quarta-feira, 12 de dezembro de 2012

Noites de Lisboa



Conhecida pelo seu romantismo meio decadente e  por uma  luz absolutamente  inigualável, Lisboa tem, também, uma extraordinária vida nocturna.
É quando o sol desaparece e o Tejo fica às escuras, que Lisboa desperta da sua habitual quietude  mais ou menos pachorrenta, se volta  para si  e se agita festiva, como uma adolescente em alvoroço.
Eu, que sou conhecida por ser muito "urbana", vivo em estado de permanente paixão pela minha cidade, caprichosa, cativante e sedutora a todas as horas.
Houve uma altura, há uns bons anos, em que saía quase todas as noites. Animada pela euforia da emancipação acabadinha de chegar, queria viver tudo de uma vez, como se nada, nem ninguém, me pudesse deter. Era o tempo em que tudo tinha que ser para hoje, já, agora mesmo. Em que queria ir aqui e ali, na sofreguidão desmedida de conhecer tudo e mais alguma coisa, restaurantes, bares, discotecas... E absorver, exaustivamente, o mundo de diversão que a noite me oferecia, que era de certo modo novo para mim e me encantava a ponto de não deixar sequer lugar para o  sono, nem para o cansaço.
Naquela época, todos os caminhos iam dar ao Xafarix, que era um dos lugares incontornáveis da noite de Lisboa. E onde, ainda por cima,  estava o Luís Represas, não na distância fria de um palco, mas coladinho a nós, com aquela voz única que Deus lhe deu, a cantar canções brasileiras (tantas vezes melhor do que as versões originais), lindas, que embalavam os nossos amores e desamores de então, que continuaram a fazê-lo durante uns anos e que, ainda hoje, me vêm frequentemente à memória. Como esquecer: Foi nos bailes da vida, ou num bar em troca de pão, que muitas gente boa...Não há ó gente, oh não, luar como esse do sertão... Prepare o seu coração, p'rás coisas que eu vou contar... E por falar em saudade, onde anda você... Quero falar de uma coisa, adivinhe onde ela anda...Ou ainda a Saudosa Maloca e a Teresa da Praia, em duetos tão deliciosos como hilariantes com um impagável Cajó?
E, no entanto, era quando a madrugada já ia adiantada e o Xafarix encerrava portas,  que aconteciam os melhores momentos, os mais emotivos, com um grupo restrito que se ia deixando ficar, a conversar, a beber, a comer tostas mistas, a rir e a cantar, em longas noitadas de  emoções, afectos e música, que, quase sempre, se prolongavam até à hora em que o dia já se fazia anunciar.
Guardo, bem vivas, muitas recordações boas desses anos e de incontáveis noites de farra total. Lembro-me, por exemplo, de uma vez ter estado connosco Pablo Milanês; e de outra noite em que fomos todos para minha casa, lá para as seis da manhã, comer bolo rei torrado com manteiga e ouvir Frank Zappa.
Entretanto já passou muito tempo, aconteceu muita coisa e todo aquele frenesim de outrora se esgotou.
Hoje, continuo a gostar da noite e de "sair", mas faço-o de maneira muito mais comedida, pensando nos efeitos colaterias que uma noitada à maluca pode causar no(s) dia(s) seguinte(s).
Ir jantar fora é um dos meus grandes prazeres. Gosto de bons restaurantes, daqueles onde o ambiente acolhedor, a comida e a bebida mais  requintadas, associados a uma excelente companhia, são a garantia de pequenos pedaços de paraíso. De momentos que fazem a vida valer a pena. E há restaurantes magníficos em Lisboa. Não os conheço todos, naturalmente, mas dos que já visitei (e repeti várias vezes) continua a ser, talvez, A Travessa, na Madragoa, que está no topo das minhas preferências. A isso não será indiferente a sua localização, no espaço meio feérico do Convento das Bernardas, que faz muito mais o meu género do que os ambientes frios e algo minimalistas do tipo  Bica do Sapato.
De discotecas nunca fui grande fã, embora tenha feito todo o circuito (kremlin, Plateau, KapitalLux, como todas as pessoas da minha geração), mas cada vez tenho menos paciência para esse tipo de espaços.
Para mim,  que sempre preferi os bares às discotecas, as melhores noites de Lisboa, as melhores festas, continuam a ser as do Xafarix. Há, agora, locais belíssimos, à beira-rio, ou com deslumbrantes vistas sobre a cidade, mas,  ali, no velho Chafariz de Santos,  vinte anos depois, o Xafarix continua igual e imparável, com boa música, muita alegria  e o sucesso que só consegue ter quem percebe o que anda a fazer. Mesmo se o Luís Represas  já só canta em dias de festa, lá está o Cajó para nos receber com a sua simpatia e boa disposição e sem o pretensiosismo exibicionista dos locais da moda.
Na verdade,  o Xafarix continua a ser um lugar de referência, um clássico, que eu não hesito em nomear como primeiríssima escolha, se me pedirem para assinalar um lugar para ir passar um bom bocado. E ainda que, actualmente, (e tirando a festa de aniversário, na noite de Santo António, que é imperdível e  em que acabo sempre por ir  "picar o ponto"), a minha presença no Xafarix seja incerta e pouco frequente, pelas mais diversas razões, é um sítio onde tenho sempre vontade de ir. Porque é como estar de novo na sala de velhos amigos, daqueles com quem nos sentimos bem, mesmo quando estamos muito tempo sem nos ver. E porque  é ali, naquele ambiente genuíno, festivo e acolhedor, entre risos e muita música, que continuo a sentir o aconchego e o bem-estar que só se sente em casa.

4 comentários:

  1. De Lisboa só me lembro do Procópio e do Metro e Meio, do Ad Lib e das discotecas de Cascais....há 40 anos ou mais...

    Mas o Porto tb está muito IN agora...eu é que já estou OUT!

    Bjo

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  2. OK, sem margem para dúvidas: somos da mesma geração :)
    Nunca mais voltei ao Xafarix, nem aos outros locais que mencionou (dizem que não devemos retornar aos sítios onde fomos felizes...), mas um bom jantar, num bom restaurante, com uma boa companhia e um bom vinho, só não vou se me esmifrarem todo. E mesmo assim... :)

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    1. Um bom jantar, num bom resturante com uam boa companhia e um bom vinho é mesmo do melhor que há. :))
      E depois, com o tempo vamos aprendendo que as coisas boas da vida são para saborear devagar...

      Beijinho

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