial. E de, ainda assim, nos tocar. Porque é essa, também, a sua força. Claro que, neste caso, há excelentes interpretações, sobretudo as de Emma Suárez e Adriana Ugarte. Há silêncios, mistério e surpresa. Há a culpa, a separação, o sofrimento e a ternura. Há a Galiza e a Andaluzia, o mar e a terra. 
Baseado em três contos de Alice Munro, que não li, é assim, fascinante na sua inteligente simplicidade, o vigésimo filme de Pedro Almodovar; e é, talvez, juntamente com The room, um dos melhores que vi e mais me marcou neste ano. 
Há muito tempo que não ia ao cinema. Não por falta de vontade, nem de tempo, mas por circunstâncias daquelas que às vezes nos surpreendem e ultrapassam, e nos obrigam a pôr a vida de todos os dias entre parênteses por uns tempos. Que tenha voltado hoje, dia da festa nacional de Espanha, para ver este fantástico filme espanhol foi uma curiosa coincidência, de que só me apercebi no final. E fez-me também ter a certeza de que preciso de regressar  a esse país de que tanto gosto, onde já não vou há quase um ano e do qual tenho muitas saudades.

terça-feira, 11 de outubro de 2016

Agora sim...


Hoje, já se pode dizer que o Outono está aqui. E é tão boa a chegada das primeiras chuvas, o cheiro da terra molhada, as noites cada vez mais longas, a pressa de voltar ao aconchego e conforto da casa, a cidade pintada de tons vermelhos e dourados, o cheiro das castanhas e tudo o que anuncia uma nova estação...

sexta-feira, 23 de setembro de 2016

Interrupção


Motivos de "força maior" obrigam-me a interromper temporariamente a aventura "bloguística".
É caso para dizer, como se ouvia quando era miúda: "Pedimos desculpa por esta interrupção".
Espero poder regressar em breve, renovada e cheia de força. Até já!...

terça-feira, 13 de setembro de 2016

Os espectáculos da rentrée



Na semana passada assisti, em dias seguidos, a dois espectáculos. Muito diferentes no género e também no impacto que tiveram em mim. Um de música e outro de dança. Um de um cantor consagrado, que já vi muitas vezes; o outro de um artista controverso e premiadíssimo, de quem ouvira falar, mas que ainda nunca tinha podido ver ao vivo.
Caetano Veloso é, juntamente com Simone, um dos cantores brasileiros de quem vi mais concertos. O último tinha sido já há anos; e, por isso, a ocasião parecia-me imperdível, apesar do preço um pouco exagerado dos bilhetes. Era tudo como eu gosto: um concerto intimista, só com "voz e violão", no Coliseu, que é para mim a mais encantadora das salas de espectáculo de Lisboa, não apenas pelas memórias de muitas noites bem passadas, mas também pelo toque da magia da sua forma circular, que a torna mais especial e aconchegante.
O cartaz anunciava uma primeira parte com uma tal Teresa Cristina, que ninguém conhecia, mas não parecia constituir problema. Não estávamos, no entanto, preparados para assistir a um concerto de Teresa Cristina, com a participação de Caetano, que foi no fundo o que aconteceu.
Ela é sem dúvida dona de uma bonita voz e cantou essencialmente canções de Cartola, um antigo compositor e cantor brasileiro. Mas meia hora teria chegado, até porque ao fim da quarta ou quinta canção o registo era sempre igual. Foram muitas. E depois lá veio Caetano, igual a si mesmo. Com os êxitos esperados, onde apenas faltaram "Terra", "Sampa", "Menino do Rio" e "Alegria, alegria". A voz continua a de sempre, como se o tempo não passasse por ela; e viajar através dela por aquelas canções que sabemos de cor é deixar-se levar para um universo de sonho e de emoção.
Mas foi só uma horita, talvez nem tanto. Deu o espectáculo por encerrado e voltou ao palco com a dita Teresa Cristina pela mão, que cantou durante mais quarenta e cinco minutos, pontuados aqui e ali por um coro com Caetano. No fim, ficou a sensação de termos sido de certo modo ludibriados. Não havia necessidade...
Já o espectáculo de Israel Galván foi uma experiência única. Avassaladora. Um daqueles raros espectáculos que mexem connosco e modificam alguma coisa em nós. Pelo que há neles original e de surpreendente. Mesmo para mim, que já vi muito flamenco. E que achava que, tendo visto Rocío Molina, na sua imensa genialidade, já tinha visto tudo. Afinal não. Faltava isto. O espectáculo, chamado "fla.co.men" diz logo no nome uma parte do que é, pois ao fazer este jogo com a palavra "flamenco", vai desconstrui-lo e recriá-lo na mais absoluta liberdade.
Pena que a sala do CCB estivesse apenas a metade. Mas quem lá esteve saiu de alma cheia e com uma visão diferente do flamenco e até, se calhar, da vida. Assim, sim...


segunda-feira, 12 de setembro de 2016

Still the best


Dizia-me há dias alguém que é de uma área política totalmente distinta, senão mesmo oposta à sua (que é também a minha), que Paulo Portas é de uma inteligência e de uma cultura inigualáveis e, por isso mesmo, é sempre um gosto ouvi-lo, até porque não há ninguém em Portugal que fale com maior correcção linguística e clareza, o que faz de qualquer discurso seu uma espécie de "tratado de retórica". E, também, que uma pessoa assim tem que ter sido educada por alguém verdadeiramente extraordinário  - minha querida Helena Sacadura Cabral.
A opinião não é minha, mas eu subscrevo-a na íntegra. E, se é verdade que agora que se afastou da política se fala menos dele, eu sei que "está bem e recomenda-se" e não me esqueço que este é um dia especial, porque celebra 54 anos.
Parabéns, Paulo!

(Fotografia de Isabel Santiago Henriques)

sábado, 10 de setembro de 2016

Mulheres ao volante


De uma maneira geral, as mulheres, quase todas, tornam-se insuportáveis quando se trata de conduzir. Convencidas de que são "o máximo" ao volante, aceleram como se estivessem sempre numa qualquer situação de urgência e nunca deixam passar ninguém na passadeira. Enfim, raramente...
Nisto, como em tudo, há excepções, é claro, e eu nem gosto de generalizar assim, mas de facto o que observo é que, à semelhança do que acontece com os professores de Educação Física, noutro domínio, parece que um complexo oculto as faz ter necessidade de provar alguma coisa a alguém e talvez, em primeiro lugar, a elas próprias...

terça-feira, 6 de setembro de 2016

Histórias de Lisboa (III)


Avenidas Novas

O bairro onde vivi os primeiros vinte anos da minha vida é, inexplicavelmente, um lugar por onde nunca passo sem ter a sensação de estar "em casa", mesmo quando na minha cabeça ecoam às vezes velhas canções: ( quand au hasard des jours/ je m'en vais faire un tour/ à mon ancienne adresse/ je ne reconnais plus/ ni les murs, ni les rues/ qui ont vu ma jeunesse). 
É verdade que o bairro é hoje muito diferente do que era naquele tempo, mais incaracterístico, talvez, muitos serviços e um pouco menos de alma. O nosso prédio, de azulejos verdes e brancos, foi substituído por um moderno edifício de vidro e ferro e a muitos outros aconteceram coisas semelhantes. Os cafés e as lojas já não são os mesmos, o padeiro e o leiteiro já não vêm de porta em porta, nem há eléctricos a passar dia e noite; já não há o Val do Rio, nem a drogaria, nem a sapataria na esquina, ou o Alberto confecções.
Hoje, a loja das tintas, na esquina com a Duque d'Ávila, é a Livraria Pó dos Livros e a pastelaria Colombo, na Avenida da República, transformou-se em Mcdonald's.
E, no entanto, apesar de toda estas mudanças que são um natural sinal dos tempos, há no meu antigo bairro pequenos detalhes que parecem tê-lo mantido de certo modo imune à passagem do tempo. Lá continua sempre igual a Versailles, até há pouco lugar obrigatório dos lanches de Domingo com a minha mãe, apesar de nem eu nem ela vivermos na zona, como se mantém igual o Colégio Académico (a "escola dos alunos burros", dizia-se na época), ou a Charcutaria Dava, mesmo ao lado da Pérola do Chaimite, com aquele magnífico cheiro a café, que continuam exactamente iguais ao que eram e são agora as únicas reminiscências de um tempo que  não volta.
Entretanto passei por outros lugares, gostei de uns mais do que de outros e, aos poucos, começo a afeiçoar-me também ao meu novo bairro, que não fica muito longe. Mas este será sempre um lugar que sinto como meu, que me pertence, a que pertenço.

sexta-feira, 2 de setembro de 2016

Humor inteligente


Na linha de Les Intouchables ou Les Petits Mouchoirs, Retour chez ma Mère, inexplicavelmente traduzido por "Isto só a mim", é um daqueles deliciosos filmes franceses que nos diverte e deixa de bom humor, sem recorrer a alarvidades parvas, ou conneries, para estar mais no espírito.
A história, simultaneamente banal e plena de actualidade, centra-se no regresso de Stéphanie (Alexandra Lamy) à casa materna por, aos quarenta anos, ter ficado sem emprego e sem dinheiro, com tudo o que isso implica de (re)adaptação e de tensão latente.
É uma comédia, claro que sim, mas aborda também a complexidade das relações familiares em toda a sua ambiguidade e, apesar de um final talvez demasiado cor de rosa, fá-lo com ternura, com inteligência e com delicadeza. Josiane Balasko é excelente no papel da matriarca e é a ela que se devem as mais divertidas situações.
Enfim, não é um grande filme, não se trata de uma obra-prima, naturalmente, mas cumpre aquilo que o cinema deve ser e que se consegue sem grandes efeitos especiais: contar uma boa história, bem interpretada, com ritmo, e deixar-nos a sensação de leveza de quem passou um bom momento.
E para quem tem a ideia de que o cinema francês é muito "intelectual", aqui está uma vez mais a prova da sua imensa diversidade. É por isso, pela língua que tanto gosto de ouvir, e por muitas outras razões, que gosto tanto dele.

terça-feira, 30 de agosto de 2016

Na hora do regresso


Contrariamente à maior parte das pessoas, não sofro da nostalgia do fim de férias, nem sequer do síndroma da segunda-feira. Sabe-me bem o descanso, mas nunca me custa recomeçar. Algum tempo depois apetece-me então parar de novo, quebrar o ritmo acelerado e a rotina diária, espairecer, arejar.
E quando chega Setembro, encontro sempre uma magia qualquer na ideia de tudo ser outra vez igual e ao mesmo tempo diferente, um encantamento pueril nos novos cadernos e nas canetas por estrear, no cheiro dos livros, na expectativa do que está por vir, tudo docemente embrulhado em tons poéticos de Outono. Já é tempo de rentrée...