segunda-feira, 17 de julho de 2017

Diferenças


Em Paris não se chega a esperar cinco minutos por um transporte público. As pessoas não andam todas agarradas aos telemóveis, alheias ao que se passa à sua volta. No metro, por exemplo, há muita gente a ler, ou simplesmente a olhar, sem fazer nada. Não há cães à solta, nem gente a passear cães por todo o lado, nem cócó de cão nos passeios e nos jardins. Há quem ande de bicicleta, claro, mas não há a paranóia das ciclovias.
Serão estas e tantas outras diferenças que distinguem o mundo civilizado do nosso. E será não apenas por causa de tudo isto, mas também por coisas destas que eu gosto tanto desta cidade.

domingo, 9 de julho de 2017

Paris sera toujours Paris



Le soleil qui se lève 
Et caresse les toits
Et c'est Paris le jour
La Seine qui se promène 
Et me guide du doigt
Et c'est Paris toujours
Et mon coeur qui s'arrête
Sur ton coeur qui sourit
Et c'est Paris bonjour
Et ta main dans ma main 
Qui me dit déjà oui
Et c'est Paris l'amour
(...)
Loin des yeux loin du coeur
Chassée du paradis
Et c'est Paris chagrin
(...)
Et toi qui m'attends là
Et tout qui recommence
Et c'est Paris je reviens

                            (Jacques Brel)


De tempos a tempos é isto: uma saudade enorme e a vontade permanente de voltar. Depois, deixar-me encantar de novo, como se fosse a primeira vez, com a luz do entardecer no Luxembourg, com a vista de Montmartre, os passeios no Quartier Latin, ou a doce tranquilidade da Place des Vosges; e com os telhados e o rio, os cafés e as praças, com o ritmo próprio da cidade, que mistura, com requinte e sabedoria, arte e cultura, boémia e sossego, raffinement e charme. E com a língua, essa língua que é para mim a mais bonita do mundo...

segunda-feira, 3 de julho de 2017

Um músico fora do comum


Quem me conhece sabe como eu gosto de bons concertos e como, ao longo dos anos, me têm empolgado, ao vivo, tantos músicos de que gosto há muito, ou outros que o tempo e a vida me vão revelando.
Salvador Sobral é a  minha mais recente "paixão" e, desde que o descobri, vivo em estado de puro encantamento. Porque ele é muito mais que um músico excepcional, dono de uma linda e límpida voz, ou um intérprete de excelência. É alguém que tem qualquer coisa extraordinária, que acrescenta alguma coisa e que toca as pessoas (daí o sucesso que o levou à vitória na Eurovisão). É alguém que sente tão profundamente a música, que se entrega tanto, que a sua emoção nos atravessa a pele e o corpo e se aloja no mais profundo de nós.
Ouvi-lo é ouvir sempre uma versão diferente de cada canção, viajar com ele pelas melodias e pelo que ele lhes faz, e perceber que a arte tem essa capacidade maravilhosa de nos chegar à alma.
Ver e ouvir Salvador Sobral é, a cada vez, novo e diferente, mas ao vivo é melhor ainda. É sentir o privilégio de fazer parte daquele momento; é arrepiar-se, chorar, rir, calar-se e, em silêncio, escutar; é perceber que um espectáculo não é apenas reproduzir um disco, é soltar os sentimentos e deixar que as canções fluam, e sejam atravessadas por outras; é risco e improviso; é um extraordinário trabalho de conjunto (Júlio Resende, André Rosinha e Bruno Pedroso contribuíram também em grande medida para a magia do que se viveu esta noite no CCB).
E como se tudo isto não bastasse, há ainda a simplicidade de Salvador, o seu sentido de humor, a sua capacidade de se rir de si mesmo, que é prova de inteligência, a proximidade que estabelece com quem o vai ouvir, que torna tudo mais autêntico e nos chega melhor ao coração.
Por isso, mesmo eu que já vi excelentes músicos e assisti a concertos inesquecíveis, que já estava à espera de um bom concerto e ainda assim me surpreendi, apetece-me agradecer a quem nos dá a possibilidade de viver um arrebatamento destes, que é das melhores coisas que há na vida. E se a felicidade é, como creio, feita de momentos de plenitude, o que se passou hoje naquela sala fez-me, sem dúvida, ser (mais) feliz. E isso é tão bom!...
Obrigada, Salvador.


domingo, 25 de junho de 2017

Maior que o mundo



Há quem acredite que nada é por acaso. Eu também gosto de acreditar nisso, mas no fundo sei que foi um acaso que nos juntou. Depois, a magia daquele resto de sentimento irredutível às palavras que inexplicavelmente nos aproxima e liga a certas pessoas para sempre, fez o resto.  
Hoje, fazemos de tal modo parte da vida um do outro que tenho a certeza que sem ti a minha vida não seria tão boa. Juntos, já passámos por tudo: pela alegria e pela dor, pelo riso e pelas lágrimas, pela emoção e pela raiva, pela tristeza, pelo desânimo, pela coragem, pela felicidade. Já nos zangámos, discordámos e discutimos. Já vivemos tanto os limites do bom e do mau, que hoje sobra apenas a tranquilidade serena de nos sabermos sempre um para o outro, de nos admirarmos e apoiarmos, de nos entendermos para lá dos gestos e das palavras. Hoje, gosto de ti até com o que eu não gosto, ou talvez também por isso.
Ao fim deste tempo todo, que é a nossa existência inteira, sabemos que havemos de tomar conta um do outro para sempre, e que nada nem ninguém nos pode separar, porque estamos perto mesmo quando estamos longe e porque é enorme o que nos une. E temos uma história tão longa, bonita e secreta, feita de intimidade e de partilha, que só nós conhecemos pelo lado de dentro, por muito que outros digam, julguem, ou pensem o que for sem saber de nada.
Por isso, este dia não é só teu; é meu; é nosso. E porque nas grandes amizades também há amor, tal como nos grandes amores também há amizade, nesta nossa doce harmonia que não precisa nem de nome, que é força, amparo e aconchego, eu gosto de ti mais do que sei dizer; e sei que tu sabes sem que eu o diga.

domingo, 18 de junho de 2017

Greve em dias de exames? Sou contra!


A história não é nova. Há quatro anos os sindicatos de professores (sempre com a Fenprof e o inenarrável Mário Nogueira à cabeça) também convocaram uma greve para o dia do exame de Português. E foi uma enorme confusão, como é costume acontecer em circunstâncias semelhantes, que implicou a marcação de uma nova data para a realização da prova.
Em relação a este assunto mantenho a opinião que tinha na altura, a qual me valeu insultos e amuos de vária ordem, que na verdade pouco me importam. Penso pela minha cabeça em todas as circunstâncias e nunca fui, nem serei, corporativista. De resto, identifico-me pouco com a classe profissional a que pertenço.
Os professores têm naturalmente razões de queixa como tantas outras profissões. E têm, com certeza, direito à greve e a manifestar o seu descontentamento. Mas não pode valer tudo.
Ora, um exame é sempre uma situação de tensão, que pode ser vivida com maior ou menor ansiedade consoante o feitio de cada um. Já todos passámos por isso. E é claro que não é indiferente que o exame se realize no dia marcado, ou noutro dia qualquer. Porque um aluno prepara-se para fazer uma prova num determinado dia. E se o dia mudar continua preparado. Mas a incerteza sobre a realização da prova no dia previsto vem certamente aumentar o nervosismo inerente à situação de estar a ser "posto à prova", que é mais fortemente sentida nos 11º e 12º anos, porque disso depende muito do que vem depois.
Às vezes orgulho-me de ser professora; e outras, muitas outras, envergonho-me. Sei muito bem do que falo. Conheço bem demais os professores (que também sou). Conheço-os no que há neles de bom, de excepcional até, nalguns casos; e também no que há neles de mais desprezível e medíocre. Conheço a escola há muitos anos, por dentro e por fora. E muito do que nela se passa não chega nunca a toda a gente. Felizmente, diria eu.
Fazer greve num dia de exames é, quanto a mim, antes de mais, um mau exemplo educativo, que consiste em passar para os alunos a mensagem implícita que vale tudo para se tentar obter o que se pretende.
O episódio de há quatro anos levou o governo de então a alterar a Lei Geral do Trabalho em Funções Públicas, a qual prevê agora no seu artigo 397º, alínea d), a possibilidade de existência de serviços mínimos na Educação, sempre que tal implique a "realização de avaliações finais, de exames ou provas de carácter nacional que tenham de se realizar na mesma data em todo o território."
Assim, veremos o que se passa na próxima quarta-feira. Mas seria bom que os professores tivessem a sensatez de não embarcar nestes calendários sindicais sem pensar muito bem no que está aqui em causa, e esquecendo os alunos com os quais trabalharam o ano inteiro, que estarão especialmente ansiosos por estes dias. E não aumentar essa pressão, que já é grande q.b. Ou então não se admirarem nem queixarem de serem um classe pouco considerada pela opinião pública em geral, muitas vezes sem razão, mas muitas outras por se porem mesmo "a jeito"...

sábado, 17 de junho de 2017

Um filme nostálgico


Por uma vez a tradução do título do filme "O sentido do fim" aproxima-se do original, The sense of an ending.
Não é um filme triste, mas é um filme dominado pela nostalgia, que tem a sua maior força no peso das interpretações, como é próprio dos britânicos. Jim Broadbent e Charlotte Rampling (a mostrar-nos de forma evidente as marcas visíveis da passagem do tempo e como, apesar delas, é possível manter a classe e a elegância) são os dois principais vectores de uma história que adapta um romance de Julian Barnes, que trata da intromissão no presente de um passado adormecido e mal resolvido, ou de como à distância dos anos vemos tudo com outros olhos.
Mesmo abusando um pouco do flasback, o filme segue-se com interesse e é agradável de ver, sem ser marcante, nem excepcional.

quarta-feira, 14 de junho de 2017

Ver


Tendemos a tomar como garantido aquilo que temos, sem considerar que de um dia para o outro tudo pode alterar-se e que, para o bem e para o mal, a vida sempre nos surpreende. Mas nisso reside também grande parte do seu desafio e encanto.
O ideal é aproveitar ao máximo tudo o que temos de bom, aprender com os erros, e estar disponível para aceitar e continuar, na certeza de que a felicidade não é duradoura mas antes fulgurante, como uma soma de pequenos momentos de plenitude, conhecimento e comunhão.
Há, depois, muitas conquistas e derrotas que fazem parte do caminho. Com o tempo aprende-se que não ter nada pode às vezes querer dizer ter tudo, que mesmo os que mais amamos não nos pertencem, e que até a solidão pode ser boa e necessária. 
E que o amor é bem mais simples do que imaginamos, que as pequenas coisas insignificantes são muitas vezes as mais importantes de todas e que, na lógica serena do tempo que passa, é preciso, acima de tudo, acreditar. 

segunda-feira, 5 de junho de 2017

Perfetti sconosciuti


Ainda um dia gostava de perceber que critérios presidem à tradução livre dos títulos dos filmes, o que faz com que filmes daqueles que conhecemos da vida toda, como "The Sound of Music" se transforme em "Música no Coração" em português e no inenarrável "Lágrimas y sonrisas" em espanhol. Os exemplos como este, ou mais ridículos ainda, poderiam multiplicar-se. E não percebo por que motivo não se tenta ser tão próximo do original quanto possível, o que me parece que teria muito mais lógica.
Vem tudo isto a propósito do filme que vi no fim de semana e de que gostei muito. Já não ia ao cinema há algum tempo e um filme de um realizador de que nunca ouvira falar, Paolo Genovese, com actores cujos nomes também não me diziam nada e chamado "Amigos amigos telemóveis à parte" tinha demasiados ingredientes para o pôr de parte. Mas era italiano - um ponto favorável -, e reparei depois que o título original perfetti sconosciuti não indiciava uma daquelas comédias de riso alarve, que eu detesto, mas um humor um pouco mais refinado. O trailer convenceu-me. E aquilo a que assisti foi a um filme que trata de uma forma divertida um assunto sério, que trata das relações entre as pessoas, que é um assunto que me apaixona, e que deixa um sabor amargo, ou pelo menos nos faz pensar na maneira como vivemos.
Partindo do princípio de que todos temos uma vida pública, uma vida pessoal e uma vida secreta, a história toma como pretexto um jantar de amigos de longa data e um jogo aparentemente inocente - a partilha das mensagens e chamadas recebidas - para pôr a nu as fragilidades do modo como nos relacionamos, sobretudo com os que nos estão mais próximos: o que dizemos e o que calamos, o que revelamos e ocultamos, o que sabemos e/ou  julgamos saber, e como podem ser diferentes do que imaginamos as pessoas que cremos conhecer muito bem. E depois, também algumas outras questões pertinentes: as falsidades de (quase) todos os casamentos, o modo como os telemóveis vieram intrometer-se nas nossas vidas, a distância entre o que somos e o que queremos parecer...
Não será um filme excepcional, mas eu acho que vale muito a pena vê-lo.

sábado, 3 de junho de 2017

Aqui


Hoje, amanhã e depois é por aqui que estou inteira, não em corpo mas com tudo o resto: alma, cabeça, coração... 

quarta-feira, 31 de maio de 2017

Incomparável


Muitos dias e anos depois daquele arrepio sentido desde o primeiro instante como uma inevitabilidade que o tempo fora confirmando devagar, na distância que separou o primeiro olhar do primeiro toque, e depois cresceu no desejo que não pôde refrear-se, no corpo a estremecer, primeiro, e a explodir, depois, e do tempo em que esquecidos de tudo se entregavam ao prazer e se demoravam juntos; e eram um do outro sem ser; e estavam perto mesmo quando estavam longe; e se encantavam  com a certeza de se terem um ao outro e de se conhecerem de cor e não poderem  nunca separar-se ou esquecer-se, nem sequer em momentos de dor e de desânimo, ainda havia muitos dias em que, apesar das marcas e histórias que os anos tinham trazido também às suas vidas, se perdiam no fundo dos olhos um do outro e se emocionavam e enterneciam com o  afecto, amor, ou o que quer que fosse que se lhes tinha atado ao peito para sempre. Era então que na cabeça e no peito dela soava de novo a voz pausada e grave de Caetano:

Você é meu caminho, meu vinho,
Meu vício
Desde o início estava você
Meu bálsamo benigno,
Meu signo, meu guru
Porto seguro onde eu vou ter...

sexta-feira, 26 de maio de 2017

Rocío, sempre Rocío


Por estes dias, voltam a encher-se de gente os caminhos de pó, voltam os cavalos e as carroças, o som conjugado da flauta e do tamboril, as flores e os vestidos de flamenca, a guitarra, os vivas e os olés; e as sevillanas dia e noite, a salve rociera repetida mil vezes em emotivos coros de sentimentos, abraços e lágrimas despudoradas, que não podem nem querem conter-se. E os sinos a tocar incessantemente, entre foguetes e palmas, e risos, e vozes, e silêncios.
Há uma inexplicável magia nesta festa excessiva e singular, que se vive no alheamento do mundo, que só quem a experimenta pode compreender, que se sente na pele e no mais fundo da alma, que mexe connosco e nos transforma para sempre.
O Rocío é a mistura de muita coisa: é um lugar encantado, especialíssimo, de emoções à flor da pele, de genuína celebração da fé ou mero encontro de amigos, da paz quieta da marisma, ou do alvoroço imparável e inebriante daquela euforia que faz parecer a vida revelar-se-nos em plenitude e em graça, emoção pura, força renovada.
Ainda me lembro muito bem de quando fui pela primeira vez à Romería, no ano 2000. E de como foi tão forte o impacto que provocou em mim; de como aquele momento de alegria  e interioridade extremas e simultâneas foi para mim uma espécie de revelação, qualquer coisa que até aí desconhecia pelo menos daquela maneira tão forte e tão funda; de como senti que se fortalecia ali a minha fé. E me (lhe) prometi, como nos ensinam os almonteños, que "siempre que pudiera yo tenía que ir a verla". E fui. Muitas vezes. Na festa e fora dela. Mas não tantas como gostaria, ou como acho, às vezes, que necessito.
Hoje, sinto e sei que a Virgen del Rocío me acompanha e me protege, assim como a todos aqueles por quem lhe rezo. E, por mais estranho que pareça, identifico-me bem mais com esta maneira festiva de viver a fé, que conjuga alegria, espiritualidade e partilha (à espanhola, pois claro), do que com a nossa maneira bem mais lamurienta e arrastada, que respeito mas não me toca.
Por estes dias, e até que acabe a festa, o meu coração estará pois sempre por lá, mesmo se fico cá; e acompanho tudo à distância; e trago o coração e a cabeça cheios de uma nostalgia triste e boa, na certeza absoluta que era ali que eu tinha que estar.


sábado, 20 de maio de 2017

Serenidade em tons de azul


Um mês, três dias, e muitas histórias depois, regresso enfim à minha praia e à tranquilidade quieta de que necessito de vez em quando, para perder os olhos no horizonte, deixá-los extasiar-se na junção de céu e mar com todas as possibilidades de azuis, deixar-me embalar pelo som das ondas a lançar-se ritmada e desabridamente na areia e, nessa harmonia com o mundo, encontrar o equilíbrio e a paz.
Mesmo se é verdade que sou das cidades e da agitação quotidiana, também gosto e preciso de parar e de virar-me um bocadinho para dentro. Se calhar por isso mesmo...

segunda-feira, 15 de maio de 2017

Paspalhão


Desde que tenho comigo o disco Luísa, não consigo deixar de o ouvir. É maravilhoso do início ao fim e tem absolutas pérolas, como esta  - que tem letra de João Monge e a  música, bem como a peculiar interpretação, com marca em nome próprio (como o disco) - que aqui deixo, hoje, e que  vai dedicada a todos os paspalhões que se nos atravessam no caminho.

Já te dei mais que um sinal, paspalhão,
Sabe Deus o que tu queres
Será que tu afinal ainda não 
lês os sinais das mulheres

(...)

Só me apetece chamar-te 
nomes que não chamo a um cão
Mas tu és um caso à parte
És só paspalhão, paspalhão.

domingo, 14 de maio de 2017

Bom gosto, simplicidade e emoção



É o assunto do dia. Sobre ele já se disse tudo e mais alguma coisa. Mas por uma vez, Portugal inteiro e o mundo empolgam-se e vibram sem que o futebol ou a política sejam o tema.
No Facebook, a Luísa escreveu assim, reagindo à recepção no aeroporto: É tão bom ver que a arte também move as pessoas desta maneira...
É isto, e uma maneira genuína e profunda de fazer chegar a magia da música até nós, que devemos a Salvador Sobral.
À Luísa e ao Salvador só temos que agradecer. Muito. Muitas vezes. E continuar a ouvi-los.
E como dizia hoje Miguel Esteves Cardoso no Público: Viva o Portugal de Salvador Sobral por ser bom sem se armar em bom e por mostrar que a arte e a alma andam juntas e que nada há nesta vida e neste mundo que seja mais forte.

sábado, 13 de maio de 2017

É hoje!



Nunca um festival me entusiasmou tanto. Nunca estivemos tão perto de ficar bem. Mas antes de qualquer outra coisa, é esta canção, linda, a magnífica voz do Salvador e sua fantástica forma de ser que me empolgam.
"Amar pelos dois" entrou definitivamente na minha vida; e com ela dois excelentes músicos, cujos discos se recomendam, e a vontade de os ouvir sem parar.
Vamos lá, Salvador!

domingo, 7 de maio de 2017

5 anos de "Isto e Aquilo"


Hoje que é "Dia da Mãe", o meu blogue faz cinco anos. Ao fim deste tempo, que é muito, e quase 1100 posts depois, posso dizer que o balanço é muito positivo, Estava longe de imaginar, naquela segunda-feira chuvosa de 2012, onde isto me levaria. Como em tudo, houve bom e mau. Mas guardo só as coisas boas. E mesmo se este ano o tenho negligenciado um pouco mais (o que dizer então do meu mais novo...), é mais por falta de tempo e por todos os afazeres da existência, que não me deixam tempo nem espaço para este encontro com as palavras, do que propriamente por me ter esmorecido o entusiasmo e o prazer.
Na comemoração deste quinto aniversário, destaco o que por uma daquelas ironias do destino que nos fazem acreditar que não há coincidências, foi um dos melhores privilégios que esta experiência me trouxe também: uma amiga para a vida, que é quem me inspirou para me iniciar nesta aventura. Cinco anos depois, parece que nos conhecemos desde sempre; e quando nos juntamos fartamo-nos de rir. Há alguma coisa melhor? Por isso e pelo resto: obrigada Helena!...

Por toda a minha vida


Se exceptuarmos os casos que fogem da "norma", tendemos a achar que a que nos calhou em sorte é a melhor de todas as mães. Porque é especial e única a relação que nos une, é o mais visceral e profundo de todos os amores, inabalável e desmesurado como nenhum outro, maior e melhor exemplo do amor total.
Para mim, a minha é, naturalmente, inigualável. Ao longo dos anos, a sua presença e o seu sorriso foram a minha força e o meu amparo, o meu refúgio das horas boas e más, a primeira prova de que o mimo é sempre bom.
Ainda hoje, quando já não caibo inteira no seu colo e aparentemente os nossos papéis se inverterem e e ela parece precisar de mim mais que nunca, é o seu olhar e o seu toque, é a pressão da sua mão na minha, que me dão alento e me fazem sentir que o mundo é um lugar perfeito e a vida maravilhosa.
O seu exemplo foi a minha maior lição. Pelo sua garra, energia e boa disposição. Pelas suas fraquezas também, que a tornaram ainda mais humana. Por me ensinar a alegria e a superação. Pelo seu coração enorme, sempre pronto para os outros. Agora é tão grande a nossa intimidade, somos tão cúmplices e unidas, que até no silêncio nos entendemos. Agora, aproveito o mais que posso o tempo de estarmos juntas, e consola-me a certeza de que a grandeza do meu amor a ampara e aconchega na sua actual fragilidade. Por isso me desdobro em atenção, e festas, e carinhos, que serão sempre infinitamente menores do que tanto ela tem feito por mim.
E, no mais fundo de nós, ambas sabemos, mesmo sem o dizer, que o nosso amor não acaba, que existirá para sempre, a consolar-nos o coração.

quinta-feira, 4 de maio de 2017

Couleur d'Azur










Há lugares assim, como há pessoas, também, que nos tocam de forma especial, que se nos agarram à existência e que nos marcam para sempre.
Definitivamente, eu sou do sul: da cor, da luz intensa, da imensa alegria de viver. Ah, como eu entendo os artistas...

segunda-feira, 1 de maio de 2017

Sete desejos insensatos


Todos quisemos, alguma vez, "demander l'impossible" como  os "soixante-huitards" de um outro mês de Maio. Todos sonhámos, por instantes, que pudesse ser verdade o que às vezes desejamos.  Isto, por exemplo:
1. Que o fim de semana tivesse sempre três dias, como este.
2. Que  houvesse na nossa vida tempo e espaço para a sesta diária.
3. Que pudessem existir eternamente os que amamos.
4. Que a saúde, o amor e o dinheiro fossem muito contagiosos.
5. Que conseguíssemos ir onde queremos em total liberdade.
6. Que continuássemos a ver o mundo com os olhos limpos dos poetas, e a ser capazes de nos espantar com o milagre que é viver.
7. Que o muguet do 1º dia de Maio nos trouxesse realmente a alegria, a paz e a felicidade em todas as horas de todos os dias do ano.

sexta-feira, 21 de abril de 2017

Salvador Sobral


Nunca fui muito dada a "festivais da canção", aos quais não me lembro de dar qualquer importância, a não ser num tempo já muito longínquo em que eu e a minha irmã nos entretínhamos a imitar a Madalena Iglésias e a Simone de Oliveira. Era o tempo do "Sei quem ele é" e da "Desfolhada", que conhecíamos de ouvir tocar por todo o lado, pois nessa altura tínhamos o acesso à televisão limitado a pouco mais que a "Pipi das Meias Altas" e "Os pequenos vagabundos", já que nove e meia era a hora do "recolher obrigatório", sem qualquer contemplação, facto que na altura nos aborrecia consideravelmente, mas que  hoje, à distância dos anos, considero que só nos fez bem.
Porém, este ano prestei atenção à canção que ganhou o Festival. Porque este ano a canção é diferente daquela piroseira habitual, entre o pimba e o "festivaleiro", que eu nem sei muito bem o que seja. Desta vez, a canção que ganhou é simples e linda. Mais que isso: vem agarradinha à voz de Salvador Sobral, que é a minha mais recente descoberta musical, e que me tem encantado nos últimos tempos.
Percebi, entretanto, que Miguel Esteves Cardoso escreveu no Público no dia do festival, que é também o dia dos meus anos, um texto que, com aquele jeito tão dele, diz muito do que eu também penso. Isto, por exemplo;
(...) A Voz dele é límpida e aérea. Tem uma musicalidade irrequieta que se atreve a cantar por cima do canto. Canta como se toda a música dependesse dele. Cada canção é um tudo ou nada. (...) Convalescente e sem auscultadores depois de ter ganho o Festival da Canção com "Amar pelos dois", uma canção bonita e subtil de Luísa Sobral (de quem é irmão), Salvador Sobral recusou-se a jogar pelo seguro e arriscou tudo mais uma vez, entregando a voz ao momento e ao público. O resultado, cantado com a irmã, sem artifícios ou automatismos, foi comovente de tão bem conseguido. (...) Os grandes intérpretes conseguem partilhar as emoções e, quando não as sentem, inventam-nas de maneira convincente. É ao partilhá-las através da empatia fascinada do público que começam deveras a senti-las e a torná-las cada vez mais íntimas. (...) Não é preciso acesso às gravações: basta vê-lo no Youtube em qualquer fase da carreira dele. Acompanhamo-la a apanhar as músicas e a torná-las dele e de quem as ouve. É maravilhoso ver como ele se surpreende com o próprio talento, deixando-se enlevar e levando-nos com ele.
E depois, além de uma voz cristalina, que nos emociona, o Salvador é também uma figura, com grande sentido de humor e uma genuinidade desarmante, que cativa quase tanto como nos encanta o seu talento musical. Ora ouçam:

quarta-feira, 19 de abril de 2017

Férias na Primavera


Que é a altura do ano que prefiro, já se sabe. Por estes dias, tenho sempre vontade de festejos e de ar livre, de aproveitar o brilho e a intensidade luminosa do sol perto da água, numa cidade qualquer, das que sinto minhas, ou que desejo conhecer pela primeira vez. 
Porque há lugares, ruas, praças, jardins que são do mundo mas onde podemos sentir-nos em casa, deixar-nos envolver pelo que nos rodeia e encher o coração de paz, na mágica sensação de que a vida é somente beleza, harmonia e sentimentos bons.
Tal como as pessoas, as cidades revelam-se-nos devagar, em cada passo, a cada gesto, ou em formas muito próprias de respirar, sentir e viver. Gosto de me deixar seduzir por elas, num encanto que cresce a pouco e pouco, que me enche a alma, e que se torna apego e conforto, e também, talvez, a vontade de, repetidamente, voltar.

domingo, 16 de abril de 2017

Manhã de Aleluia


Sou uma daquelas raras pessoas para quem a Páscoa é uma profunda e importantíssima celebração, que valorizo até bem mais que o Natal. Porque o Natal é bonito na sua essência, mas está, hoje, carregadinho de obrigações. E a Páscoa é mais livre e por isso enche mais o coração.
Talvez a isto não seja indiferente a sua coincidência com a Primavera, que é também o meu tempo de eleição, e que tem muito a ver com a plenitude do recomeço e a festa da vida.
Porque este é o dia da esperança renovada, da vitória sobre a morte, que é o vazio que também faz parte da vida, de acreditar e de nos perturbarmos com o inacreditável do que celebramos e é tão bonito, e de estremecermos com isso como uma flor estremece com o vento que a desperta e faz vacilar.
E depois, este é um dia que se vive para fora e para dentro, na alegria de quem crê no amor acima de tudo, e na espiritualidade que há no mais fundo de nós.

quarta-feira, 12 de abril de 2017

100 metros


Esta é a história verídica de um homem, Ramón Arroyo, a quem foi diagnosticada esclerose múltipla e que, apesar da previsão médica de que em alguns meses não conseguiria andar nem 100 metros, se inscreveu numa prova de triatlo denominada "ironman" e conseguiu, em 2013, nadar 3,8 km, pedalar 180 e correr uma maratona, tudo de seguida.
O filme, de Marcel Barrena, tinha pois todos os ingredientes para ser um "dramalhão". Mas tinha também no cartaz um nome de que eu gosto bastante, Dani Rovira, ainda que sempre o associe à comédia e em particular aos filmes Ocho apellidos vascos e Ocho apellidos catalanes, que me divertiram muito. Ver como se sairia noutro registo foi talvez o principal motivo que me levou a ver esta história, que poderia achar à partida não fazer bem o meu género. E não me desiludi. Dani Rovira, de novo com karra Elejalde, como nos filmes que já mencionei, fazem um dupla convincente  e divertida, que evoca até, de certo modo, Omar Sy e François Cluzet em Les Intouchables.
Depois há também uma extraordinária Alejandra Jiménez, há actores portugueses (Maria de Medeiros, Ricardo Pereira e Manuela Couto - o filme é co-produzido por Tino Navarro) e doentes reais de esclerose múltipla como figurantes; e há a música de Rodrigo Leão.
E assim, um filme que podia ser depressivo e excessivamente dramático acaba por ser um testemunho de esperança e de superação, com momentos ternos, comoventes, ou inesperadamente divertidos. Eu gostei. E pude confirmar (mais) dois talentos do cinema espanhol.

domingo, 9 de abril de 2017

Alarvidade e javardices



A história não e nova. Ciclicamente, é notícia este triste espectáculo dos jovens portugueses provocando todo o tipo de desacatos por terras espanholas. Antes era em Lloret del mar que, por esta altura do ano, cenas como as que vieram agora a público aconteciam ano após ano. Lembro-me de ver reportagens na televisão espanhola sobre o assunto, nas quais alguns comerciantes locais diziam preferir fechar as lojas nesses dias, para evitar roubos e prejuízos de todo o tipo. Houve até um rapaz que morreu, há uns anos, porque se atirou da varanda do quarto para a piscina. Sem palavras...
Depois, mudaram de destino, mas a atitude permanece igual. É extraordinário imaginarmos que se trata de jovens que têm entre 17 e 19 anos, mais ou menos, que são letrados, pelo menos teoricamente, uma vez que estão a terminar o secundário, e da classe média, pois têm famílias que pagam cerca de 600 euros para os meninos se "divertirem". E é aqui que está o problema: porque para esta gente, incluindo as agências que organizam as viagens e com as quais devem lucrar muitíssimo, "divertir-se" significa que vale tudo, desde embebedar-se até cair para o lado, fazer barulho a todas as horas, sem se preocupar com quem possam estar a incomodar, e deixar um rasto de lixo e de destruição por onde passam. Ou seja, comportar-se como uns grunhos brutamontes e assumir todo a espécie de comportamentos reprováveis, que nem um selvagem teria.
Desta vez foram expulsos de um hotel em Torremolinos e a notícia tornou-se uma espécie de escândalo, com honras de abertura no Telejornal.
O assunto é , de resto, também notícia na imprensa espanhola. No El País de ontem diz-se o seguinte: Alrededor de 800 estudiantes portugueses han causado importantes destrozos en un hotel de Torremolinos (...) Los jóvenes destrozaron azulejos, tiraron colchones por las ventanas, vaciaron extintores en los pasillos del hotel e incluso tiraron un televisor en la bañera, según fuentes policiales.
O mais chocante disto tudo é ouvir depois os depoimentos. O do menino que acha tudo "um exagero", porque "houveram" vários desacatos, mas isso tem de haver porque é "normal", mas não é tanto como se diz. O do senhor da agência organizadora, que acha que ele é que tem motivos de queixa do hotel, por exemplo por os quartos não serem arrumados pelas equipas do hotel. Ora, na sua perspectiva, se os meninos se deitavam tarde, porque tinham festas atá às seis da manhã e e estavam a dormir à hora a que o quarto deveria ser limpo, o hotel só tinha que mudar os horários da limpeza dos quartos. Hilariante, no mínimo. Mas o pior ainda foi a versão de uma das mãezinhas, que faz parte da Confap (e isto chegaria para perceber que está tudo dito!) Segundo a dita senhora, tudo isto é muito natural, e se não fosse para ser assim, então "teriam ido para Fátima".
É certo que quem há muito anda pelas escolas não estranha completamente estes comportamentos, nem dos filhos, nem dos pais.  A tendência actual é mesmo esta: façam o que fizerem, os meninos têm sempre razão. E assim se vão criando estes pequenos monstros, que engrossarão, decerto, o número de adultos execráveis.
Eu vejo/leio tudo isto e só sinto duas coisas: asco e vergonha....
E vêm-me à cabeça aqueles versos de Sophia: "Vemos, ouvimos e lemos / Não podemos ignorar".

quinta-feira, 6 de abril de 2017

Férias da Páscoa

Seja onde for, férias são férias. E as da Páscoa são, sem dúvida, as minhas preferidas. Porque esta é também a altura do ano de que mais gosto. E daqui a duas semanas vão saber ainda melhor...

sábado, 1 de abril de 2017

Mês de Abril


Gosto muito deste quarto mês do ano, que é o primeiro mês completo de Primavera, e da sua intrínseca instabilidade, que faz alternar o sol e a chuva, o calor dos dias a prometer Verão e as noites frescas a reclamar ainda agasalho, recato e aconchego. 
Gosto da euforia contida dos dias azuis que crescem e aquecem devagar, de soltar o cabelo na brisa da tarde e de o sentir esvoaçar suavemente à volta da cara, em leves carícias que me fazem fantasiar outras meiguices e antecipar a concretização de desejos escondidos, ou mesmo ignorados.
Dizem que este mês cujo nome vem do latim aprilis, que significa abrir, seria, segundo o poeta latino Ovídio, dedicado a Vénus. Gosto por isso e por tudo o mais de o imaginar aberto ao amor e a novos começos. Porque Abril é um tempo de sensualidades à tona e de corpos que se enlaçam em despudor festivo, consonante com a natureza a rebentar de vida.
Gosto da sonoridade da palavra Abril, como da que têm todas as palavras terminadas em -l (Abril, Isabel) e da plácida inquietação dos sentimentos antagónicos e incertos, de todas as memórias e anseios que Abril traz consigo, de contemplar extasiada a beleza das flores, o voo dos pássaros, ou dançar alegremente ao som de uma música qualquer. De caminhar descalça na areia molhada e vazia das primeiras manhãs de praia, de me sentar em descarado e preguiçoso abandono e deixar o calor penetrar-me na pele, enquanto admiro o brilho do sol reflectido no rio que corre indiferente e implacável, como o tempo.

(texto reeditado)

sexta-feira, 31 de março de 2017

Abraços e beijinhos e carinhos sem ter fim

Talvez porque o meu pai era por feitio ou educação um pouco mais frio e distante, a minha mãe deu-mo em doses  redobradas, segundo aquele princípio, em que eu também acredito piamente, de que o mimo nunca é demais.
E por isso me fiz assim, sensível e emotiva, signo peixes dos pés à cabeça, muito dada a afectos e meiguices de todo o tipo, sem chegar ao enjoativo nem lamecha.
Os franceses têm para isto uma palavra que eu adoro - câlins - que é essa mistura de toque e sentimento, que é amor, carinho, amizade, e  nos enche o coração.
Claro que há também os momentos de arrepio no encontro da pele com a pele, abraços que não se esquecem e se gostaria de poder eternizar, e o desejo que toma às vezes conta de tudo e ocupa o coração e a cabeça, o corpo, a alma e a vida, que é passado, presente e futuro, todas as horas confundidas em estremecimento e prazer. E uma voz que murmura baixinho ao nosso ouvido, um beijo longo no pescoço, vontades lidas no silêncio do fundo de um olhar... Gosto de tudo.

terça-feira, 28 de março de 2017

Boas decisões


Boa parte do que temos, ou dos nossos caminhos, é fruto dos mais variados acasos, de mais sorte ou mais azar e, acima de tudo, das decisões que tomamos. Escolher é sempre um risco. Ir ou ficar? Perder para ganhar? Aventura e incerteza ou antes o conforto do que já se conhece? É às vezes uma loucura que depois se revela acertada, ou uma opção que parece correctíssima e se torna, com o tempo, um desastre.
Não me arrependo, em regra, das minhas escolhas. Porque mesmo as que não repetiria, faziam, naquela altura, todo o sentido. Porque procuro sempre o equilíbrio entre a razão e o coração, ainda que a minha natureza me leve a ouvir mais o lado do sentimento. E talvez, também, porque por muito que goste  de mudar, o risco é sempre mais ou menos calculado, descontando a dose de imponderável que há em tudo o que fazemos e que é, afinal, o que torna a vida ainda mais emocionante.
Mas de tantas escolhas que fiz ao longo dos anos, nos mais diferentes domínios, uma das melhores decisões foi sem dúvida a que aconteceu há um ano, misto de arrojo, boas energias, e dádiva dos céus, que me trouxe de volta ao que é para mim berço e colo, e me tem feito sentir tão imensamente feliz e abençoada. 

terça-feira, 21 de março de 2017

A poesia está em todo o lado

Énivrez-vous
Il faut être toujours îvre, tout est là; c'est l'unique question. Pour ne pas sentir l'horrible fardeau du temps qui brise vos épaules et vous penche vers la terre, il faut vous énivrer san trêve.
Mais de quoi? De vin, de poésie, ou de vertu à votre guise...

                                                                                                  (Charles Baudelaire)

segunda-feira, 20 de março de 2017

Enfim, a Primavera


Le jour naît couronné d'une aube fraîche et tendre
Le soir est plein d'amour ; la nuit on croit entendre,
À travers l'ombre immense et sous le ciel béni,
quelque chose d'heureux chanter dans l'infini.

                                                                   (Victor Hugo)

No calendário chegou hoje, embora para mim ela tenha começado de facto há alguns dias, a 7 de Março, como sempre (me) acontece. Porque este é o meu tempo e a minha estação, são meses de força de alegria, como novas promessas de recomeço e de bem-estar. De Março a Junho sou mais feliz, no novo encanto que encontro em cada dia na luz da manhã ou na brisa da tarde, na claridade que se prolonga devagar, no canto dos pássaros, no cheiro intenso das flores, e na vida a despontar por toda a parte.

domingo, 19 de março de 2017

Direito ao Lazer


Houve em tempos uma Ministra da Educação que entendeu que um professor era um funcionário público como outro qualquer, E, como tal, decretou que deveria passar 35 horas semanais no seu local de trabalho, ignorando a especificidade e a grandeza da tarefa subjacente a essa profissão. O desgaste físico e psicológico que ela implica, também. Depois, inventaram-se umas horas de "trabalho individual",  que podem variar de 7 a 11 horas semanais, consoante as escolas ou nem sei bem o quê, mas que são sempre um número ridículo, considerando o imenso volume de trabalho que é necessário fazer fora da escola - basta pensar no tempo necessário à preparação das aulas, ou à correcção dos testes, embora ele seja muito diverso, também, consoante o tipo de matérias e as disciplinas.
Mas isso não é tudo: só uma mente estreita e um espírito tacanho e mesquinho não é capaz de entender que para que um professor possa fazer bem o seu trabalho precisa, naturalmente, de tempo: para estudar, para ler, para pensar; acima de tudo pensar. E que isso é muito mais valioso que qualquer "formação" feita à pressa e "a martelo", só porque sim.
De então para cá, perdemos todos: os professores, em primeiro lugar, mas também as escolas e, sobretudo, os alunos. E a Educação vai sendo cada vez mais "pobrezinha", porque lhe falta o essencial -  o tempo de lazer.

domingo, 12 de março de 2017

Visitas


Em Lisboa, quem não foi aluno ou professor no Pedro Nunes tem pelo menos um parente próximo, ou um amigo chegado, que passou por lá e sempre recorda esses tempos com nostalgia, contando mil e uma histórias de uma época que já passou, mas deixou marca.
Porque esta é a mais tradicional e conceituada escola da capital, por onde passaram figuras que depois tiveram ou têm ainda relevo nas mais diversas áreas da sociedade portuguesa. E por isso é muito visitada. Por antigos alunos e não só. Por pessoas que se oferecem espontaneamente, ou são convidadas, para lançamentos de livros, para palestras, ou simplesmente para conversarem de si, do mundo, da vida. São muito interessantes estas visitas, uma janela aberta sobre a realidade e a prova que a escola não está fechada sobre si, mas em permanente diálogo com o que existe para além dela, o que parece muito óbvio mas não acontece na maior parte das outras.
Foi assim que na semana passada tivemos connosco o Presidente da República;  e que no dia 21 teremos o Padre Tolentino de Mendonça, entre muitos outros nomes que vão passando pelo Liceu em cada ano.
Mas a visita de amanhã é, para mim, um pouco mais especial, misturando nervosismo e emoção: é um antigo aluno do Liceu que a meu convite regressa à sua antiga "casa" para recordar esses "velhos tempos" e falar da sua vida. Mas é também um amigo de há anos, uma pessoa de quem gosto muito, e cuja voz me tem, a vida toda, embalado os sonhos, apaziguado os desgostos, e tornado mais bonitos os meus dias.Tenho a certeza que vai ser bom...

terça-feira, 7 de março de 2017

Um dia, muitos anos

Há dias que passam devagar e outros que parecem correr mais do que queremos. E assim, somando uns e outros, vão passando muitas horas, dias, anos, fluindo com o tempo.
Este é o dia que eu queria prolongar para poder saboreá-lo em cada instante, como quem prolonga o prazer. Porque me sinto feliz de ter nascido neste dia 7, com toda a simbologia que ele encerra, e gosto sempre de o comemorar em grande estilo.
Com a idade vai-se aprendendo a dar mais valor ao que realmente importa, a aproveitar melhor cada momento de felicidade, a relativizar os erros de percurso e as fragilidades de antes e de agora. Perdem-se as vergonhas quase todas e vive-se mais genuína  e plenamente. Perde-se a frescura e o viço, mas ganha-se a sabedoria e a serenidade. Às vezes ainda volto a sentir-me pequenina, quando a minha mãe passa a mão na minha cara e isso  me sabe a mimo e a colo. Mas na verdade já sou muito antiga, embora raramente sinta o peso dos anos, que o espelho me devolve em certos dias mais sombrios.
Hoje, gosto do que sou, mesmo sabendo-me imperfeita e inquieta, sempre à procura de mais e melhor, porque nunca nada está completo, nem é definitivo. Ver, experimentar e aprender continua a ser o que me move e apaixona. E falta tanta coisa...
Mas hoje, este dia é de festa, e é todo meu. E gosto dele ainda mais por isso mesmo... E por me trazer como presente a euforia da Primavera antecipada, embrulhada no carinho de quem me quer bem...

domingo, 5 de março de 2017

Dois portentos de interpretação



Os dois filmes que vi neste fim de semana valeram acima de tudo pelo que neles é espectáculo de representação, e que faz com que, em grande parte, sejam o motivo que justifica uma ida ao cinema.
Marillon Cotillard é um daqueles raros exemplos da actriz que faz bem o que quer que seja, capaz de tornar interessante qualquer história, mesmo a mais aborrecida e dseinteressante. Porque  há em si tanta força, e intensidade, e entrega, que as suas personagens se tornam sempre imensamente credíveis e humanas, até. É isso que acontece no filme Mal de Pierres, de Nicole Garcia, estupidamente traduzido por "Um instante de amor". O filme, em ambiente taciturno e tons sombrios, é todo Gabrielle, porque Marion Cotillard consegue torná-la sublime na sua loucura meio histérica, que é também desejo de amor e desregramento dos sentidos.
Fences, "Vedações" em português, é também uma adaptação e situa-nos igualmente nos anos 50. E traz-nos Denzel Washington diante e detrás da câmara. num registo de amargura, com Viola Davis também como excelente parceira, dando ambos uma dimensão tão dramática quanto comovente às suas personagens. Recomenda-se, pois...

sexta-feira, 3 de março de 2017

O (meu) mês de Março


Março é amarelo como as flores do dia dos meus anos e azul como o céu da Primavera que está quase a chegar. Março é o meu mês, cheio de sol, de optimismo e de alegria, a marcar uma viragem no tempo, que volta a ser de dias longos e claros, roupas mais leves em cores pastel, perfumes intensos e cabelos soltos na brisa da tarde.
Em Março volto sempre a apaixonar-me pela vida, porque é como se tudo recomeçasse de novo e fosse suave e brando, sem a desmesura que, em vários sentidos, traz o Verão. Nesta altura, a natureza desperta do seu longo sono e renasce; e o meu coração renasce com ela. É nesta altura que o amor apetece ainda mais, que os sentidos se agigantam, que tudo parece possível.
A chegada de Março é sempre para mim motivo de festa e de energia renovada, de luz e de pássaros a cantar, de música serena e de sol a invadir-nos o corpo, de sabores frescos e de uma vontade imensa de partir por aí, à descoberta do mundo. Em Março ganho uma alma nova, e volta o tempo em que sou mais eu. 
Março é uma promessa de felicidade que a cada ano se renova. Ainda bem que Março já chegou...

terça-feira, 28 de fevereiro de 2017

Um bem essencial

Aproxima-se uma época em que me dou conta de uma forma mais evidente daquilo que, bem no fundo, já sei há muito: como me são fundamentais as amizades.
Orgulho-me de ter um leque de amigos relativamente vasto e variado, feito de personalidades fortes e distintas, que são, de certo modo e em grande medida, pilares de força e de equilíbrio na minha vida. Tenho amigos de muitas idades e proveniências, antigos ou mais recentes, muito diferentes de mim e com pontos em comum, interesses ou perspectivas, maneiras de ser, ou de viver. Todos me fazem falta e me mimam quando preciso deles. E gosto tanto de todos, que às vezes me pergunto se saberão como e quanto me aconchegam o coração...

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2017

Irmandade(s)


Quando eu era pequenina, todas as noites pedia assim ao anjo da guarda: "Anjo da guarda, minha companhia, guarda a Teresinha e a maninha, de noite e de dia". E ele guardou.
Continua a guardar até hoje, acho eu, mesmo que eu me tenha esquecido de continuar a pedir-lho; pelo menos desta forma, tão pueril quanto enternecedora.
E, de facto, com mais ou menos altos e baixos, mas sem juízos de valor, com tudo o que ao longo dos anos nos dividiu e aproximou, não há nada comparável à relação dos irmãos. Porque temos com eles uma ligação diferente de todas as outras; porque há entre nós histórias e memórias que não são de mais ninguém, e coisas que só nós podemos entender; porque há qualquer coisa de indizível, que está para lá dos laços familiares, do sangue e do nome em comum, um vínculo que nos liga com tudo o que isso tem de bom e de mau, também, e que, nunca, nunca, se desfaz. Será, talvez, esse nó que já estava implícito no pedido feito ao anjinho da guarda, há muito tempo, nos primórdios da nossa existência.

domingo, 26 de fevereiro de 2017

Profundamente tocante


Desde o "Quarto" (Room-2015) que um filme não me impressionava tanto. É certo que ambos se baseiam em histórias verídicas, e esse é provavelmente um dos motivos que adensa o drama.
Mas o que há de mais belo e amargo neste Lion - a long way home, uma co-produção da Austrália, Estados Unidos e Reino Unido, realizado por Garth Davis e baseado na obra autobiográfica de Saroo Brierley, é a força e expressividade de Sunny Pawar, o pequeno actor que interpreta a personagem principal na primeira parte do filme. É impossível não vivermos com ele a aflição de se ver de repente sozinho e perdido, a 1500 km de casa, sem saber mais que o seu nome próprio e a sonoridade aproximada do lugar onde morava, não nos deixarmos levar pela autenticidade daqueles lindos olhos negros e pelo sorriso inocente e genuíno de que só os bons meninos são capazes, que nos faz sorrir, chorar ou enternecer-nos com ele, que nos dá vontade de lhe pegar ao colo para lhe apaziguar a dor, e trazer também para nossa casa como fez aquele casal australiano. Nicole kidman é, também ela, brilhante, como sempre. E há, depois, Dev Patel e a humana determinação que dá à sua personagem. Mas é aquele menino a verdadeira estrela da história, a que mais nos prende e abala.
Este é um filme absolutamente emocionante e imperdível, que retrata a pobreza e a miséria humanas e nos deixa a pensar sobre o que (não) fazemos para a evitar, que não cai nunca na lamechice piegas, e que, ainda assim, consegue ser poético e delicado, que é o que o torna tão especial; um  filme sobre o qual ficamos a pensar mesmo depois de ter acabado, porque guardamos connosco a doçura triste e a coragem daquele Saroo pequenino, e o seu grito lancinante, a chamar repetidamente pelo irmão que nunca mais volta: Gudduuuuuu!.... Tão autêntico, tão frágil, tão humano.