terça-feira, 13 de novembro de 2018

Jaleo



Gosto muito de Espanha, na sua complexa diversidade, que é onde reside um dos seus maiores encantos. E apesar de haver muitas "Espanhas" e de todas poderem ser consideradas interessantes é com o sul que mais me identifico, com as cores fortes e o sentido positivo da vida, capaz de fazer de tudo uma festa. Gosto de flamenco, de touros e de tapas, de uma maneira às vezes um pouco ruidosa de expressar-se, das  peculiaridades de uma língua que fui aprendendo a conhecer, a compreender e a amar, mesmo com todas as palavras de sons guturais, para nós dificílimas de pronunciar.
É um país onde vou muitas vezes, por gosto e por necessidade, porque volto sempre com os níveis de  energia e de vitalidade em alta. E sinto-me mais ou menos em casa, ou antes como quando se visitam familiares com quem nos encontramos "a gusto", com quem temos sempre alguma coisa para descobrir, contar ou celebrar.
O barulho de fundo e o ambiente de festa e descontracção de uma qualquer praça espanhola ao fim da tarde, com muitas vozes misturadas e os gestos banais de quem simplesmente convive entre si e tem prazer nisso, transmitem-me uma inexplicável e contagiante alegria, na qual me revejo muito mais do que tradicional melancolia portuguesa.

quinta-feira, 8 de novembro de 2018

Tomem banho, por favor!...



Eu, que não tenho carro, sou uma verdadeira especialista dos transportes públicos, com tudo o que eles têm de bom e de verdadeiramente detestável. Colecciono muitas histórias divertidas, absurdas, incómodas ou caricatas, inimagináveis para quem não vive esta experiência colectiva no quotidiano e, por isso, desconhece um lado muito peculiar da vida da cidade.
Entretenho-me a observar as pessoas, nos seus gestos e olhares, nas suas atitudes e palavras e, a partir disso e do seu aspecto físico, do que vestem ou calçam, distraio-me muitas vezes a imaginar a história de cada uma, de onde vêm, para onde vão.
Mas os transportes públicos têm, também, contingências várias que podem fazer de qualquer viagem, ou percurso, um inferno. Vão da indelicadeza e boçalidade da maior parte dos motoristas, a todas as demoras, ligações e esperas intermináveis. E ainda, sobretudo no Inverno, quando os autocarros ou carruagens do Metro andam mais fechados, à consciência, que é quase certeza, de que grande parte da população é pouco amiga da água e sai de casa de manhã sem tomar banho, o que me parece absolutamente nojento.
Há pessoas que dizem preferir "tomar banho à noite". Pois sim, nada contra; mas, por favor, tomem outra vez de manhã. Como é possível sair de casa, depois de uma noite na cama a transpirar e sabe Deus o que mais, sem um mínimo de higiene pessoal?
Nesta altura do ano, sobretudo, o que é mesmo insuportável nos transportes públicos é a quantidade de gente, logo de manhã, a cheirar a raposinho...

domingo, 4 de novembro de 2018

Uma Estrela



Gosto muito de música. E gosto muito, também, de bonitas histórias de amor. Para pessoas como eu, a star is born ("assim nasce uma estrela") é, pois, um filme imperdível. 
O que há nele de mais extraordinário não é a história de duas estrelas, uma em ascensão e outra em declínio; não é Bradley Cooper que o realizou, co-produziu e interpretou muito bem, tendo até, para o efeito, aprendido a tocar guitarra e a cantar, com fantásticos resultados; nem sequer o facto de ser o quarto remake do filme de William Wellman, de 1937. Como não vi as versões anteriores, não posso fazer comparações, nem sei se é melhor Janet Gaynor, em 1937, Judy Garland, em 1954, ou Barbra Streisand, em 1973.  
O que este filme tem é Lady Gaga; e o filme é todo ela, porque é ela que lhe dá um brilho suplementar. Já eram sobejamente conhecidos os seus talentos musicais, decerto, mas Lady Gaga revela-se aqui, na sua primeira longa metragem, para além disso, uma extraordinária actriz, credível, magnetizante, capaz de nos agarrar e emocionar do princípio ao fim e candidata quase certa ao Oscar. 
Ally, a sua personagemé genuína e natural, desprovida da artificialidade da personagem que Lady Gaga criou para a sua trajectória musical e isso é, sem dúvida, uma agradável surpresa. Nunca conseguimos esquecer quem temos diante de nós e, talvez por isso, as cenas dos concertos são as que têm uma autenticidade e fulgor ainda maiores que as restantes. E depois, vê-la e ouvi-la cantar é por si só um espectáculo. Enfim, acho que é um filme que vale a pena ver. Eu gostei muito!

segunda-feira, 29 de outubro de 2018

Outono



Quando penso em Outono, vem-me inevitavelmente à memória Verlaine e cadência lenta deste poema, que sei de cor, e que começa assim:
Les sanglots longs
Des violons
De l'automne
Blessent mon coeur
D'une langueur
Monotone...
Porque o Outono é todo ele devagar. Associo-o à palavra melancolia, que é um pesar com beleza por dentro, uma tristeza misturada com doçura, tudo só intimidade e lentidão. E gosto do regresso do frio a atravessar-nos a pele, das cores quentes e do cheiros próprios da época, do conforto das roupas macias e de quanto sabe bem ficar em casa em noites que começam cedo e parecem enormes.
O Outono sabe a recato e a recolhimento, a silêncios e a vozes baixas, a lanches no sofá e a quietude, depois da agitação e exuberância do Verão e antes da chegada ruidosa e excessiva das "Festas".
Por estes dias, com a mudança de hora ainda tão recente, sabem bem as bebidas quentes, o calor de um abraço bom e a vida um pouco mais virada para dentro, entre a comoção perante o encanto do que nos rodeia, o barulho da chuva nos vidros, e a subtileza do tempo que passa quase sem darmos por isso.

quarta-feira, 24 de outubro de 2018

Caminhos


Por mais que confiasse na sua intuição e se deixasse levar pelo coração, havia na história da sua vida escolhas boas e más, surpresas e decepções, amores marcantes e outros que haviam passado sem fazer mossa ou deixar cicatriz. Havia as empatias imediatas, os interesses ou valores em comum e as afinidades de todo o tipo. Havia, também, talvez acima de tudo, o que se situa do lado do inexprimível e inexplicável, o que está para lá de todas as palavras e é só sentimento e emoção, que nos leva a aproximarmo-nos de umas pessoas e de outras não, a criar laços só porque sim, levados por um mistério qualquer que nos empolga, enternece e encanta, que faz o coração disparar no peito e depois se vai desenvolvendo devagar, na subtileza da partilha e da intimidade crescentes, até que o afecto se instale definitivamente, ou se perca para sempre.
Sempre fora de tudo ou nada. As meias tintas não eram para si. E por isso os amores fáceis e lineares nunca lhe aconteciam, nem a entusiasmavam. Eram as pessoas controversas e enigmáticas que a atraíam, como se houvesse naquela complexidade um mistério qualquer que fosse bom descobrir. Gostava de almas inquietas e errantes como a sua, da mistura de paixão e racionalidade, de risos fáceis mas não patetas, de sensibilidade sem lamechices. Gostava de mãos grandes, de abraços apertados e de palavras sussurrados ao ouvido em momentos de prazer e rendição. Gostava de se perder no fundo de outros olhos quando via neles a doçura que  converte os dias de estar juntos em dias inesquecíveis e bons.
Por isso não conseguia entender muito bem os que via preferir qualquer coisa morna ou mais ou menos satisfatória ao temor de se acharem a sós consigo mesmos, por mais que tentasse convencer-se que eram infinitas as possibilidades de encontrar o caminho certo, e que cada um escolhe o seu.
Aprendera a viver a vida sem amarras, sem pressa e sem medo, a entregar-se de alma e coração sempre que o amor chegava à sua vida, imponente e grandioso, animando-lhe o corpo na vertigem do desconhecido e no temor da novidade que se adivinhava na luz de novos olhares. Mas prezava a sua liberdade e precisava às vezes de silêncio e solidão para reencontrar o equilíbrio, pois acreditava e sentia que nessa alternância estava a sabedoria de viver de forma serena e feliz.
E, no entanto, ligava-se fortemente às pessoas e aos lugares, e parecia existir em aparente e constante contradição, entre a incerteza de ir escolhendo o rumo a seguir em quase total independência e a necessidade de voltar onde e a quem era sempre o seu porto seguro.
Diziam-na forte e arrojada quando no mais fundo de si se vira tantas vezes frágil e vulnerável, exposta e desprotegida, embora lhe soubesse bem poder ter um refúgio onde se acolher, deitar a cabeça e descansar, um colo a saber a casa e um corpo que conhecia de cor, sem necessitar de juras de amor eterno, de ciúmes parvos ou de sentimentos de posse, nem nunca precisar de assumir amores perante os olhos do mundo, que os compromissos e os afectos fazem-se dentro de portas e de corações, no secretismo de duas vontades que se conjugam.
Sabia que todas as pessoas, mesmo as que mais amamos ou admiramos, nos desiludem e magoam. E que algumas acabam por afastar-se a determinada altura sem uma razão óbvia, ou sem conseguirmos encontrar um motivo suficientemente válido que o possa explicar. Mesmo sem saber o como, o quando, nem o porquê de muitas coisas, acreditava que a vida se encarrega sozinha de fazer uma selecção natural e permitir que o bom permaneça e que o que não faz sentido ou não presta se vá perdendo no percurso.  E entre dúvidas e vontades, entre o que queria e não queria entender, ficava a certeza de que só estava no seu coração e  na sua vida quem tinha nela lugar cativo e de que, quando fechava uma porta, era para nunca mais a voltar a abrir.

quinta-feira, 18 de outubro de 2018

Socorro, vem aí o Natal!...


Ainda faltam dois meses para as festas, mas na Avenida da Igreja reparo que já estão instaladas as decorações de rua. E essa constatação faz despertar em mim todos os sinais de alarme.
Lá vêm outra vez os sorrisos de plástico e as alegrias postiças, que se usam naqueles dias e se deitam fora imediatamente depois. E o trânsito infernal, o consumo desenfreado, a correria associada a uma festa que é agora muito mais de aparências, de excessos vários e de cansativas "obrigações" que de afecto genuíno, de paz e de tranquila simplicidade, como deveria ser.
É por isso que, ano após ano, tenho cada vez mais vontade de me ir embora nesta altura, ainda que seja um desejo difícil de concretizar por várias razões e, também, porque não há sítio nenhum onde não seja Natal. Era bom que o Natal pudesse readquirir a sua essência: a força de acreditar, a esperança de nunca nos sentirmos vencidos, a ternura de bem querer, a cumplicidade dos afectos que nos guiam e nos acompanham na vida. Porque os que são mesmo de verdade estão sempre connosco sem precisar de "dias festivos". E há lá coisa melhor que o aconchego de um longo e sentido abraço...

segunda-feira, 15 de outubro de 2018

Um artista português


Não sou uma incondicional do Fado. Mas acho, ainda assim, que qualquer português gosta de Fado, nem que seja só um bocadinho, porque há naquele canto simultaneamente triste e arrebatado qualquer coisa que tem a ver com a nossa essência e que só nós conseguimos entender em toda a sua dimensão.
Por isso, apesar de nunca ouvir fado em casa e haver apenas dois ou três nomes que verdadeiramente me tocam, no fim de semana estive num concerto de Fado.
Pela terceira vez na vida fui ouvir Camané. E, como das vezes anteriores, não me arrependi. Durante cerca de duas horas deixe-me seduzir pela sua voz quente e forte e fui levada por uma viagem dividida em duas partes sem paragem no meio, a primeira dedicada a Alfredo Marceneiro e a segunda percorrendo a obra em nome próprio, com brilhantes incursões pela poesia de Cesário Verde, Fernando Pessoa ou David Mourão-Ferreira, na qual pude sentir, como antes, a magia pura que consiste em entender de facto o que é a "alma portuguesa": é aquela mistura de melancolia, paixão, garra e entrega total à emoção do momento, tudo pontuado pelo magnífico som da guitarra portuguesa.
Impossível ficar indiferente à intensidade de quem se dá assim, inteiro, e se adentra também pelo mais fundo de nós ou pelo mais lindo, amargo, comovente, sério, delicioso da vida. De um espectáculo assim sai-se obrigatoriamente engrandecido, de alma a transbordar e convencido de que há, em Portugal, artistas excepcionais, como Camané e os músicos que o acompanham: José Manuel Neto na guitarra portuguesa, Carlos Manuel Proença na viola, Paulo Paz no contrabaixo.
É por isso que mais do que no domínio do desporto, diante de uma selecção ou equipa futebolística qualquer, é em momentos assim, felizes e perturbadores ao mesmo tempo, que eu sinto orgulho de ser portuguesa.

Foste como quem me armasse uma emboscada
ao sentir-me desatento
dando aquilo em que me dei
foste como quem me urdisse uma cilada
vi-me com tão pouca coisa
depois do que tanto amei...