sexta-feira, 22 de setembro de 2017

Já é Outono


É uma estação maravilhosa, simultaneamente triste e poética. Gosto da alternância entre calor e frio, de passar de roupas leves e frescas para outras mais quentes e macias. Gosto de dias longos e luminosos, como gosto do cheiro a terra molhada depois das primeiras chuvas, ou do som dos pingos a bater nos vidros.
O Outono é tudo isto. E são sabores e  cheiros característicos da época, para além do belíssimo cenário em tons castanhos, dourados, laranja, vermelhos e amarelos que enche as ruas, as praças e os jardins. Há o cheiro das castanhas, o sabor da marmelada, das nozes e das tangerinas, num ambiente que se acelera e acalma. Regressa-se à rotina, mas também ao aconchego reconfortante da casa e à vontade de silêncios, música suave e vozes que nos falam baixinho.
O Outono é feito de conforto e de amparo, como um colo apetecido onde se deita a cabeça para apaziguar o corpo e a alma, ou o calor de um abraço do qual não queremos soltar-nos.
No fundo, o que sabe bem é esta variedade da vida, que se vai modificando quase sem darmos por isso e nos permite ir sentindo a novidade, sempre outra e sempre repetida, na suave tranquilidade do tempo que passa.

domingo, 10 de setembro de 2017

Corações ao alto









Foi a segunda vez que vi e ouvi Salvador Sobral ao vivo. A primeira, há dois meses, impressionara-me bastante. Mas agora foi tão forte e tão fundo o que senti(mos) que tive que esperar quase dois dias para conseguir dizer alguma coisa sobre aquela noite tão bonita. 
Porque Salvador Sobral tem esse dom especial de cantar com a voz e o corpo todo, numa inigualável entrega de corpo e alma a que ninguém pode ficar indiferente. É como se cada instante fosse sempre o primeiro e o último, momento único e irrepetível, na sua imensa singularidade. E com a voz excepcional que Deus lhe deu, a sua capacidade interpretativa e a companhia de excelentes músicos (Júlio Resende, André Rosinha e Bruno Pedroso) consegue(m) fazer de cada encontro, de cada concerto, uma experiência avassaladora, da qual se sai outra pessoa, pelo poder encantatório da música, que ampara, aconchega e aproxima os corações.
Mas este concerto do Estoril foi ainda mais especial e mais bonito que todos os outros. Havia o cenário entre céu e mar; as circunstâncias e os corações brancos erguidos no ar, símbolo(s) de esperança, de afecto e de cumplicidade. A noite estava fria, mas ninguém dava por isso. Havia um nó na garganta de todos. E houve lágrimas e risos, palmas e abraços; e a força de quem se quer bem sem precisar de o dizer em palavras. E, naturalmente, houve muita, muita música. Da boa. 
Por isso, este foi o concerto de todas as emoções. Por isso, naquele abraço apertado que a Luísa deu ao Salvador estava o abraço de todos nós. O amor que, como ele disse, leva consigo "numa caixinha figurativa". É que, quando tudo parece desmoronar-se, sobra o amor. É ele que nos salva. Seja de que tipo for. E foi, também, ou mesmo acima de tudo de amor que se fez aquela festa. 
Vai correr tudo bem... Até já, Salvador.


quarta-feira, 6 de setembro de 2017

Enfim, uma divertidíssima comédia



O filme que Philippe Lacheau realiza e do qual é também o principal protagonista é uma das boas surpresas deste Verão.
"Alibi.com" é, de facto, um filme hilariante, que nos faz passar noventa minutos muito divertidos e dar umas boas gargalhadas diante das mais cómicas situações, que incluem até piadas sobre François Hollande.
O elenco, para mim desconhecido, à excepção de Natahlie Baye,contribui em grande medida para o sucesso desta aventura, meio louca, mas muito bem conseguida. Assim sim...

sexta-feira, 1 de setembro de 2017

Oh là là, c'est la rentrée!


Perto do fim o prazer do corpo molhado estendido ao sol, a volúpia de o deixar tomar conta de cada pedacinho da pele a saber a sal, o cheiro a mar misturado com creme Nívea. E as longas horas de lazer e inacção, em que só os olhos e o pensamento se soltam e vagueiam sem objectivo nem poiso certo.
Porque em Setembro muda tudo. Tapam-se os corpos outra vez, mudam-se os hábitos e as cores. É o mês da rentrée, que encerra em si a magia do recomeço e a melancolia do fim de férias.
Gosto sempre desta época em que sinto verdadeiramente que outro ano está a chegar e que vivo no entusiasmo dos cadernos e livros a cheirar a novo, das canetas prontas a estrear, símbolos e esperança de que tudo é igual e ao mesmo tempo se acredita que poderá ser diferente e melhor ainda.
Hoje, aproveitando os últimos momentos de preguiça, ouvia distraída uma música cuja letra pode muito bem ser o leitmotiv deste regresso e segundo a qual devemos estar atentos a tudo o que de bom e belo está à nossa volta. Que a agitação do quotidiano não venha, pois, "roubar-nos" o espanto e a alegria das coisas simples e boas...

Derrière la saleté
S'étalant devant nous
Derrière les yeux plisés
Et les visages mous
Au-delà de ces mains
Ouvertes ou fermées
Qui se tendent en vain
Ou qui sont poings levés
Plus loin que les frontières
Qui sont des barbelés
Plus loin que la misère
Il nous faut regarder

Il nous faut regarder
Ce qu'il y a de beau
Le ciel gris ou bleuté
Les filles au bord de l'eau
L'ami qu'on sait fidèle
Le soleil de demain
Le vol d'une hirondelle
Le bateau qui revient


(...)
Il nous faut écouter
L'oiseau au fond des bois
Le murmure de l'été
Le sang qui monte en soi
Les berceuses des mères
Les prières des enfants
Et le bruit de la terre
Qui s'endort doucement.

(Jacques Brel)

quarta-feira, 30 de agosto de 2017

Fim de férias


Daqui a nada acabam as noites quentes e quietas, os dias que passam devagar, sem obrigações nem horas marcadas; e regressa a algazarra, a correria, a vida norteada pelos ponteiros do relógio e os toques de campainha(s). Volta o tempo de acordar sem ter dormido tudo, dos gestos repetidos numa rotina rigorosamente cronometrada, de fazer todas as manhãs o mesmo percurso de autocarro, observando as pessoas, na sua maior parte emudecidas e alheadas diante de um écran de telemóvel, e imaginando-lhes as história e as vidas.
Daqui a nada é outra vez Outono, que já se anuncia nos dias que vão ficando mais curtos, o sol há-de tornar-se mais baço e o tempo mais fresco; e virão o vento, a chuva e o frio. Mas com ele virá também a poética nostalgia dos tons dourados que enchem as árvores e o chão; e a vontade de recato, intimidade e aconchego, numa alternância que se sucede e anuncia novos caminhos e outros desafios, tudo sempre igual e ao mesmo tempo sempre distinto.
Daqui a nada volto ao meu quotidiano que se faz à volta das palavras e à aventura inesgotável e imensa de fazer ver como elas podem ser importantes e enfeitiçar-nos, de como cada texto tem uma sonoridade e um ritmo próprios, e de como a forma como isso nos toca pode também transformar-nos e pensar o mundo e conhecê-lo e conhecermo-nos de outra maneira. Vamos a isso!...

terça-feira, 29 de agosto de 2017

Hampstead, ou mais um filme da treta


O Verão, já se sabe, é de uma enorme pobreza quanto a filmes  em cartaz. Mas a imagem de Diane Keaton está para mim ainda de tal maneira colada às boas memórias de "Annie Hall" e de "Manhattan", que achei que mesmo assim valia a pena correr o risco de ir ver "Hampstead", mesmo se o título em português "Nunca é tarde para amar" indiciava já a temática demasiado batida do amor em idade avançada.
A história, baseada num caso verídico, como vem sendo hábito ultimamente, é mais do que previsível: a "tia" infeliz que se encanta com um "bom selvagem" com direito a um cheirinho de ecologia e defesa da vida "em contacto da natureza", para terminar no mais alto estilo do "felizes para sempre."
Enfim, nem Diane Keaton e Brendan Gleeson chegam para salvar o filme, que nunca nos consegue tocar verdadeiramente sob nenhum ponto de vista, e que é francamente muito "poucochinho".
E enquanto se espera que a rentrée traga de volta o bom cinema, o melhor é ir ficando por casa, ou, sei lá, ir ver o mar...

sexta-feira, 18 de agosto de 2017

Vulnerabilidade(s)


Por mais que me custe admiti-lo, a verdade é que na presença de um médico, qualquer que ele seja, me sinto de algum modo intimidada. É inevitável. De todas as vezes, toma-me uma estranha sensação que nem sei explicar bem. Talvez seja a inquietação diante de um veredicto que se espera sempre feliz, o nervoso miudinho que traz o desconforto do que não é certo nem visível, a intuição de que sabem mais do que querem dizer(nos) temendo que não o possamos entender, ou a esperança no bom resultado do que advém dos seus diagnósticos, das suas decisões, do trabalho preciso das suas mãos.
Veja-se o caso do dentista: como podemos não nos sentir diminuídos e especialmente frágeis quando estamos em posição inferior, no sentido literal, com um "guardanapo" ao peito e o médico inclinado sobre a  nossa boca escancarada e cheia de tubos e os mais diversos instrumentos, que nos impedem de dizer o que quer seja? Não me parece que alguém possa sentir-se confortável nesta situação, sempre constrangedora, quase humilhante. Enfim, podia dar outros exemplos, mas não me parece necessário. 
Precisamos dos médicos, hélas, dependemos deles até para grande parte do que é o nosso bem-estar e a nossa saúde (o mais precioso de todos os bens), mas eu não consigo livrar-me desta coisa assim meio infantil de estar sempre a querer fugir deles.