sexta-feira, 11 de outubro de 2019

Acreditar na raça humana


Querendo ou não, tendemos a julgar pelas aparências, a deixar-nos levar por primeiras impressões e opiniões alheias, a separar, duvidar, temer.
Ninguém está imune. Mesmo quem não é desconfiado por natureza, como julgo que será o meu caso, não escapa a fazer juízos de valor e julgamentos apressados de forma sistemática e até leviana.
Mas depois, às vezes, por um imprevisto qualquer, nas voltas da vida, somos agradavelmente surpreendidos, por um gesto, um sinal ou uma acção que fica muito para lá das nossas melhores expectativas. E descobrimos, com alegria e espanto, que ainda há muita "gente boa"; e que a crença na humanidade pode ser redentora.

segunda-feira, 7 de outubro de 2019

Imperdoável



Apesar de não ter conseguido ler todo o artigo, que é daqueles "premium" que tem que se se ser assinante - e, por isso, pagar  - para conseguir ler na íntegra, concordo com o que pude ver do que diz João Marques de Almeida no artigo "Simplesmente ordinário" publicado hoje no "Observador": As imagens de António Costa a discutir com um eleitor não deixam qualquer dúvida: o PM é um homem ordinário, sem a educação adequada ao cargo que ocupa. Para ser o líder político de um país, sobretudo de uma democracia, não basta ser eleito. É necessário ser exemplo. As divergências ideológicas e confronto político são naturais. A dureza e a a frieza que a luta pelo poder exigem são aceitáveis. Mas a ordinarice em público não pode ser desculpada. (...)
Também a mim me parece que aquela atitude não tem justificação, e que os argumentos utilizados - aquela coisa do "também sou humano" e o eterno dito popular, que vai servindo para tudo e mais alguma coisa, "quem não se sente não é filho de bom gente" - não são suficientes. Não interessa, para o caso, se era verdade ou mentira o que disse o velhinho, nem se ele era ex-autarca do CDS, ou quais as suas motivações, ou intenções.
Nada, mesmo nada, legitima aquela reacção excessiva e desproporcionada. E depois, quem tem nível e classe tem-nos em todas as circunstâncias da vida. A quem não os tem, facilmente "estala o verniz"... Foi o caso. 

quarta-feira, 2 de outubro de 2019

A tirania do Inglês


Que os Portugueses, que são um povo subserviente e parolamente embasbacado por tudo o que é do "estrangeiro", se deixem dominar por esta tendência avassaladora de imposição da língua inglesa nos mais diversos domínios não me espanta. Não se trata apenas da intromissão de palavras inglesas na linguagem corrente, ou nas legendas pirosas das fotografias do Instagram e do Facebook, mas de uma onda mais vasta, e até preocupante, que faz com que em muitas universidades portuguesas as aulas já sejam dadas apenas em inglês, e se tente alargar agora a "moda" ao ensino secundário, pelo menos em alguns colégios "armados ao pingarelho".
A mim dá-me vontade de rir tanta preocupação com o domínio de uma língua que não é a nossa, quando a maior parte dos seus falantes tem um conhecimento incipiente ou medíocre da sua língua materna, não sendo por isso capaz de estruturar o pensamento e/ou ter uma consistente visão do mundo. 
Mas o que foi para mim verdadeiramente chocante, foi constatar que até França, considerado um país absolutamente patriota no bom e no mau sentido, com um povo demasiado orgulhoso da sua língua e civilização, se deixou levar por este irritante hábito, que nem a globalização justifica. 
Hoje, ao contrário do que se passava ainda há poucos anos, em qualquer lugar francês mais turístico as pessoas dirigem-se-nos à partida em inglês; e só quando percebem que falamos francês mudam para a sua língua, quando deveria ser exactamente o oposto. 
Questionado sobre esta novidade absurda, um francês disse-me que em cada dez pessoas que os visitam, oito não falam francês. A justificação não me convence. Na verdade, seja por bazófia ou por apatia, até eles acabam por acomodar-se  ao caminho mais fácil. E dá-me verdadeiro asco esta espécie de generalização que torna tudo tão maçador e bem mais desinteressante, pois é a diversidade de cada língua e a mundividência que lhe está subjacente que melhor contribuem para o enriquecimento próprio e alheio, e justificam, no limite, o prazer de conhecer o que é diferente.
Neste aspecto como em muitos outros, tiro o meu chapéu aos espanhóis, que continuam a defender a sua língua e a sua cultura com unhas e dentes, sem querer saber do que fazem os outros, que é como devia ser sempre!

quarta-feira, 18 de setembro de 2019

Modas e manias



Contrariamente à maior parte das mulheres, não tenho a mania dos sapatos, embora reconheça que o que calçamos, como o que vestimos, diz muito de nós. Não sou, por isso, uma "coleccionadora", o que talvez se explique pelo facto de para mim os pés serem uma das partes mais feias do corpo. Prefiro, pois, as malas aos sapatos, embora tanto num caso como noutro prefira a qualidade à quantidade, pelo que abomino as imitações de boas marcas. É um dos exemplos em que considero que vale mais menos e melhor que muito, mas de má qualidade.
Também não consigo aderir de modo algum às últimas tendências de unhas, com relevos, cores e texturas de toda a espécie, mais pirosas ou mais extravagantes e avant-garde, matéria na qual Rosalía, a cantora espanhola da moda, é uma autêntica especialista. São pouco práticas, antes de mais, e não têm nada a ver comigo, nem com o meu estilo ou gosto. Mantenho-me, então, no que é mais clássico - nada de unhas quadradas ou em bico, nem com três metros, mas antes arredondadas, em tons neutros ou nos eternos brancos, vermelhos, bordeaux, pretos, - que é o que é sempre bonito, acho eu.

quinta-feira, 12 de setembro de 2019

Pessoas Inteligentes


Paulo Portas é das pessoas mais brilhantes e cultas que conheço. E tem, além disso, sentido de humor e sensibilidade, que também são coisas que muito prezo.
Amado e odiado em doses quase iguais, como é próprio de quem se destaca num país pequenininho e medíocre a todos os níveis, é uma pessoa que admiro e de quem gosto muito. Ainda por cima é filho da minha querida Helena Sacadura Cabral, a quem me ligam laços de profunda amizade, e que é uma daquelas pessoas especiais que, quando chega à nossa vida parece ter estado nela desde sempre. Dir-se-ia, neste caso, que "quem sai aos seus..."
Hoje, o Paulo faz 57 anos e estão ambos de parabéns, assim como todos os que, como eu, gostam muito deles e que, por isso, fazem deste dia uma festa.
Ah, como eu gosto de pessoas inteligentes...

(Fotografia de Isabel Santiago Henriques, acho eu)

quarta-feira, 11 de setembro de 2019

Ases do Volante II


Não sei se ando agora mais atenta ao trânsito, ou se é o regresso de férias que dita as autênticas barbaridades a que tenho assistido nos últimos dias. Já não falo da velocidade a que se conduz na cidade, nem dos que passam sinais vermelhos descaradamente. (O típico numa passadeira de peões é que quando o sinal fica verde para estes, passam ainda uns seis a dez carros antes que se possa atravessar em relativa segurança). 
E como se isto não fosse já surpreendente, assisti nos últimos dias a uma coisa ainda mais extraordinária: um carro que seguia na faixa da esquerda fez uma ultrapassagem pela direita, atravessando-se sem problema na frente de um autocarro para mudar de direcção. E este fenómeno inacreditável - até para mim que não tenho carta de condução (ou se calhar por isso mesmo) - aconteceu na mesma semana pelo menos duas vezes, que eu tenha dado por isso.
Não admira, pois, que o número de acidentes não pare de aumentar sobretudo nos dois últimos anos. Em 2018, ao que parece, houve 132 mil acidentes, com um número de mortos e feridos também a crescer. 
Mas, com o que tenho visto, o que me admira é que não haja ainda mais. Enfim, há cada vez mais gente muito apressada, que considera o seu tempo  e a sua vida muito mais importantes e urgentes que os de todas as outras pessoas. Ou não fosse este o país dos "chicos espertos"...

terça-feira, 10 de setembro de 2019

Mais do mesmo

Entre hoje e Sexta-feira começa oficialmente mais um ano lectivo em todas as escolas do país. Por estes dias, andam todos os professores que conheço (e são muitos) em infindáveis reuniões que, como quase sempre acontece, não servem para coisa nenhuma. É um mau presságio. Mas é sempre assim...
É certo que o novo ano tem que ser minimamente preparado, mas também é verdade que se perde muito tempo e energia com o que não faz sentido nem é necessário, apenas porque sim; porque é "o costume".
São estas pequenas (e grandes) coisas que fazem com que mesmo quem gosta muito da Escola, como eu, e fez dela toda a sua vida, tenha vontade de se afastar. E não deixa de ser sintomático que, no início de mais um ano, que devia ser cheio de esperança, ilusão e novidade, ninguém tenha verdadeiramente vontade de regressar. 
Por isso, mais do que tomar medidas parvas, mais do que insistir no que já se sabe que não serve para nada a não ser acumular cansaços e esgotar-se em conversas estéreis e em reuniões tão longas quanto improdutivas, melhor seria procurar fazer da Escola um espaço onde se privilegiasse aquilo que referiu Miguel Tamen, o Director da Faculdade de Letras de Lisboa, no seu discurso de boas-vindas: ter todo o tempo para ler, escrever, pensar, aprender.