segunda-feira, 12 de novembro de 2012

Quando a anormalidade se torna normal


Hoje é muito mais comum ouvir-se falar mal do que ouvir-se falar bem. Tanto que as incorreções já não espantam ninguém. Pior: as incorreções vão-se transformando em "normalidade", perante a indiferença generalizada dos que consideram que dizer "assim" ou "assado" não tem a menor importância.
E, por isso,  predominam os  "prontos" "fostes" "hádem" "haviam" "diria-lhe" "eu chamo ele" "eu disse-lhe a ela"  "um dia solarengo" entre muitas outras distorções e monstruosidades, que se vão tornando banais.
Veja-se o seguinte diálogo:
- Ontem esteve um dia tão solarengo! Onde é que fostes ?
- Era para ir passear com a minha mãe, mas como haviam muitas pessoas na rua, eu disse-lhe a ela: Prontos! Ficamos em casa. Hádem vir outros dias assim. E ela chamou-me de preguiçosa. Eu diria-lhe que é mais uma questão de comodismo...
Quantas pessoas não acharão este diálogo perfeitamente correcto? Quantos não considerarão que cumpre a seu ojectivo de fazer passar uma determinada mensagem e que só isso importa?
No meio de todas estas barbaridades que,  a cada momento, ferem os ouvidos e fazem arrepiar os pelos dos poucos que ainda têm respeito e consideração pela nossa língua, assume particular relevância e complica-me de forma especial com o sistema nervoso o "chamar de...", que já se vulgarizou completamente. "Ela chamou os seus vizinhos de ignorantes" passou a ser regra, em vez da forma correcta: "Ela chamou-lhes ignorantes" ou "Ela chamou ignorantes aos seus vizinhos." Toda a gente, (incluindo pessoas supostamente intruídas e que teriam obrigação de saber como se diz), parece ter esquecido que se chama alguma coisa a alguém e não se chama alguém de alguma coisa. Porque não somos todos brasileiros, graças a Deus!...
Enfim, o domínio da língua e o uso que se faz dela também diz muito da cultura de um povo.

6 comentários:

  1. Assino por baixo.

    Não consigo pactuar com esse tipo de erros, que infelizmente, já são do domínio público.
    Vocês já substituiu o vós, vosso, convosco, que são muito mais bonitos.

    Não há telenovela que não nos atire com o "pedir em namoro" "já o perdoei", quero ir com vocês, etc.etc A palavra fogo! substitui o bolas, que não era bonito, mas considerado aceitável. O meu neto de 3 anos até dizem " Que nojo" quando naõ gosta de alguma coisa, o que acho deplorável.

    O problema é que aqui no Norte as pessoas têm gozo em falar mal e acham que não se justifica aprender expressões mais dignas e corretas.

    Mas não somos só nós. Basta ver séries em inglês americano para deduzir o mesmo. Até se ridicularizam os ingleses por falarem melhor, o que também não é verdade, pois no Yorkshire onde vivi, fala-se quase em dialecto!!

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Antes fosse só no Norte, Virgínia! Já era mau. Mas é também no Sul, no Centro, por todo o lado.
      Tinha-me esquecido do "pedir em namoro", que é também igualmente abominável. Enfim...
      Beijinho
      Isabel M.

      Eliminar
  2. A maior parte destes erros é oriunda da tradução de expressões inglesas para português; outras, aliterações do português do Brasil e outros, ainda, erros generalizados da conjugação do verbo haver (hei, hás, há, havemos, haveis, hão). Se na oralidade não me chocam sobremaneira, já na escrita...

    Uma confissão: vivi uns anos no Brasil e, muitas vezes, mesmo na escrita, baralho-me com os verbos de conjugação reflexiva pronominal. Por exemplo: "se me dá" ou "dá-se-me depois de um "não" ou de um "que". Mas nunca digo ou escrevo "despoletar" :)

    Beijinhos,

    (Não consegue retirar a verificação de caracteres...?)

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Paulo: confesso que sou um pouco "bimba" em termos de tecnologias e ainda "verde" nos blogues. Por isso, não faço ideia do que seja a "verificação de caracteres", mas se me explicar, se calhar, consigo retirá-la... ;)
      Beijinho

      Eliminar
  3. Mas eu esforço-me: fui à procura! nas definições, em comentários há uma opção "mostrar confirmação de palavras". Seleccionei "Não". Será isto? Saalooia!!!

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. É isto mesmo! Já andava a precisar duns óculos para decifrar algumas :)

      Perfeito.

      Eliminar