quarta-feira, 13 de fevereiro de 2013

Os erros do costume



Por deformação profissional, por mania da perfeição, ou por qualquer outro motivo que pode ser tão simples como uma mera questão de (bom) gosto, sou muito sensível ao modo como nos exprimimos na nossa língua. Sem eufemismos:  a verdade é que embirro abertamente com erros ortográficos. Tanto, que acho que até já o mencionei mais que uma vez,  aqui, no isto e aquilo. E que chego mesmo ao ponto de desconsiderar sempre um bocadinho uma pessoa que faz erros de português, daqueles imperdoáveis. Não as "gralhas", que todos vamos fazendo, por desatenção ou rapidez excessivas, mas os erros que revelam desconhecimento ou, pior que isso, que indiciam negligência e descuido; porque há pessoas que pensam que o erro é irrelevante, desde que a mensagem seja inteligível. Pois para mim isso é sinal de outros eventuais desmazelos; é, no mínimo, denunciador de alguma deselegância e até, se calhar, de desrespeito.
Poupem-me: erros não!  Nem ditos, nem escritos. Reconheço que às vezes levo tão longe esta minha aversão que, diante de um erro, tenho tendência para pegar numa caneta e emendá-lo de imediato, sem consciência de onde,  como, ou com quem estou a fazê-lo. Bom, um exagero!
Esqueçamos, por agora, o famigerado e funesto AO que, ao permitir e  ao impor a escrita em "acordês", muito contribuiu para a banalização do erro e que, hoje, dá direito a que quase tudo seja tolerado e considerado aceitável. Mas não é de "patos de silêncio" que quero falar, nem  sequer daqueles erros muito óbvios como os "prontos", hádes", ou "ouvistes". Ou do número elevado de pessoas que conjuga os derivados de vir como se fossem derivados de ver e diz com desplante e assertividade: Eu "intervi "e "ele interviu". Também não quero pronunciar-me sobre o Relvas que, recentemente, parece ter "ouvisto" qualquer coisa. Nem referir aquelas pessoas que teimam em corrigir o que está correcto. E que quando ouvem, por exemplo: "Obrigado por ter aceitado o meu convite", emendam: " Também me parece que foi bom tê-lo aceite". Nada disto...
Hoje quero falar em particular de dois erros, provavelmente ainda mais comuns que todos estes e que são dos que mais me complicam com os nervos.Trata-se de erros dados por pessoas letradas, ditos e escritos por quem tem pelo menos um mínimo de formação, nem que seja um curso feito na Lusófona, e que tem a obrigação de saber como se diz e escreve. Isto: a utilização do imperfeito do conjuntivo que, frequentemente confundido com o presente do indicativo pronominalizado, aparece escrito assim: "ficas-te triste por me ter ido embora ou  gostas-te de me ver partir?" em vez de "Ficaste"/ "gostaste".
E a conjugação do verbo haver, em afirmações deste tipo: "haverão outras coisas"; "Talvez hajam mais dias como este". Ora, o  verbo haver, quando usado no sentido de existir, conjuga-se só na terceira pessoa do singular,  nos vários tempos e modos (nada de haviam, houveram, haverão, haveriam, houvessem). Apenas como auxiliar, equivalente a ter, se conjuga em todas as pessoas. ("Eles nunca haviam encontrado nada de semelhante", por exemplo).
Diz aqui a senhora professora. E diz, também, qualquer gramática ou prontuário ortográfico, que podem (e devem) ser consultados quando há dúvidas.
Enfim, toda a gente deveria ter aprendido isto. Mas não parece...
Modéstia à parte, faltou-lhes, certamente, passar pela aula da Mouzinho!

10 comentários:

  1. Estive na aula da professora Mouzinho e gostei!:) Obrigada!

    Madalena Amaral.

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    1. Tão querida, Madalena! Eu é que agradeço...

      Aqui entre nós, confesso que já tenho saudades das aulas. Isto deve ser sinal de que está na hora de regressar onde pertenço ;)

      Beijinho
      Isabel Mouzinho

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  2. Pois é. Eu por exemplo, preciso de me socorrer com frequência dos prontuários, dicionários, e afins. Acho que cada um denota nos outros os erros referentes ao que tão bem sabe. Digo eu, que também me deparo a toda a hora com pessoas que precisam mesmo de se sentar à minha frente, ligeiramente à direita ou à esquerda, vá, no consultório de psicologia... Não ensino a escrever, eventualmente não ensino a viver, mas ensino coisas que é preciso saber. Modéstia à parte, claro. :)))

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    1. Naturalmente, CF!

      É uma estreia por aqui...
      Volte quando quiser. :))

      Isabel M.

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  3. Tem razão, Isabel, cada vez se ouvem mais bacoradas....

    E até nós acabamos por pactuar com elas aqui na net....

    Obrigada pela lição!

    Um bjinho de Ofir!

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    1. "Bacoradas" é o termo adequado. Adoro!
      Lição nenhuma, Virgínia. Foi mais um desabafo ;)

      Aproveite ao máximo os dias em Ofir, que ouvi dizer, agora mesmo, que até ao fim de semana vão ser dias de Primavera antecipada. E depois queremos ver as fotografias... ;)

      Um grande beijinho

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  4. E que bela aula acaba de dar a quem lê este seu post!Até há bem pouco tempo, gabava-me e sentia alguma vaidade em não tratar mal a minha língua, ou seja, escrevia com correção. Hoje já não digo o mesmo, e o culpado é esse "famigerado" AO. Começo sempre a escrever os textos de acordo com o novo acordo mas, muitas vezes, quando dou por mim,já estou a escrever como sempre escrevi...
    Não sendo grave, provoca-me algum desconforto...
    Bjo, Maria Vitória

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    1. Eu continuo a recusar-me a utilizar o AO, (por uma questão de princípio, de respeito pela língua e até de sanidade mental) e estou totalmente de acordo com Vasco Graça Moura nas posições que tem assumido publicamente sobre o assunto.
      Trabalhando no MEC, como calcula, isto não é fácil e já me tem valido muitos "raspanetes" dos meus chefes. Continuo no entanto a fazer-me "distraída". Pior vai ser quando voltar à escola. Mas não costumo preocupar-me por antecipação. Na altura, logo se vê...
      Beijinho ;)

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  5. Opsss… Vai na volta sou um dos visados. Mas, agora para apimentar um pouco a conversa, vou picar um pouco a Professora. Mas não leve a mal...

    Senhora Professora, estas coisas de ensinar (digo eu), não se deverão limitar ao domínio técnico dos temas, mas também, à capacidade de os expor de forma simples e clara. Eu que sou da área de engenharia (e logo cabeçudo no que diz respeito a letras), tenho frequentemente que explicar conceitos técnicos a pessoas não técnicas. E como o faço? Com muito jeitinho (que remédio)...

    A sua exposição relativamente ao segundo erro que mais confusão lhe faz, confesso que... Tive de ler a explicação 3 ou 4 vezes para a conseguir perceber. Tecnicamente perfeita? Não duvido, mas... Agora pensa: "mas para mim a explicação é óbvia, e toda a gente aprende isto na escola, logo deveria ser óbvia para todos..."

    Sim, mas a Terra também só é mais ou menos redonda, e se fossemos todos muito inteligentes ensinar seria fácil. Quererá isto dizer que, se tivesse passado pela aula da Professora Mouzinho, teria ouvido uma explicação técnica irrepreensível (não duvido), mas no final ficaria a olhar para o quadro e a pensar para mim mesmo "olha um palácio"...?

    Provocação da semana... E bom resto da mesma.

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    1. Não lhe pareceu clara a explicação sobre o verbo haver? Mas se quiser posso voltar a explicar de uma forma ainda mais simples. As minhas explicações não têm a pretensão de ser "tecnicamente perfeitas", mas tão rigorosas quanto possível e, isso sim, ajustadas a quem se dirigem.
      Sabe, se há coisa que eu sou é extremamente paciente e tenho a noção clara dos diferentes ritmos de aprendizagem. Por isso, posso garantir-lhe que se tivesse passado pela minha aula, como diz, não ficaria a "olhar para um palácio" desde que tivesse vontade de aprender.
      Hoje há nas escolas, infelizmente, muita gente que não quer aprender coisa nenhuma e a esses nem eu, nem ninguém ,consegue ensinar nada. Quanto aos outros, inteligentes ou não, pode ter a certeza que aprendem. Eles próprios poderiam até falar-lhe disso. As difculdades de aprendizagem de que tanto se fala hoje são quase inexistentes. Os maus resultados têm a ver sobretudo com falta de trabalho e de vontade. Garanto-lhe que consigo ensinar qualquer aluno que queira aprender alguma coisa.
      E pode deixar-se dessas "provocações", que não me sinto minimamente atingida.
      Bom resto de semana também para si.
      Isabel Mouzinho

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