quinta-feira, 1 de agosto de 2013

Lisboa (quase) só para mim



Não gosto do mês de Agosto. Nunca gostei. Nem mesmo quando  ele era sinónimo de férias obrigatórias, de descanso, e de dias tão pachorrentos que quase pareciam parados no tempo, como um imenso e longo Domingo, tudo fechado ou a funcionar só pela metade, pouca gente, pasmaceira e calor. Muito calor...
Nem para viajar o mês de Agosto me pareceu alguma vez ideal. Nessa altura, preferia quase sempre ficar quando todos escolhiam partir e a minha casa parecia-me o melhor lugar para me deixar estar, o refúgio mais perfeito para  fazer tudo sem pressa, virada para mim e para o meu pequeno mundo, com tempo, sem limites nem obrigações, nem coisa alguma que não fossem os meus desejos mais imediatos. E depois, a partir do meio do mês, voltavam as saudades da agitação habitual e a  vontade da rentrée e do seu sabor a novidade e recomeço, preparando-me para ela com dedicação e afinco.
E, no entanto, desde que, de há três anos para cá, Agosto deixou de ser férias e inactividade, longas manhãs de sono, de praia, ou de preguiça, descobri o encanto de poder ter Lisboa  quase só para mim e ela revelou-se-me uma cidade diferente, no inverso da euforia festiva do mês de Junho, mas que consigo sentir igualmente minha, ou mesmo mais ainda, com menos gente  mas não abandonada, muito mais lenta do que no resto do ano, oferecendo-se insinuante e lasciva no calor dos dias, ou na aragem  fresca de grande parte das noites.
É esta cidade tranquila que vou desvendando agora, a cada dia, logo de manhã, quando saio muito cedo, a despertar silenciosa e a cheirar  a Verão,  a espreguiçar-se ao sol, vagarosa, deixando ouvir o canto dos pássaros que anunciam o novo dia; ou quando me apetece demorar-me na rua ao fim da tarde, para a ver docemente embalada pelo Tejo e pela brisa suave que faz esvoaçar o meu cabelo enquanto me deixo seduzir e a olho enamorada, e o pensamento e a vontade me voam também no vento,  em insensatas fantasias, uma voz familiar a sussurrar ao meu ouvido, afagos de mãos grandes e quentes, o sabor de um beijo que ainda desconheço e o sonho de me deixar amar assim perdidamente, sob o olhar plácido e complacente de Lisboa em Agosto.  

(Fotografia de Paulo Abreu e Lima)

4 comentários:

  1. Todos os portugueses devem ter orgulho da sua capital ou, no nosso caso, cidade. A propósito, veja aqui isto...

    Apesar (ou por causa) da beleza da sua descrição, muitos locais de Lisboa encontram-se apinhados de turistas em Agosto.

    Beijinho :)

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  2. É verdade que, por exemplo, o Chiado e outros sítios assim estão apinhados de turistas em Agosto, mas quem conhece e ama a cidade como nós, e se orgulha dela apesar dos seus defeitos (ou também por causa deles, como é próprio dos grandes amores), sabe de mil um lugares mais ou menos secretos onde Lisboa pode ser (quase) só nossa. De resto, havemos de aprofundar este assunto! ;)

    Quanto à "beleza" de que fala e para lá deste amor que ambos partilhamos, sabe bem que as suas fotografias são igualmente inspiradoras (... e não meramente "ilustrativas").

    Uma última nota: Eu, que sou paixonada por cidades, adorei "isto", mas tenho que ver mais em pormenor, em casa, porque o computador aqui anda a ameaçar "ganhar vida própria" e nem sempre me obedece, ou fica super lento... Portanto, será mais um caso "à suivre..." ;)

    Obrigada, Paulo!
    Beijinho :)

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  3. Respostas
    1. Muito obrigada. É, pelo menos, muito sentido.

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