sexta-feira, 18 de janeiro de 2019

Certeza(s) absoluta(s)




Para lá de todos os percursos, e vontades, e histórias que se cruzam, se afastam, ou apenas se tocam ao de leve, havia a certeza daquele afecto desmedido a que não conseguiam sequer dar um nome, fosse amor, amizade, ou o que quer que quisessem chamar-lhe, fundado e alimentado ao longo do tempo na naturalidade do bem querer, imune a todas as desavenças, amuos, desencontros e mágoas que faziam também parte do caminho e o tornavam mais humano e mais autêntico.
Tudo começara quase por acaso, com um daqueles encontros fortuitos que parecem ainda assim ter sido escritos nas estrelas, ou originados por um alinhamento perfeito dos astros, que os aproximara só porque sim, porque alguma coisa maior que eles os impelia um para o outro sem que o pudessem entender ou explicar.
No início tudo fora apenas a incerteza que caracteriza os começos, feita de avanços e recuos, de sobressalto e de curiosidade, de arrojo e de medo, de sonho e de realidade, de ânsias e esperas, e risos e lágrimas, alegrias e decepções. Existiam ou inventavam-se? A que saberiam os beijos? Como seria o calor do abraço apertado que faz esquecer o mundo inteiro? E queriam às vezes desfazer logo o ponto de interrogação que tinham colado à imagem um do outro, outras vezes demorar-se na descoberta do que estava para lá do que viam e apenas pressentiam nas palavras e nos gestos, pedaços daquele mistério que queriam e não queriam desvendar, verdades misturadas com a imagem fantasiosa que se haviam criado, alimentada pelo desejo e a imaginação. De quando se olhavam demoradamente tentando adivinhar-se; e tinham pudor de assumir o que realmente lhes assaltava o coração e a vida, por temor de poder soar a  vulgaridade ou excesso de atrevimento; de quando acreditavam que tudo era possível, e duvidavam disso em igual proporção.
Depois, com os anos, habituaram-se à melodia do riso e ao som da voz que se lhes fizera real a ponto já a saberem de cor, que lhes ressoava na cabeça nos momentos em que sentiam falta um do outro e se perdiam a delirar como seriam bom voltarem a estar juntos, naquele tempo e espaço em que a urgência de se terem era maior que tudo, e lhes ocupava o corpo, o espírito e a existência toda.
Conheciam todos os meandros do carinho e da sensibilidade de que eram capazes, do abandono e da entrega nos momentos de desejos à solta e corpos confundidos, sem pressas, nem vergonhas, nem limites; do arrepio do toque dos dedos na pele, abrindo caminho por recantos secretos; e de todos as pequenas e grandes loucuras que tornavam tão bons todos os minutos de todas as horas de todos os dias vividos em comum.
E tinham agora a certeza absoluta de que estavam unidos para sempre, sem precisar de juras nem de promessas ou sentimentos de posse, porque era enorme a cumplicidade e a harmonia que tinham criado ao longo do tempo, porque tinham aquela estranha forma de querer-se, diferente, bonita, complexa, terna e insensata, que estava para lá de tudo e de todos,  que era também amparo, colo e aconchego, e que os fazia ser felizes só por saber que se tinham, e por poder existir assim, na mais simples e total liberdade.

segunda-feira, 14 de janeiro de 2019

Cinema cinema cinema



É das minhas grandes paixões. Gosto muito de cinema, mas sempre em grande écran, porque o cinema para mim implica também, já o disse muitas vezes, a magia da sala escura, cheia de gente que não conhecemos. Por isso, ver um filme em casa ou no cinema não é de todo a mesma coisa; e é raro que troque a primeira hipótese pela segunda.
No Inverno, o cartaz é em geral mais aliciante e o tempo também convida preferencialmente a actividades de interior. Por tudo isto, tenho visto muitos filmes nas últimas semanas, muito diferentes entre si.
Os dois últimos, por exemplo: Mary Poppins Returns e On the Basis of Sex. Mary Poppins é talvez a minha mais antiga memória cinematográfica e, com a "Música no Coração", um dos filmes que marcou a minha infância. Não me lembro que idade teria quando o vi pela primeira vez, mas foi decerto um dos primeiros. E se é verdade que não recordo pormenores, também não é menos verdade que nunca mais esqueci Julie Andrews e a sua personagem, nem aquela viagem a um mundo exuberante de fantasia e de imaginação. Tinha, portanto, grande curiosidade quanto a este "regresso", espécie de continuação do anterior. E não me desiludiu, apesar de o ter visto desta vez com  olhos adultos. Mary Poppins volta a descer dos céus e, muitos anos depois, leva-nos de novo para um mundo imaginário, onde os sonhos se misturam com a realidade, num género de musical "à la Disney", no qual Emiliy Blunt se sai muito bem, sem fazer esquecer a personagem original.
On the Bsis of Sex é um filme em tudo distinto, baseado em factos reais, ainda que muitos deles sejam ficcionados, como sempre acontece nestes casos. Felicity Jones interpreta brilhantemente Ruth Bader Ginsberg, num daqueles filmes biografia clássicos, que mostra a inteligência e a coragem de uma mulher, que na América dos anos 50, 60 e 70 teve que se impor para lutar contra a discriminação entre géneros.
Nenhum deles é um filme excepcional. Mas gostei dos dois. Ambos cumprem aquele que é para mim um dos propósitos do cinema: contar-nos uma história, prender a nossa atenção e entreter-nos sem para isso precisar de grandes "efeitos especiais", de barulho, de violência gratuita, ou de "viajar para outras galáxias" e afins.

quarta-feira, 9 de janeiro de 2019

Celebrar Sophia


2019 é o ano do centenário de Sophia de Mello Breyner Andresen, um dos nomes maiores da nossa literatura, ou mesmo da literatura tout court, quanto a mim merecedora de Prémio Nobel (além de todos os que recebeu) muito mais que grande parte dos que foram galardoados. Mas isso agora também não interessa...
As comemorações, que começam daqui a três dias, no próximo Sábado, prolongam-se pelo ano inteiro, terminando no dia 6 de Novembro, quando se cumprem exactamente cem anos do seu nascimento, e incluem actividades diversas, dança, cinema, exposições, colóquios, concertos, em Lisboa, Porto, Roma, Rio de Janeiro.
De acordo com as palavras que constam do Manifesto da Comissão das Comemorações: "(...) comemorar Sophia é lembrá-la em comum. E é celebrar essa funda e desassombrada exaltação da vida, essa aguda e universal consciência do mundo de que a sua poesia dá testemunho para sempre."
Mas não há melhor maneira de a lembrar do que ler, ou reler, a extensa obra que nos deixou; porque é nela que está tudo o que, de certeza, alguma vez nos tocou e em nós deixou marca. E onde é sempre possível, ainda assim, descobrir alguma coisa que não notáramos antes.


Pudesse eu não ter laços nem limites 
Ó vida de mil faces transbordantes
Para responder aos teus convites
Suspensos na surpresa dos  instantes

                                                                 (Sophia de Mello Breyner)

quinta-feira, 3 de janeiro de 2019

Não há amor como o de mãe



Quando eu era pequena, as tatuagens não estavam na moda. Só alguns "chungas" as usavam e eram quase todas iguais: em forma de coração, e com uma inscrição que dizia "amor de Mãe - Angola - 1970".
E por que me lembro disto agora? Por causa do último filme que vi, que é um magnífico exemplo de quanto pode o amor materno.
Ben is back é um filme que trata disso mesmo; é um daqueles filmes que recebemos como uma espécie de "murro no estômago", mas nos envolvem na angústia vivida por todas as personagens naquelas pouco mais de 24 horas que constituem o tempo da narrativa, e nos fazem entender com clareza como pode ser dramática a realidade da dependência para quem a vive por dentro, mas também nos efeitos colaterais para todos os que a vivem de fora, ainda que de perto.
Julia Roberts, que, quanto a mim, tem vindo a melhorar com o tempo, tem aqui um dos seus mais brilhantes e convincentes papéis, no qual está muito bem acompanhada por Lucas Edges - o filho do realizador (Peter Edges) -, que não lhe fica, de modo algum, atrás. E é pela qualidade das suas interpretações enquanto protagonistas deste drama familiar que o filme assume maior intensidade e realismo e, por isso mesmo nos toca, apesar da dureza do seu conteúdo.
Mas para lá de tudo isto, o que aqui verdadeiramente me impressionou foi esse exemplo da grandeza e generosidade infinitas de que só uma mãe é capaz, mesmo quando sente que nem isso chega. Que nunca desiste de lutar, nunca perde a coragem de acreditar, até quando tudo e todos parecem dizer o contrário. E é nos olhos de Julia Roberts (ou de Holly Burns, a personagem), mais do que nas suas palavras, que vemos a inquietação e esperança que são a sua força e a sua humanidade, que lhe dão profundidade e nos emocionam. A ver, pois claro! ...
É pois um pouco por tudo isto que eu, que continuo a ser visceralmente contra tatuagens, acho, também, que só aquelas antigas dos "chungas" sobre o "amor de mãe" se justificam. 

terça-feira, 1 de janeiro de 2019

Todas as horas de todos os dias


Um Ano Novo, já se sabe, traz consigo a ilusão da novidade, de outros desafios, promessas e boas intenções, mesmo se no fundo é apenas mais um dia a juntar a outros dias.
Para não fugir ao habitual, aqui deixo os meus bons propósitos de Ano Novo: que ele traga muita saúde, amor, alegria e música às nossas vidas. Que saibamos fazer de cada hora e de cada dia do ano que agora começa uma novidade boa...

(...)
Não precisa
fazer lista de boas intenções
para arquivá-las na gaveta.
Não precisa chorar arrependido
pelas besteiras consumidas
nem parvamente acreditar
que por decreto de esperança
a partir de Janeiro as coisas mudem
e seja tudo claridade, recompensa
justiça entre os homens e as nações,
liberdade com cheiro e gosto de pão matinal,
direitos respeitados, começando
pelo direito augusto de viver.

Para ganhar um Ano Novo
que mereça este nome,
você, meu caro, tem de merecê-lo,
tem de fazê-lo novo, eu sei que não é fácil,
mas tente, experimente, consciente
É dentro de você que o Ano Novo
(...) espera desde sempre.

                                                       (Carlos Drummond de Andrade)

quarta-feira, 26 de dezembro de 2018

Glória a Deus na Terra e nos Céus


Eu, que tenho uma maneira muito própria de viver a fé, não consigo passar um Natal sem ir à missa, porque é aí que encontro o que julgo ser a verdadeira essência da época.
Há uma magia qualquer no toque dos sinos e nos cânticos, no ritual e no recolhimento silencioso, que me toca e me enche a alma.
Agora que o Natal já passou (felizmente), assim como todo o stress que lhe fomos associando, e que só falta o Ano Novo para a vida retomar a sua habitual normalidade, guardemos a força de acreditar, a esperança de que nunca estaremos derrotados, o aconchego  e a cumplicidade dos afectos que nos reconfortam e  nos acompanham na vida.

O Presépio somos nós
É dentro de nós que Jesus nasce
Dentro de cada idade e estação
Dentro de cada encontro e de cada perda
Dentro do que cresce e do que se derruba
Dentro da pedra e do voo
Dentro do que em nós atravessa a água ou atravessa o fogo
Dentro da viagem e do caminho que sem saída parece

O Presépio somos nós
É dentro de nós que Jesus nasce
Dentro da alegria e da nudez do tempo
Dentro do calor da casa e do relento imprevisto
Dentro do declive e da planura
Dentro da lâmpada e do grito
Dentro da sede e da fonte
Dentro do agora e dentro do eterno

                                                             (José Tolentino de Mendonça)

segunda-feira, 24 de dezembro de 2018

Dúvida existencial


Sou daquelas pessoas que acreditam que ninguém muda, mas pergunto-me muitas vezes se as pessoas podem afinal transformar-se ao longo dos anos, ou se os que julgávamos boas pessoas, e depois verificamos com surpresa que não, é gente que no fundo sempre foi assim e o tempo apenas ajudou a revelar. Mas na verdade também não me preocupo muito com isso...