segunda-feira, 17 de julho de 2017

Diferenças


Em Paris não se chega a esperar cinco minutos por um transporte público. As pessoas não andam todas agarradas aos telemóveis, alheias ao que se passa à sua volta. No metro, por exemplo, há muita gente a ler, ou simplesmente a olhar, sem fazer nada. Não há cães à solta, nem gente a passear cães por todo o lado, nem cócó de cão nos passeios e nos jardins. Há quem ande de bicicleta, claro, mas não há a paranóia das ciclovias.
Serão estas e tantas outras diferenças que distinguem o mundo civilizado do nosso. E será não apenas por causa de tudo isto, mas também por coisas destas que eu gosto tanto desta cidade.

domingo, 9 de julho de 2017

Paris sera toujours Paris



Le soleil qui se lève 
Et caresse les toits
Et c'est Paris le jour
La Seine qui se promène 
Et me guide du doigt
Et c'est Paris toujours
Et mon coeur qui s'arrête
Sur ton coeur qui sourit
Et c'est Paris bonjour
Et ta main dans ma main 
Qui me dit déjà oui
Et c'est Paris l'amour
(...)
Loin des yeux loin du coeur
Chassée du paradis
Et c'est Paris chagrin
(...)
Et toi qui m'attends là
Et tout qui recommence
Et c'est Paris je reviens

                            (Jacques Brel)


De tempos a tempos é isto: uma saudade enorme e a vontade permanente de voltar. Depois, deixar-me encantar de novo, como se fosse a primeira vez, com a luz do entardecer no Luxembourg, com a vista de Montmartre, os passeios no Quartier Latin, ou a doce tranquilidade da Place des Vosges; e com os telhados e o rio, os cafés e as praças, com o ritmo próprio da cidade, que mistura, com requinte e sabedoria, arte e cultura, boémia e sossego, raffinement e charme. E com a língua, essa língua que é para mim a mais bonita do mundo...

segunda-feira, 3 de julho de 2017

Um músico fora do comum


Quem me conhece sabe como eu gosto de bons concertos e como, ao longo dos anos, me têm empolgado, ao vivo, tantos músicos de que gosto há muito, ou outros que o tempo e a vida me vão revelando.
Salvador Sobral é a  minha mais recente "paixão" e, desde que o descobri, vivo em estado de puro encantamento. Porque ele é muito mais que um músico excepcional, dono de uma linda e límpida voz, ou um intérprete de excelência. É alguém que tem qualquer coisa extraordinária, que acrescenta alguma coisa e que toca as pessoas (daí o sucesso que o levou à vitória na Eurovisão). É alguém que sente tão profundamente a música, que se entrega tanto, que a sua emoção nos atravessa a pele e o corpo e se aloja no mais profundo de nós.
Ouvi-lo é ouvir sempre uma versão diferente de cada canção, viajar com ele pelas melodias e pelo que ele lhes faz, e perceber que a arte tem essa capacidade maravilhosa de nos chegar à alma.
Ver e ouvir Salvador Sobral é, a cada vez, novo e diferente, mas ao vivo é melhor ainda. É sentir o privilégio de fazer parte daquele momento; é arrepiar-se, chorar, rir, calar-se e, em silêncio, escutar; é perceber que um espectáculo não é apenas reproduzir um disco, é soltar os sentimentos e deixar que as canções fluam, e sejam atravessadas por outras; é risco e improviso; é um extraordinário trabalho de conjunto (Júlio Resende, André Rosinha e Bruno Pedroso contribuíram também em grande medida para a magia do que se viveu esta noite no CCB).
E como se tudo isto não bastasse, há ainda a simplicidade de Salvador, o seu sentido de humor, a sua capacidade de se rir de si mesmo, que é prova de inteligência, a proximidade que estabelece com quem o vai ouvir, que torna tudo mais autêntico e nos chega melhor ao coração.
Por isso, mesmo eu que já vi excelentes músicos e assisti a concertos inesquecíveis, que já estava à espera de um bom concerto e ainda assim me surpreendi, apetece-me agradecer a quem nos dá a possibilidade de viver um arrebatamento destes, que é das melhores coisas que há na vida. E se a felicidade é, como creio, feita de momentos de plenitude, o que se passou hoje naquela sala fez-me, sem dúvida, ser (mais) feliz. E isso é tão bom!...
Obrigada, Salvador.


domingo, 25 de junho de 2017

Maior que o mundo



Há quem acredite que nada é por acaso. Eu também gosto de acreditar nisso, mas no fundo sei que foi um acaso que nos juntou. Depois, a magia daquele resto de sentimento irredutível às palavras que inexplicavelmente nos aproxima e liga a certas pessoas para sempre, fez o resto.  
Hoje, fazemos de tal modo parte da vida um do outro que tenho a certeza que sem ti a minha vida não seria tão boa. Juntos, já passámos por tudo: pela alegria e pela dor, pelo riso e pelas lágrimas, pela emoção e pela raiva, pela tristeza, pelo desânimo, pela coragem, pela felicidade. Já nos zangámos, discordámos e discutimos. Já vivemos tanto os limites do bom e do mau, que hoje sobra apenas a tranquilidade serena de nos sabermos sempre um para o outro, de nos admirarmos e apoiarmos, de nos entendermos para lá dos gestos e das palavras. Hoje, gosto de ti até com o que eu não gosto, ou talvez também por isso.
Ao fim deste tempo todo, que é a nossa existência inteira, sabemos que havemos de tomar conta um do outro para sempre, e que nada nem ninguém nos pode separar, porque estamos perto mesmo quando estamos longe e porque é enorme o que nos une. E temos uma história tão longa, bonita e secreta, feita de intimidade e de partilha, que só nós conhecemos pelo lado de dentro, por muito que outros digam, julguem, ou pensem o que for sem saber de nada.
Por isso, este dia não é só teu; é meu; é nosso. E porque nas grandes amizades também há amor, tal como nos grandes amores também há amizade, nesta nossa doce harmonia que não precisa nem de nome, que é força, amparo e aconchego, eu gosto de ti mais do que sei dizer; e sei que tu sabes sem que eu o diga.

domingo, 18 de junho de 2017

Greve em dias de exames? Sou contra!


A história não é nova. Há quatro anos os sindicatos de professores (sempre com a Fenprof e o inenarrável Mário Nogueira à cabeça) também convocaram uma greve para o dia do exame de Português. E foi uma enorme confusão, como é costume acontecer em circunstâncias semelhantes, que implicou a marcação de uma nova data para a realização da prova.
Em relação a este assunto mantenho a opinião que tinha na altura, a qual me valeu insultos e amuos de vária ordem, que na verdade pouco me importam. Penso pela minha cabeça em todas as circunstâncias e nunca fui, nem serei, corporativista. De resto, identifico-me pouco com a classe profissional a que pertenço.
Os professores têm naturalmente razões de queixa como tantas outras profissões. E têm, com certeza, direito à greve e a manifestar o seu descontentamento. Mas não pode valer tudo.
Ora, um exame é sempre uma situação de tensão, que pode ser vivida com maior ou menor ansiedade consoante o feitio de cada um. Já todos passámos por isso. E é claro que não é indiferente que o exame se realize no dia marcado, ou noutro dia qualquer. Porque um aluno prepara-se para fazer uma prova num determinado dia. E se o dia mudar continua preparado. Mas a incerteza sobre a realização da prova no dia previsto vem certamente aumentar o nervosismo inerente à situação de estar a ser "posto à prova", que é mais fortemente sentida nos 11º e 12º anos, porque disso depende muito do que vem depois.
Às vezes orgulho-me de ser professora; e outras, muitas outras, envergonho-me. Sei muito bem do que falo. Conheço bem demais os professores (que também sou). Conheço-os no que há neles de bom, de excepcional até, nalguns casos; e também no que há neles de mais desprezível e medíocre. Conheço a escola há muitos anos, por dentro e por fora. E muito do que nela se passa não chega nunca a toda a gente. Felizmente, diria eu.
Fazer greve num dia de exames é, quanto a mim, antes de mais, um mau exemplo educativo, que consiste em passar para os alunos a mensagem implícita que vale tudo para se tentar obter o que se pretende.
O episódio de há quatro anos levou o governo de então a alterar a Lei Geral do Trabalho em Funções Públicas, a qual prevê agora no seu artigo 397º, alínea d), a possibilidade de existência de serviços mínimos na Educação, sempre que tal implique a "realização de avaliações finais, de exames ou provas de carácter nacional que tenham de se realizar na mesma data em todo o território."
Assim, veremos o que se passa na próxima quarta-feira. Mas seria bom que os professores tivessem a sensatez de não embarcar nestes calendários sindicais sem pensar muito bem no que está aqui em causa, e esquecendo os alunos com os quais trabalharam o ano inteiro, que estarão especialmente ansiosos por estes dias. E não aumentar essa pressão, que já é grande q.b. Ou então não se admirarem nem queixarem de serem um classe pouco considerada pela opinião pública em geral, muitas vezes sem razão, mas muitas outras por se porem mesmo "a jeito"...

sábado, 17 de junho de 2017

Um filme nostálgico


Por uma vez a tradução do título do filme "O sentido do fim" aproxima-se do original, The sense of an ending.
Não é um filme triste, mas é um filme dominado pela nostalgia, que tem a sua maior força no peso das interpretações, como é próprio dos britânicos. Jim Broadbent e Charlotte Rampling (a mostrar-nos de forma evidente as marcas visíveis da passagem do tempo e como, apesar delas, é possível manter a classe e a elegância) são os dois principais vectores de uma história que adapta um romance de Julian Barnes, que trata da intromissão no presente de um passado adormecido e mal resolvido, ou de como à distância dos anos vemos tudo com outros olhos.
Mesmo abusando um pouco do flasback, o filme segue-se com interesse e é agradável de ver, sem ser marcante, nem excepcional.

quarta-feira, 14 de junho de 2017

Ver


Tendemos a tomar como garantido aquilo que temos, sem considerar que de um dia para o outro tudo pode alterar-se e que, para o bem e para o mal, a vida sempre nos surpreende. Mas nisso reside também grande parte do seu desafio e encanto.
O ideal é aproveitar ao máximo tudo o que temos de bom, aprender com os erros, e estar disponível para aceitar e continuar, na certeza de que a felicidade não é duradoura mas antes fulgurante, como uma soma de pequenos momentos de plenitude, conhecimento e comunhão.
Há, depois, muitas conquistas e derrotas que fazem parte do caminho. Com o tempo aprende-se que não ter nada pode às vezes querer dizer ter tudo, que mesmo os que mais amamos não nos pertencem, e que até a solidão pode ser boa e necessária. 
E que o amor é bem mais simples do que imaginamos, que as pequenas coisas insignificantes são muitas vezes as mais importantes de todas e que, na lógica serena do tempo que passa, é preciso, acima de tudo, acreditar.