segunda-feira, 27 de janeiro de 2020

Maravilhas do país profundo





Às vezes também descobrimos que afinal, muito perto de nós, há lugares plenos de magia e encantamento, os quais nos permitem afastar-nos um pouco das rotinas quotidianas, ouvir os pássaros cantar, encher os olhos de calma e de verde, recuperar forças, serenar.
Foi o que me aconteceu por estes dias, nesta aldeia do distrito de Leiria, perdida no meio de montes e vales, na qual as antigas casas foram reconstruídas em pedra e madeira, mantendo mais ou menos o que terão sido na origem, e que inclui ainda um percurso pedestre preparado para invisuais a que chamaram "ecoparque sensorial", com interessantes "estações" lúdicas e interactivas.
Diz-se que por estes caminhos passaram, em 1385, as tropas chefiadas por D. Nuno Álvares Pereira a caminho de Aljubarrota, tal como se diz que os ursos costumavam vir beber a umas "pias", originadas por formações rochosas existentes no local, o que deu o nome à terra.
Mas para lá de todas as "lendas e narrativas", este é um lugar simples e maravilhoso, ideal para quem deseja novidade, ou apenas um pouco de sossego.
E eu, que sou profundamente citadina, e procuro muito fora daqui o que possa encher-me os olhos e os sentidos, e tocar-me de algum modo, deslumbro-me, de igual modo, com que é nosso e não menos arrebatador.

segunda-feira, 20 de janeiro de 2020

Lugares da minha vida: o Pedro Nunes





Foi quando eu tinha dezoito anos e ainda não sabia muito bem o que queria fazer na vida, que entrei aqui pela primeira vez. Para fazer um exame de Português do "Propedêutico" (ironias do destino...)
Desse dia longínquo, guardo uma memória difusa, mas não posso esquecer o impacto que teve em mim aquele edifício enorme e imponente, carregadinho de tradição e de história(s). Para mim, que tinha andado num liceu "moderno", era já na época uma referência: na verdade quase todos os meus amigos se dividiam entre o Liceu Francês e o Pedro Nunes, e contavam as mais mirabolantes histórias, divertidas quase todas e, sem dúvida, marcantes para quem as viveu.
Trata-se, de facto, de uma das mais conceituadas escola da capital, que conserva esse estatuto até hoje, e por onde passaram, ao longo dos anos, alunos e professores que são, ou foram, figuras de relevo na sociedade portuguesa.
Entretanto, a vida e os anos foram passando, e eu optei por fazer da Escola a minha vida. Dediquei-me a ela de alma e coração, apaixonei-me deveras pelas palavras e pelos poetas, pelas escrita e pela leitura, e procurei passar a outros essa paixão das letras; e tentar mostrar-lhes como a arte nos pode modificar a nós mesmos e pode, de igual modo, modificar o mundo e a vida. Não foi um caminho fácil, mas eu adoro desafios; e fui procurando, dentro de medida do possível, fazer sempre mais e melhor, dando-me inteira àquilo que eu acreditava ser bom e verdadeiro.
Ao fim de mais de trinta anos, achei que o meu percurso enquanto professora teria de passar obrigatoriamente por essa Escola e fazer parte dela passou a ser um sonho, que em 2015 se tornou realidade.
Conhecer o Pedro Nunes pelo lado de dentro foi simultaneamente surpresa e desilusão: é um espaço lindo e enorme, onde impera em geral o bom gosto, que é capaz de conjugar harmoniosamente a tradição e a modernidade,  mas não tão excepcional como se crê do lado de fora - e às vezes também do lado de dentro - , porque não há lugares perfeitos, embora tudo o que bom e mau por lá se passa é também o que vamos construindo em cada dia, e do qual cada um de nós é, em parte, responsável. Dito isto, hoje, já tenho em relação ao Pedro Nunes aquele sentimento de pertença que me permite dizer "o meu liceu". E continuo a achar que de todas as escolas possíveis, esta é a que tem mais a ver comigo. Por isso não penso "mudar-me". E mesmo se hoje estou um pouco mais "longe", é  impossível passar por esta data sem a assinalar, porque não exagero se digo que o Liceu Pedro Nunes faz parte do meu passado, do meu presente, e do meu futuro, também. Com todas as sua qualidades e defeitos, são 114 anos que se cumprem. É imenso!...
Por lá, o dia de hoje terá sido de festa, como de costume, com as mais diversas actividades, organizadas conjuntamente por alunos e professores, que incluem filmes, exposições, torneios, sessões de poesia, conferências, laboratórios abertos, jogos, workshops, e por onde toda a gente circula em total liberdade, vivendo a escola de uma maneira diferente.
Por mim, vou desfrutando enquanto posso desta vida mais tranquila, apesar de menos desafiante, e vou tendo em relação a este espaço sentimentos contraditórios, de querer e não querer voltar, porque se é verdade que é ali que eu sinto que pertenço, também há o desencanto de uma profissão à qual se deu tudo e  pouco se recebeu em troca. É pena!...

quinta-feira, 16 de janeiro de 2020

Tempo Perdido


Vivemos apressados, correndo daqui para ali, muitas vezes sem sequer pensar no que nos leva a correr tanto e a viver assim. Embrenhados em diversas rotinas, respondendo a todo o tipo de solicitações, deixamos escoar as horas e os dias, passando muitas vezes ao lado do essencial.
E queixamo-nos; gostamos muito de nos queixar. Não há quem nunca se tenha justificado com a "falta de tempo" para não fazer, ir, ou estar onde deveria, poderia, gostaria.
Relembramos com saudade e nostalgia os tempos de infância em que o Verão parecia não ter fim e a vida  não era mais que despreocupação e fantasia. E ansiamos por um futuro qualquer, seja férias, feriado ou fim de semana, que nos devolva essa sensação de quietude e desaceleração, que parece fazer o tempo crescer e nos permite ver e sentir tudo melhor.
Mas, no fundo, (quase) tudo depende apenas de nós. Eu costumo dizer que "temos sempre tempo para aquilo que queremos". E é verdade. Trata-se de escolher o que é mais importante, e de ser capaz de deixar-se levar, sem pesos na consciência ou excessivo "sentido das obrigações". Não é ser irresponsável, claro, é antes estar atento ao que é mais relevante para cada um e não dar tanto de si ao que é insignificante.
Viver cada momento em plenitude total é, naturalmente, utopia pura, mas eu, que sou obcecada com o tempo e que me deslumbro com o seu carácter passageiro, numa difusa efemeridade que torna cada momento único e irrepetível, dou comigo a pensar, muitas vezes, que gastamos demasiado tempo e espaço de vida com os "afazeres" quotidianos e com questões menores, em vez de nos dedicarmos mais à companhia dos que amamos, à emoção diante da beleza do mundo, a conversas boas noite fora, a silêncios cúmplices e a afectos desmedidos, a ouvir música em sossego, a gestos e palavras de ternura e a tudo o que a vida tem de melhor.

segunda-feira, 13 de janeiro de 2020

Pequenos nadas que são tudo


Continuo sem entender que haja quem não tome banho todas as manhãs. E basta frequentar os transportes públicos para nos apercebermos de que há um número considerável de gente que faz esta escolha. O argumento do banho na véspera à noite não me  convence de todo, já para não falar dos que optam por não tomar banho tout court, com sei lá que justificações, do frio à poupança de água e gás, ou, decerto, pela simples ausência dos mais básicos hábitos de higiene, para mal dos olfactos alheios.
O banho matinal é para mim um daqueles momentos simples e bons que fazem o meu dia. Há outros: o prazer de trocar de roupa ao chegar a casa; de me estender no sofá e dedicar-me à preguiça; de apanhar sol; de ouvir chamar pelo meu nome; e muitos, muitos outros...
Enfim, são estas pequenas e aparentemente banais circunstâncias do quotidiano que podem bastar para fazer toda a diferença.
 E, voltando à questão inicial, para além do bem-estar que provoca o momento do banho, não é tão mais sedutora uma pessoa lavadinha e a cheirar bem?

terça-feira, 7 de janeiro de 2020

Sobre o SNS: o que não faz sentido


Muito se tem falado nos últimos tempos sobre isto. Pelas piores razões: falta de recursos de todo o tipo, falta de gestão e de organização, com prejuízo óbvio de quem tem que recorrer a estes serviços, cada vez mais caóticos e à beira da ruptura total.
Mas para além de tudo isto, há a questão humana. O que eu não consigo entender é que por  maior que seja a falta de condições de trabalho, o lado humano não seja considerado. Que se esqueça que as pessoas que vão ao hospital são as mais vulneráveis de todas, e se encontram em situação de extrema fragilidade física e emocional. Assim, por maior que seja o volume de trabalho e o stress, é impensável que se deixe as pessoas horas a fio num canto qualquer à espera de ser atendidas, sem uma palavra, um gesto de atenção ou de cuidado, um simples olhar.
Mais confusão ainda me fazem as diferenças gritantes e antagónicas entre diferentes hospitais públicos.
Por motivos que não vêm ao caso, tenho frequentado nos últimos tempos com relativa regularidade os serviços de urgência do Hospital Amadora-Sintra e o que tenho assistido e vivido por lá é impossível de descrever em palavras. Diria que está próximo do que pode ser, para mim, uma "descida aos infernos". Mas para além da sobrelotação, da confusão e da agitação generalizadas, da falta de condições aos mais diversos níveis,  - que vão desde não haver sequer uma cadeira para os acompanhantes dos doentes que estão nas urgências e que são obrigados a ficar horas infinitas de pé, à desatenção total aos doentes que esperam sabe Deus quanto tempo, apenas para ser atendidos, -  o que mais me impressiona é a forma como as pessoas são tratadas, ou antes, "destratadas", pela quase esmagadora maioria dos profissionais que ali trabalham e que incluem médicos, enfermeiros, auxiliares, administrativos, seguranças, até: não ouvem as pessoas, não lhes dirigem a palavra, nem o olhar, e funcionam como se tudo aquilo fosse uma tremenda chatice. Com excepções, naturalmente, mas muito poucas. Enfim, já lá estive meia dúzia de vezes e aquilo a que assisti é verdadeiramente inconcebível.
Ora, no último fim de semana, e perante a necessidade de nova deslocação às urgências, deu-se a "feliz" casualidade de este hospital estar demasiado sobrecarregado e os doentes serem, por isso, deslocados para outros serviços de urgência. Pude, deste modo, conhecer o atendimento do Hospital de São Francisco Xavier, que seria sempre a minha primeira escolha, caso me fosse permitido optar pelo que mais desejo. 
Na verdade, parecia que estava noutro país. A diferença entre um e outro é tão antagónica como a diferença entre o  mundo civilizado e a selva. Aqui, apesar da confusão e da sobrelotação, que também existia, as pessoas eram tratadas com a humanidade que se esperaria que houvesse sempre, e independentemente do tempo que tinham de aguardar, não estavam "abandonadas a um canto", mas antes permanentemente cuidadas por todos os profissionais que ali trabalham, sempre com palavras amáveis, paciência, sorrisos, atenção. E com a dignidade que deveria ser obrigatória em todo o lado.
Parece-me pois muito estranho que dois hospitais públicos, que pertencem ao mesmo Serviço Nacional de Saúde, do mesmo país, possam funcionar de modo tão diametralmente oposto. Mas o que é ainda mais revoltante é que a pessoa que é conduzida ao hospital através de uma ambulância do INEM não possa escolher o hospital onde prefere ser atendida, e tenha de se sujeitar ao que pertence à sua "área", a qual não tem sequer em conta o hospital que fica mais próximo em termos de distância quilométrica, mas sim o concelho onde se está.
Nada disto faz sentido, nem o facto de não nos restar mais do que "rezar a todos os santinhos" para que da próxima vez que seja necessário ir à urgência haja novo "plano de contingência", que é a única maneira de "fugir" do que não se quer, e poder ser atendido como se espera e se merece.
Inacreditável!...

sexta-feira, 3 de janeiro de 2020

Prodígios


A música espanhola, já se sabe, é uma das minhas grandes paixões. Mas Rosalía já não é só de Espanha. É do mundo. É o maior fenómeno da música popular dos últimos vinte anos, com um sucesso fulgurante e um sem fim de prémios. Em pouco mais de dois anos, impôs-se com as suas canções, a sua belíssima voz e a sua imagem, que misturam tradição e inovação, autenticidade e personalidade vincada, bom gosto, talento  e diversidade em todas as frentes. 
Obrigatório conhecer e acompanhar-lhe o percurso. Eu gosto muito!..


segunda-feira, 30 de dezembro de 2019

Mães e filhas



Era improvável ir ver este filme, mas ainda bem que aconteceu. O título, Mon bébé, não me seduzia particularmente e, com excepção de Sandrine Kimberlain, a protagonista, nem o restante elenco, nem a realizadora, Lisa Azuelos, me diziam alguma coisa.
A história retrata a relação cúmplice de uma mãe e de uma filha em fim de adolescência, prestes a "fazer-se à vida". E aquilo que poderia ser uma imensa xaropada, com todos os ingredientes lamechas e dramáticos que conseguimos imaginar, revela-se afinal uma hilariante comédia, simultaneamente divertida e tocante, sobre a qual cada um de nós tem a sua própria história e pode pois rever-se em algumas passagens.
Nota muito alta para o excelente papel de Sandrine Kimberlain em mãe simultaneamente preocupada, compreensiva e ternurenta, cheia de defeitos e qualidades, e para a verosímil cumplicidade que consegue estabelecer com Thais Alessandrin, a filha, que é, de resto, filha da própria realizadora na vida real.
Na verdade, ao contrário das minhas baixas expectativas iniciais, gostei bastante do filme. Mas talvez este seja um assunto que me diz muito, por estar numa fase da vida em que "mãe" é sinónimo de amor sem fim, de colo e de porto de abrigo, como sempre foi, mas também de preocupação constante, de fragilidade, de mimos vários, de amparo em fim de caminho.