quarta-feira, 3 de junho de 2020

O mês de Junho



Depois de Março, este é o mês de que mais gosto. Por ser o mês de Lisboa, da minha mãe e de outras pessoas de quem gosto muito. Porque anuncia o Verão e tem sabor a despreocupação e a liberdade. Pelas longas tardes de brisa amena a fazer apetecer ficar na rua, de manjericos e de sardinhas assadas, de passeios à beira-Tejo e fins de tarde a olhar o mar. E o mundo torna-se-me infinitamente mais belo.
Se não fosse pandemia, que veio alterar tudo, estaria a poucos dias de entrar de férias. Este ano, porém, tudo é diferente. Faltarão os arraiais e a algazarra tão típica destes dias e da minha cidade, reinventaremos festejos, mas não deixaremos de soltar o cabelo ao vento, de tentar ser felizes e despreocupados, nem de querer-nos com loucura.

sábado, 30 de maio de 2020

Fica para o ano




Por ser Pentecostes, este seria, em circunstâncias normais, o fim de semana do Rocío. Se não fosse a pandemia, haveria, como sempre, milhares de romeiros pelos caminhos de areia e pó, as tradicionais apresentações à Virgem das 125 hermandades, os vivas à Blanca Paloma, a emoção da salve entoada por um coro de vozes que se unem pela mesmo motivo, e aquela alegria desbordante e inesgotável, noite e dia, o som da guitarra, da flauta, do tamboril e das palmas, as sevilhanas, os trajes de flamenca, e tudo que que faz parte da festa e a torna tão singular, e se vive por dentro, sem se conseguir explicar.
Este ano, eu estaria na Romaria pela décima terceira vez. Em vinte anos, só faltei sete vezes. E quando não vou, invade-me a imensa nostalgia de saber que era ali que deveria estar.
Este ano é diferente de todos. Vive-se tudo mas de modo muito distinto, desde a distância, fazendo mais sentido que nunca o que diz a canção: Rocío es todo el año/ no solo la romería/ hay que soñar con la Virgen/ a todas las horas del día. 
Por isso, para todos os que, como eu, vivem intensamente este momento, mantêm-se a força e a motivação de sempre, apesar de tudoPor isso, as ruas  de Almonte e do Rocío por onde a Virgem haveria de ter passado no seu regresso à aldeia, estão engalanadas com flores no âmbito da iniciativa "Rocío de Luz", da responsabilidade da irmandade matriz. E haverá orações e plegarias, a mesma fé e devoção, a missa de Pentecostes.
O Rocío é um lugar único, pleno de magia e encantamento, onde sempre queremos voltar. E enquanto esperamos pelo próximo regresso à quietude da marisma, enquanto sonhamos voltar a estar em silêncio diante da Virgem, ou no tumulto alvoroçado e aparatoso da Romaria, entre risos, lágrimas incontidas e emoções à flor da pele, este ano cabe-nos viver o mais incomum de todos os Rocíos, sem carroças, sem sinos, sem rebujitos, mas entre promessas e gratidão, e sabendo que é verdade o que tantas vezes repetimos baixinho: muy dentro del corazón/, de una forma permanente/, a la Virgen del Rocío/ Siempre la tengo presente.


segunda-feira, 25 de maio de 2020

(Re)encontro



A cada ano é um prazer renovado, ainda que sempre repetido. O mar é uma das minhas grandes paixões. Talvez por ter nascido e vivido sempre perto dele. Ou apenas porque sim. Dizem que as paixões não têm que explicar-se; e eu concordo. Na verdade preciso dele e do que me faz sentir quando me sento em silêncio na sua frente e o olho demoradamente, sem pensar em nada. Ou quando fecho os olhos e apenas o ouço, no seu vaivém incessante e cadenciado. E me deixo ir nessa meia sonolência contemplativa e extasiada. E solto os sonhos e deixo a alma e o corpo serenar.
É junto do mar que mais me sinto em harmonia com o universo e me reencontro e reconcilio comigo e com o mundo. Por isso, quando em cada ano o visito pela primeira vez, sinto um enorme prazer tranquilo, como se todas as coisas voltassem ao seu lugar.
O mar reequilibra-me e seduz-me, atrai-me e mete-me medo, em tudo o que significa de paz e de tumulto, de caos e de harmonia, num encantamento impetuoso e desmedido, provocando em mim uma vaga de bem -estar e de prazer  que, apesar de repetida, nunca é igual; e que apetece prolongar sem fim.
É sempre assim. Mas este ano, com o confinamento e a solidão que lhe está associada, poder estar de novo diante do mar, ou entrar nele e deixar-me envolver, é uma ainda mais maravilhosa e indizível sensação de liberdade.

domingo, 24 de maio de 2020

A palavra exacta


Elas olham para o espelho muito tempo. Elas choram. Elas suspiram por um rapaz aloirado, por duas travessas para o cabelo cravejadas de pedrinhas, um anel com pérola (...) Elas sonham três noites a fio com um homem que só viram de relance à porta do café. Elas trazem no saco das compras uma pequena caixa de plástico que serve para pintar a borda dos olhos de azul. (...) Elas namoram muito. Elas namoram pouco. Elas não dormem a pensar em pequenas cortinas com folhos. Elas arrancam os primeiros cabelos brancos com uma pinça comprada na drogaria. Elas gritam a despropósito e abraçam-se aos filhos acabados de sovar. Elas andam na vida sem a mãe saber, por mais três vestidos e um par de botas. Elas pagam a letra da moto ao que lhes bate. Elas não falam dessas coisas. Elas chamam de noite nomes que não vêm. Elas ficam absortas com a mola da roupa entre os dentes a olhar o gato sentado no telhado entre as sardinheiras. Elas queriam outra coisa.
                                                                                                       
 ( Maria Velho da Costa, Cravo) 


Famosa pelas Novas Cartas Portuguesas, publicado em 1972 juntamente com Maria Teresa Horta e Maria Isabel Barreno, Maria Velho da Costa ficou para sempre com o epíteto de uma das "Três Marias" e associada a uma escrita mais ou menos revolucionária.
Com vários prémios recebidos, entre os quais se contam o Prémio Camões, em 2002, e o Grande Prémio Vida Literária da Associação Portuguesa de Escritores, em 2013, a sua obra tem a ver com a busca incessante da palavra, comum a todos os grandes escritores. Ela própria definiria a literatura como "a palavra no tempo, na história, no apelo do entusiasmo do que pode ser lido ou ouvido, a busca da beleza ou da exactidão ou da graça do sentir." E do livro diria que "é acto lúdico contra vários horrores. Um acto de riso". 
Talvez injustamente esquecida, como tantas vezes acontece, Maria Velho da Costa é um nome singular da literatura portuguesa. Faria 82 anos a 26 de Junho, no mesmo dia da minha mãe. 
Ficamos todos um pouco mais pobres.

terça-feira, 19 de maio de 2020

Os dias da "nova normalidade"




São tempos estranhos os que vivemos. Depois de cerca de dois meses fechados em casa, isolados do resto do mundo e, muitas vezes, também, longe dos que mais amamos, num demorado e mais ou menos penoso confinamento - uma das palavras que aprendemos à força - a vida vai retomando a normalidade possível, embora nada seja ainda como dantes. É mais a "anormalidade" possível: andamos na rua com a cara tapada, mantemo-nos à distância de todos incluindo os que tanto queríamos abraçar, e vamos vivendo assim, a meio-gás, sentindo falta de tudo e mais alguma coisa, do que nos parecia óbvio e inquestionável, ou tão natural como respirar. 
E assim vamos "desconfinando" aos poucos, em segurança, a acreditar no que nos dizem, e sempre com o sabor agridoce de tudo aquilo de que fomos de repente privados, e que tarda em voltar. 
Por mim, enquanto espero pelos beijos, os abraços e os colos, pelo toque da pele e pelas mãos que seguram outras mãos, pelas viagens e passeios sem limites nem fronteiras, pelo cinema e pelos concertos ao vivo, pela Romaria do Rocío, pela possibilidade de ir a Espanha e a França sempre que me apetecer, por andar sem máscara e pela proximidade sem medo, consolo-me com tudo o que tenho de bom, e é tanto: a saúde, a música, as flores, a Primavera, alheia a "bichos maus", e o mar,  imensamente azul, fresco e  apaziguante, aqui mesmo ao pé para nos deslumbrar.

quinta-feira, 7 de maio de 2020

Oito anos




Que este meu blogue chegaria hoje aos oito anos era uma coisa que eu não imaginava de modo algum naquele dia 7 de Maio de 2012, quando decidi, hesitante e desajeitada, aventurar-me por este mundo, que eu desconhecia em absoluto, sem supor que isto pudesse durar tanto, ou chegar tão longe.
Mil duzentas e setenta e duas publicações, muitos dias e muitas horas depois, Isto e Aquilo (o nome que escolhi de forma um pouco precipitada) continua vivo; e mesmo se, com os anos, o entusiasmo inicial esmoreceu um pouco, continuo a gostar de ir escrevendo por aqui, sem qualquer pretensão nem objectivo que não seja a paixão das palavras e a vontade de dizer o que penso e sinto.
Ao longo do tempo, foi maior e melhor tudo o que aprendi e me diverti do que o lado mau que estas coisas também têm, como tudo na vida. Claro que recebi comentários ofensivos, os quais sempre ignorei como mereciam, e guardo apenas as coisas boas que esta experiência trouxe à minha vida, e que são muitíssimas e profundamente compensadoras.
Às vezes ainda sinto que ponho a alma demasiado a nu, mas ao mesmo tempo também isso me vai importando cada vez menos, porque se é verdade que o que escrevemos não é inteiramente autobiográfico como muitos tendem a pensar, também é verdade que revelamos muito do que somos e pensamos através da escrita. Mas a vida e os anos têm-me ensinado a ser cada vez menos vulnerável aos olhares, opiniões e pensamentos alheios, sobretudo de quem não conheço, ou não me importa.
Oito anos é muito tempo. É o meu número preferido, logo a seguir ao "meu" 7. Dizem que o número oito simboliza o ilimitado, o que não tem início nem fim; e também o equilíbrio e a totalidade. Por isso, ou apenas porque sim, vou continuando por aqui enquanto me apetecer, com esta janela aberta por onde pode espreitar quem quiser, e onde será sempre bem-vindo "quem vier por bem". E quem não, pois pode seguir caminho, que não vale a pena perder tempo, nem energia, com o que não nos interessa.
A todos os que nestes oito anos passaram por aqui, silenciosamente ou com voz, aos que me leram, apoiaram, incentivaram, concordaram, discordaram, ou que quer que seja, muito obrigada.

domingo, 3 de maio de 2020

A minha é melhor que a tua


Por causa da pandemia, esta foi a primeira vez que passámos separadas este dia a que tu sempre deste tanta importância. Ser mãe sempre foi a tua melhor vitória, aquilo a que te dedicaste de alma e coração, dando o melhor de ti em cada instante. Por isso nos sabia tão bem celebrar o tempo de estarmos juntas e todos os gestos, conversas, risos e cumplicidades de mãe e filha, que ninguém mais pode entender.
Hoje, não te levei flores da florista "Malmequer", como aconteceu a vida toda, nem demos beijinhos, nem apertámos as mãos, nem dissemos com os olhos tudo o que não chega às palavras. E até aquela vídeo chamada - única maneira de nos vermos agora - nos soube a pouco. Por estes dias, imagino como sentirás a falta da minha voz e da minha presença, dos meus mimos e das minha parvoíces, e até das minhas canções desafinadas, que só tu consegues suportar. 
Eu nunca saberei agradecer-te tanto que fizeste, e ainda fazes, por mim. O teu exemplo desde logo. A tua garra, energia e boa disposição. A alegria e a superação. O teu coração enorme, sempre ao serviço dos outros, sem nunca se deixar subjugar. E o teu colo enorme, meu refúgio, amparo e força de todas as horas boas e más, mesmo quando recorri a ele em lágrimas e em silêncio e tu percebeste tudo sem eu ter que contar.
Mas, no fundo, somos felizes por nos termos e por, no coração, continuarmos sempre agarradinhas uma à outra, a dar-nos mimos, e colo, e energias boas.
Em circunstâncias normais, as pessoas tendem a achar que têm a "melhor mãe do mundo". Peço desculpa, mas a melhor é mesmo a minha. Até com as sua fraquezas e vulnerabilidades. Ou, se calhar, também por causa delas. 
E apesar de, este ano, as comemorações terem sido totalmente "atípicas", apesar de não nos termos podido ver fisicamente, o mais importante de tudo é o que guardamos no coração. E isso, está para lá de todas as contingências e condicionalismos; e será nosso para sempre.