segunda-feira, 13 de maio de 2013

O Rocío colado ao coração

 

Esta é a semana do Rocío, a que antecede o fim de semana da Romería, que se celebra sempre  no Pentecostes. Por esta altura, as mais de cem hermandades preparam-se para fazer o caminho até à  Aldea del Rocío, a pé, a cavalo, em carroça, levando consigo o sinpecado (insígnia com a figura da Virgem do Rocío)  e a carreta que o transporta, os vestidos de flamenca, chapéus e flores nos cabelos, medalhas de romeiro ao peito e o coração cheio de alegria e de fé, na ilusão de viver uma vez mais um reencontro de amigos e de "irmãos", que se juntam, cada ano, naquela enorme festa, que parece sempre igual mas nunca  é a mesma, para rezar à Blanca Paloma e celebrar a vida.

 



 
Durante todo o fim de semana e até segunda-feira, quando acaba a Romería, o Rocío é uma aldeia que não dorme, em clima de festa permanente levada até ao limite do que o corpo aguenta, as casas de portas abertas, misturando o canto e a dança, a guitarra, a flauta e o tamboril com o trote dos cavalos e o chiar das carroças em incessante vai e vem pelas ruas de areia.
No Sábado, o dia é marcado pelas apresentações à Virgem, um desfile de hermandades que dura todo o dia e se vive em alegria, entre vivas e olés, palmas a compas de sevillanas, chapéus lançados ao ar, foguetes e lágrimas incontidas.
Mas é na madrugada de Domingo que toda a  aldeia converge para junto da ermita, para assistir ao momento mais alto e comovente da Romería:  a saída da Virgem, num silêncio imenso, quebrado pelas  palmas da multidão emocionada, unida pela força desabrida da fé, no momento tão ansiado em que se avista a imagem dourada surgir na noite,  sob o céu estrelado. E, até  ao amanhecer, a Virgem percorre a aldeia,  a visitar as hermandades, regressando de novo ao seu altar, na ermita branca, quando o sol já vai alto. 



E, no entanto, o Rocío é muito mais do que tudo isto. Porque para lá da realidade dos factos está, principalmente, o que não pode contar-se. Como se explica o Rocío a quem nunca o viveu? Como exprimir em palavras, o que é só sentimento e emoções à flor da pele?
Como transmitir a frescura do rebujito com sabor a hortelã? A comoção de ver chegar as hermandades com o cheiro dos pinheiros e o pó do caminho ainda agarrados à pele, o corpo cansado e os olhos brilhantes por chegar enfim à aldeia? Como revelar o som enlouquecido e cadenciado dos sinos,  tocando sem cessar? Ou  a calma tranquilidade do entardecer quieto e silencioso da marisma, a contrastar com o bulício da festa? Que palavras poderão dizer a sensação do recolhimento no meio da multidão, em silêncio diante da Virgem, sentindo a força da sua protecção, experiência única  de reencontro com o mais fundo de nós? Ou a magia dos instantes em que a festa se interrompe, às duas da manhã, e as luzes se apagam para entoar a Salve,  num coro arrebatado em que todas as vozes se unem e soam como um só clamor:  olé olé olé olé olé al Rocío yo quiero volver pa cantarle a la virgen con fe, con un olé, olé olé olé olé... 
Só quem já viveu o Rocío, nem que seja uma vez, pode entender aquilo de que falo. Há naquele lugar, na verdade,  um encanto especial que  se nos cola à vida e se guarda no coração. Porque há lugares assim, que se tornam nossos para sempre.

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Depois de 2000, quando tive o privilégio de estar na Romería pela primeira vez, já voltei mais sete vezes. E em cada ano que não vou, como este, é como se alguma coisa se quebrasse no mais fundo da minha alma, o que faz com que, à medida que a data vai ficando mais próxima, alastre no peito o sentimento doloroso de não estar onde devia.
E quer vá, quer não, quando chega o mês de Maio penso muito na Romería, momento fundamental do meu ano, com aquela dimensão espiritual que nos aproxima da nossa essência, como têm a Páscoa, ou o Natal, por exemplo.
Só os que, como eu, trazem este lugar consigo, marcado no peito e na pele para sempre, mais forte e mais fundo que  uma tatuagem, conseguem entender a nostalgia que me enche o coração, o pensamento a fugir para muito longe daqui, a querer levar-me para o Rocío nestes dias, detendo-se naquela aldeia tão extraordinária, onde nos evadimos e abstraímos do resto do mundo, tão diferente de tudo que chega a parecer irreal, como uma utopia onde o sonho e realidade se misturam e a vida se reinventa e ganha maior sentido.

4 comentários:

  1. Foram muitos anos a sair de Lisboa a esta mesma hora. É difícil faltar à chamada, faltar ao reencontro com amigos que te querem sempre presente e se desfazem em alegria nas partilhas que contigo comungam, é difícil abdicar do sentimento pleno que se alcança quando se pisa aquele solo tão saturado de magia, deixar passar mais um ano sem viver aquela transformação interior tão essencial e necessária. É difícil percorrer uma semana a imaginar dentro de nós o ritual de cada momento, sabendo a cada segundo, o que se estaria a fazer, o que se estaria a sentir, o que se estaria a viver. Faltar ao Rocio é como retirar a primavera da nossa vida. É difícil, difícil, difícil...

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  2. Sei que compreendes muito bem o que eu sinto nestes dias. Porque o sentes também! E é bom poder partilhá-lo com quem o compreende como ninguém.
    "Faltar ao Rocío é como retirar a Primavera da nossa vida", dizes tu. É como falhar com uma parte de nós (digo eu).
    Uma confissão: mesmo quando não vou, no fim de semana de Romaria uso a minha medalha de "romera", porque isso me faz sentir um pouco mais próxima do sítio onde deveria estar. Onde estou, de facto, excepto no corpo.

    Beijinho grande e bom :))

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  3. Mais do que religiosidade, há qualquer coisa de místico que me escapa por suprema simplicidade: nunca vivi essa romaria.

    (A Isabel é uma Mulher de paixões, está visto!)

    Beijinhos

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    1. É um lugar comum dizer-se que o Rocío não se pode contar; tem que se viver. Mas é tão verdade!
      A única coisa que sei dizer-lhe é que é diferente de tudo o que conhecemos.
      E que vale a pena ir lá pelo menos duas vezes na vida (acho que já lhe disse isto!): uma na Romaría e outra não. Porque o contraste é imenso. Não parece o mesmo lugar: vai da festa levada ao extremo ao silêncio e à solidão, como se de uma aldeia fantasma se tratasse. E o enquadramento ali junto ao Parque Doñana é totalmente de sonho.

      (Sou de paixões sim, completamente! Assolapadas mesmo ;)

      Beijinho Paulo! :)

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