segunda-feira, 3 de novembro de 2014

Amor(es) de sempre

 
Sou de amores resistentes e mais ou menos assolapados. O francês é, das línguas que conheço, a minha língua do coração. Não sei explicar muito bem porquê. Não apenas por ter sido a primeira língua estrangeira com que tive contacto. É por uma razão mais funda. Há nela uma sonoridade que me toca de um modo particular e que me faz considerá-la a mais bonita de todas, ao contrário da maior parte das pessoas que tem tendência a preferir o italiano, para mim demasiado adocicado.
Tenho a sensação de a saber desde sempre, se bem que isso não seja exactamente verdade. Mas aprendi-a ainda antes de a aprender, porque a minha irmã começou antes de mim. E eu gostava tanto de ouvir aquelas palavras estranhas, que me soavam bem mesmo sem lhes conhecer o significado, que me entretinha a decorar textos do livro dela, que começava, ainda me lembro: Pierre est à la porte de la sallle de classe. Il frappe. Il ouvre la porte... ou, mais adiante, de aprender a dizer isto sem fazer  a mínima ideia do que dizia, mas que nunca mais esqueci:
Demain, dès l'aube à l'heure où blanchit la campagne
je partirai. Vois -tu je sais que tu m'attends
j'irai para la forêt, j'irai para la montagne
Je ne puis demeurer loin de toi plus longtemps.
Isto, soube-o muito depois, é Victor Hugo, que eu não fazia a coisa por menos...
Já adolescente, por coincidência, ou talvez não, grande parte dos meus amigos andavam no Charles Lepierre. Nessa altura, convencidos de que haveríamos de mudar o mundo e com a cabeça e o coração cheios de sonhos e de utopias várias, conhecíamos e cantávamos com fervor todas as canções de Moustaki, de Brassens, de Reggiani, Ferré e companhia, que sabíamos de cor,  mas cujas letras eu insistia em escrever na minha letra pequena e redonda nos famosos  "cadernos de canções", forrados de tecido e religiosamente guardados, anos a fio.
Hoje, a língua francesa faz quase parte de mim, trato-a por tu, e vivemos na mais absoluta intimidade. Não é a minha língua, mas diria que sou capaz de pensar, rir, chorar ou emocionar-me em francês, por mais estranho que possa parecer.
Trago comigo outros amores assim, intemporais e da vida toda, alguns mais secretos que outros. E em momentos de excesso de sentimentos, seja tristeza ou alegria, não é raro pensar num poema, ou numa canção. Em francês, pois claro. Hoje, foi isto:
Venise n'est pas en Italie
Venise c'est chez n'importe qui 
C'est où tu vas
C'est où tu veux´
C'est l'endroit où tu es heureux
Venise n'est pas là où tu crois
Venise aujourd'hui c'est chez toi
Faites l'amour dans un grenier
Et foutez-vous des gondoliers...
 
(Fotografia de Maria Cristina Guerra)

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