sexta-feira, 5 de agosto de 2016

Andar de autocarro em Lisboa


Contrariamente à maior parte dos portugueses, eu não tenho carro. Utilizo por isso os transportes públicos com frequência, sem o mínimo problema. Sou, de resto, uma espécie de especialista na matéria: conheço quase todas as carreiras e sei as ligações e os percursos para chegar no mínimo tempo possível onde quero. Tenho, também, uma colecção de episódios divertidos, caricatos, incómodos ou absurdos vividos nessas viagens e que fazem parte do lado mais pitoresco do quotidiano de uma cidade.
Mas quem, como eu, anda muito de autocarro, sabe também do desespero que é o serviço da Carris, em particular no Verão. O número de autocarros é reduzido em cerca de cinquenta por cento, diria eu, o que faz com que seja habitual em Julho e Agosto (que está fresquinho) esperar numa paragem meia hora até que chegue finalmente um autocarro. Depois, podemos ter a sorte de ter o ar condicionado ligado, o que é um alívio, ou preparar-nos para uma sessão de sauna, apenas porque o motorista não quer, ou não se lembrou, de o ligar. Já me aconteceu pedir para ligar o ar condicionado e responderem-me:"não deve estar a funcionar; entregaram-me o autocarro assim..." E, perante a minha insistência, lá acedeu a experimentá-lo, com alguma má vontade; afinal funcionava.
A maior parte dos motoristas necessita de facto de formação urgente. Em civismo e boas maneiras, sobretudo. Há de tudo: os que vão percursos inteiros a falar ao telemóvel; os que vêem uma pessoa que vem a correr para apanhar o autocarro e arrancam antes que ela chega; os que nas paragens de início de carreira deixam as pessoas na paragem ao calor, ao frio, ou à chuva, e não abrem a porta senão uns segundos antes da hora da partida; e uma esmagadora maioria que não responde aos bons dias e/ou boas tardes que eu e outros passageiros lhes dirigimos à entrada, em atitude de clara e incompreensível má educação.
Há também a questão da rendição do motorista que, inexplicavelmente, se faz a meio dos percursos e nunca nas paragens de início ou fim de carreira, que me parecia ser o lógico. Nestas circunstâncias, o motorista que deixa o serviço dá dois dedos de conversa com o que então o inicia (isto quando não tem que esperar que ele chegue, ou se aproxime tão lentamente quanto possível) e depois toda a gente tem de esperar o tempo que for necessário para que o novo motorista se acomode, ajeite o banco, arrume as sua coisinhas, faça umas anotações. Tudo isto demora, no mínimo, uns cinco a dez minutos. Cumprir horários também é assunto que desconhecem, mesmo aos fins de semana, em que não há a desculpa do "trânsito".
Nem de propósito, hoje, num dos autocarros em que andei, estava afixada à frente do meu nariz a "carta do cliente da Carris", na qual se podiam ler estas pérolas: Para a CARRIS a Qualidade é um desafio diário, assumido como um ponto de partida para a satisfação das necessidades e expectativas dos Clientes, e para o bem-estar social.(...) Assim, os nossos compromissos são: 
• Desenvolver a Rede, de modo a que qualquer ponto da Cidade tenha uma paragem a uma distância aceitável, tendo em consideração as condições e especificidades locais, assim como as necessidades dos Clientes, especialmente os que apresentam mobilidade reduzida; 
• Definir os horários de forma ajustada à procura, adoptando rapidamente as medidas correctivas que se revelem necessárias; 
• Disponibilizar uma informação clara e correta; 
• Promover acções que garantam a segurança dos Clientes; 
• Adoptar medidas que assegurem a regularidade, em colaboração com as entidades gestoras da via pública; 
• Desenvolver a rede de vendas e concretizar as melhores formas para facilitar a aquisição de títulos de transporte; 
• Manter as viaturas em bom estado de conservação e limpeza; 
• Assegurar a qualidade dos Recursos Humanos da Empresa; 
• Cumprir os requisitos legais quanto a emissões poluentes, contribuindo para a protecção do meio ambiente;
• Avaliar periodicamente, através de inquérito específico, o nível de satisfação dos Clientes; 
• Atender às reclamações e sugestões dos Clientes como fonte de informação para a melhoria contínua do serviço.
Será caso para dizer: "está bem, abelha..." Faz lembrar um diploma publicado há cerca de dois anos no Diário da República, que previa aplicação de coimas entre 50 e 250 euros a quem perturbasse os outros passageiros, entrasse ou saísse com lotação esgotada, ou projectasse objectos para o exterior, etc. Tudo muito bonito, mas apenas para que conste e para ficar no papel. Porque, de então para cá, não houve qualquer alteração neste sentido. E basta um grunho ter vontade de ouvir música aos berros para não haver quem ouse impedi-lo.
Não é que eu seja muito viajada, mas ainda assim, as capitais e cidades europeias que conheço têm de facto um bom serviço de transportes; e isso faz toda a diferença. Mas nesta, como decerto noutras matérias, somos ainda, claramente, do quinto mundo...

6 comentários:

  1. Tudo aquilo que diz resume-se em: "Respeito pelo outro!", que é coisa que infelizmente muitas pessoas (e não tem nada a ver com o ser rico ou ser pobre...mas com a educação) não sabe o que é!
    A maior parte das pessoas acha que tem direitos, mas esquece-se dos deveres, esquece-se que a liberdade dele(a) acaba onde começa a liberdade dos outros.

    Boas férias, nessa Lisboa que conheço pouco, mas de que gosto bastante:)

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    1. Pois, é falta de formação e de civismo, sem dúvida.
      Mas, enfim, não é por isso que Lisboa é menos encantadora. Merecia melhor serviço de autocarros, lá isso, sem dúvida... :)

      Boas férias também para si, se for o caso.
      Beijinho

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  2. Isabel, também viajo nos transportes públicos e tenho título de transporte mensal. Ou seja, motorista à minha disposição . Sou chique ! (risos )
    Pelo que relata tem pontos em comum com o que se passa comigo e com o que observo .Aliás, inscrevi-me em observadora de transportes...Pediram e eu aceitei. Reclamo com assiduidade para a empresa TST. Respondem-me sempre com bastante atenção, lá isso é verdade .
    Um dia o autocarro X não apareceu e apanhei um táxi, pedindo o recibo. Reclamei a situação com provas dadas . Tudo feito via Internet. Pouco tempo depois mandaram-me ir levantar o dinheiro correspondente ao que gastei no táxi. E mais nada !
    Pensei que a Carris tivesse melhor serviço em relação ao que se passa deste lado Sul ! Viajo mais no Metro ou a pé, em Lisboa.
    Bom Domingo ! Beijinho.

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    1. Eu também ando muito a pé, sobretudo agora que estou no centro. O Metro é rápido mas não chega a todo o lado (Amoreiras ou C. de Ourique, por exemplo). O serviço da Carris é em geral mauzinho, sobretudo no Verão.

      Beijinho

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  3. Encontrei-me com o seu blog via " pinta - amores " e a partir da sua sugestão no DO, blog de que sou fã. Obrigada por este encontro. Também utilizo os transportes públicos de Lx com um passe mensal e subscrevo na íntegra o seu post. Tenho apanhado viagens muito loucas (falta de educação e de civismo)e outras bem mais tranquilas. Gosto particularmente da Carris, mas encontro-lhe os mesmos pecados. Porque razão ao fim de 22 min. à espera de um determinado Bus, o painel indica outros tantos 26 de espera? Não se faz! Fico a ferver, vou para o Metro e concluo que a par de uma irritação demoro duas vezes mais tempo. O metro ganha pontos em termos de rapidez, mas por vezes não me sinto muito segura na presença de alguns companheiros de viagem.
    Muito boas férias.

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    1. Eu é que agradeço, Maria Amélia, seja bem-vinda.
      Pois eu gostava que a Carris tivesse melhor serviço, mas diverte-me às vezes a interessante experiência do quotidiano que é frequentar regularmente os transportes públicos: distraio-me a observar as pessoas, a imaginar-lhes as vidas e as histórias, ou deixo-me ficar no meu canto a pensar na vida, enquanto vou reparando no que está para lá da janela.
      Boas férias também para si.
      Beijinho.

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